1984: Love at First Sting – Scorpions

Por: Renan Pereira

“Love at First Sting” é o mais famoso álbum do Scorpions, apesar de não ser o melhor registro da banda. Mas por mais que “Loverdrive”, “Blackout” e “Crazy World” detenham os momentos mais consistentes e brilhantes da banda alemã, é inegável quão poderoso e marcante é o seu nono álbum de estúdio, lançado em março de 1984. Embora tenha sido meticulosamente arquitetado para agradar o público norte-americano, sendo construído levando-se em consideração certas diretrizes comerciais, o que se ouve, felizmente, são músicas que muito longe passam do rock fanfarrão daqueles anos… Afinal, o que temos em questão é uma banda séria, sempre ciente de suas capacidades e sincera consigo mesma. Afiado e entrosado, o quinteto acabou emplacando em “Love at First Sting” muitos de seus maiores sucessos, seja com apostas pesadas ou melódicas, números altamente válidos apesar de sua fácil aceitação comercial.

Costurado com as mesmas linhas que bordaram o álbum anterior, o igualmente clássico “Blackout”, “Love at First Sting” peca quanto ao ineditismo. Também não é um trabalho complexo, e apesar de realmente deixar a desejar em alguns aspectos (até por se tratar do disco mais famoso do grupo), não deixa de ser competente, agradável do início ao fim. Instrumentalmente pegajoso, climatizado dentro da atmosfera da época, é um espetáculo de guitarras, ladeado pelos brilhantes duelos de Matthias Jabs e Rudolf Schenker – até porque, no fim das contas, todos os conhecidos elementos da musicalidade do grupo estão aqui em seu estado de graça. Klaus Meine e seu vocal correto, riffs impregnantes e bases concretas fizeram de “Love at First Sting” praticamente uma marca registrada da sonoridade do Scorpions.

Também vale dizer que vender bem não é nenhum pecado, assim como querer vender bem também não é. Apesar do fato de a qualidade e a comerciabilidade de um álbum de música serem, muitas vezes, praticamente antônimos, não foram poucas as apostas comerciais que conquistaram, além do público, a sempre exigente crítica. Se nomes como Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Queen e diversas outras marcas consagradas, na maioria das vezes, fizeram uma música de aceitação praticamente imediata, por que o Scorpions, uma marca bem menos poderosa, também não poderia fazer? Desde que não se embarque em mesmices, que não se perca qualidade e sinceridade, não há nenhum erro em querer lucrar com o trabalho que é feito.

A pesada “Bad Boys Running Wild” faz o disco se iniciar da melhor maneira possível, contendo um instrumental pulsante, puramente energético, empolgante e marcante, detentor de grandes riffs de guitarra. De “Rock You Like a Hurricane” nem precisa falar nada; é o maior clássico, a música mais conhecida e o grande hino da banda, um dos melhores e mais bem sucedidos singles de heavy metal de todos os tempos. Não espere o ouvinte, porém, uma sucessão completa de clássicos: muitas das canções do álbum são subestimadas até pelos fãs da banda, e o mesmo contorno épico do sensacional início não é uma constante dentro do disco; “I’m Leaving You”, por exemplo, não chega a ser uma música fraca, muito pelo contrário, mas inegavelmente passa longe de ter o mesmo poder das faixas anteriores.

A força, porém, volta logo com tudo em “Coming Home”, uma canção marcante, divida em duas seções bem distintas: inicia-se calma, melancólica, para se tornar, a partir de sua metade, um rock pesadíssimo, construído com maestria através de poderosos riffs de guitarra. A seguinte, “The Same Thrill” é soberba, ritmicamente hilariante, pesada como ela só, pegajosa e dinâmica; não somente é a melhor faixa do disco, como é uma