2012: Babel – Mumford & Sons

Por: Renan Pereira

Embora esteja remodelada, a música de raiz está, definitivamente, de volta ao topo. Afinal, muito do que é visto hoje em dia no ápice das paradas de sucesso não passa de uma nova abordagem da música desenvolvida, há muito tempo, nas áreas rurais do globo – caso do country norte-americano, do tradicional folk inglês e da nossa música caipira. Enquanto, no Brasil, o que foi construído pelos grandes nomes do cancioneiro antigo se remodela com tons altamente comerciais no chamado “sertanejo universitário”, vertente mesclada por elementos de pagode, funk carioca e ritmos nordestinos (como axé, forró e arrocha), no exterior, uma nova abordagem das antigas ideias também vem ocorrendo com artistas que, cada vez mais, chamam a atenção do grande público. Se nomes como Wilco, Band of Horses, Fleet Foxes e Bon Iver renovam a velha música country com maestria, construindo com autoridade uma música que, mesmo atrelada à sonoridade das antigas concepções, consegue soar criativa, inédita, outros músicos insistem em utilizar a mesma “renovação” da música tradicional para fins visivelmente comerciais – assim como ocorre em nosso país. Banda mais famosa deste último grupo de artistas estrangeiros, o Mumford & Sons vem construindo uma sonoridade adorada pelo grande público, aclamada por meia-dúzia de críticos, mas incapaz de trilhar um caminho consistente dentro do country alternativo.

O maior erro dos ingleses do Mumford & Sons, porém, não é a pretensão comercial existente dentro de “Babel”, segundo álbum de estúdio do grupo. Por mais que a sucessão de faixas do disco evidencie a aposta intensa em um resultado programado, construído com cuidado a fim de soar de fácil acesso ao público que ouve rádio, que compra CD’s, DVD’s, broches e camisetas, não dá para malhar a banda levando-se em consideração apenas a sua ânsia em ganhar dinheiro. Como já dito em outras oportunidades neste mesmo blog, lucrar (ou querer lucrar) com o seu trabalho não é nenhum pecado, muito pelo contrário: é quase uma questão de sobrevivência. Mas é claro que tudo deve ser feito com honestidade; assim como nossos nobres políticos lucram incansavelmente com um trabalho muito mal feito, à margem da lei, uma certa leva de músicos procura, a todo custo, rebaixar a qualidade de seu som para poder ter acesso livre aos ouvidos do público massivo. O que o Mumford & Sons fez, para nosso bem, não foi uma música de qualidade necessariamente baixa, ao nível de “Camaro Amarelo” e “Esse Cara Sou Eu”, mas é inegável quão presunçosamente a banda trabalhou; afinal, “Babel” é, em sua totalidade, a mesma aposta batida de letras chorosas com rimas fáceis que tantos outros artistas vem construindo, sem muito mérito, dentro do mainstream.

Além de ser liricamente preguiçoso, “Babel” também peca quanto aos arranjos instrumentais, constantemente infiltrados por um banjo extremamente mal alocado; tentando, desesperadamente, maquiar seus instintos comerciais dentro de sua sonoridade folk, a banda passeia por um caminho lamacento, em que pouca coisa soa sincera. Afinal de contas, enquanto Marcus Mumford e “seus filhos” tentam passar a imagem de resgatadores da glória do cancioneiro tradicional, não há como não ficar assustado com a megalomania imposta na produção… É como se, de uma hora para a outra, os produtores de Katy Perry voltassem seu olhar para a música country, tornando “Babel” um registro tão super-produzido quanto “Teenage Dream”. Se perdendo dentro de suas obsessões, tentando fazer algo grande demais, a banda inglesa acaba se esquivando da sutileza, da simplicidade – ideias que sempre foram o grande diferencial dos mestres da música folk.

Dentre as boas coisas do álbum, há de se destacar o vocal de Marcus Mumford, sempre impondo uma boa carga sentimental às composições. Porém, nem o vocalista consegue escapar do resultado desastroso da faixa-título, que inicia da forma mais duvidosa possível a tortuosa viagem sonora imposta pelo álbum. “Whispers in the Dark”, a segunda faixa, é a mais clara demonstração do quanto, e até de forma exagerada, o Mumford & Sons se inspirou em Coldplay; ao ouvir a canção, não há como não mentalizar a imagem de Chris Martin, com um chapelão de palha, a interpretá-la dentro de um baile caipira texano.

De todas as apostas do álbum, a que mais constrange é “I Will Wait”, uma canção pseudo-country cujo instrumental parece trabalhar apenas como um enfeite, um pano xadrez a cobrir o prato principal – uma letra que poderia ser performada por qualquer astro pop em seu momento mais comercial. “Holland Road” também é ruim, até por mostrar que, ainda na quarta faixa, o álbum já pode soar repetitivo. Algumas canções de “Babel”, porém, até merecem um mérito positivo, como a quinta faixa, “Ghosts That We Knew”, que apesar de repetir a mesma fórmula de todo o álbum, é melhor construída, mais singela, e embora seja extremamente dolorida, consegue até soar agradável.

“Lover of the Light” não passa de um pop-rock com roupagem caipira, enquanto “Lovers’ Eyes” trabalha, com rimas pobres e versos mal-sucedidos, uma letra chorosa que, traduzida para o português, poderia ser muito bem interpretada pelos sertanejos que constantemente exploram as lástimas masculinas na chamada “música de corno”. “Reminder”, é uma canção rápida, quase inexistente, apenas abrindo caminho para a nona faixa, o único número de qualidade realmente alta dentro do disco; embora “Babel” soe arrastado, insistindo em propor sempre as mesmas ideias, a praticamente ignorar a maleabilidade da música, em “Hopeless Wanderer” pode ser encontrado um dos raros momentos em que a sonoridade do Mumford & Sons mostra-se empolgante, certeira, mesclando bem a música tradicional da primeira metade do século XX com o rock alternativo dos anos noventa.

Em “Broken Crown”, porém, temos o retorno da sonoridade batida que envolve quase a totalidade do álbum; a canção, pretensiosa como só ela, tenta abraçar o grande em toda sua duração, mesmo se mostrando incapaz de apresentar algo realmente conciso. Com “Below My Feet” e “Not With Haste”, o álbum vai encerrando sua viagem em círculos, propondo os mesmos temas com os mesmos elementos. Às vezes, o ouvinte pode até ficar confuso com tamanha repetição, afinal, não é muito raro que uma faixa de “Babel” soe praticamente igual a outra que já passou. Pode até parecer incoerente, mas o melhor conselho que pode ser dado a quem deseja conferir “Babel” é ter em mãos sua versão estendida; o cover de “The Boxer”, segunda das três faixas-bônus, pode ser uma prova de que o Mumford & Sons tem um talento oculto, que para gerar algo de grande consistência em um futuro próximo só precisa ser melhor trabalhado.

No fim, o que temos é um trabalho incoerente, tão genuíno quanto ingleses a investir nas tradições interioranas dos Estados Unidos. “Babel” é um álbum fraco, e bem produzido apenas ao que tange aos ideais comerciais; é um disco feito para vender bem, para através de suas rimas fáceis alcançar a paixão rápida (e passageira) do público de massa. É, enfim, um disco para agradar os ouvintes que vêem de bom agouro a repetição das fórmulas prontas, gerando aplausos dos adoradores da mesmice comercial. “Babel” pode até receber prêmios do Grammy, mas não consegue, apesar de suas pretensões megalomaníacas, gerar um ideal realmente grandioso.

NOTA: 3,9

Track List: (todas as canções compostas por Dwane/Lovett/Mumford/Marshall)

01. Babel [03:29]

02. Whispers in the Dark [03:15]

03. I Will Wait [04:36]

04. Holland Road [04:13]

05. Ghosts That We Knew [05:39]

06. Lover of the Light [05:14]

07. Lovers’ Eyes [05:21]

08. Reminder [02:04]

09. Hopeless Wanderer [05:07]

10. Broken Crown [04:16]

11. Below My Feet [04:52]

12. Not With Haste [04:07]

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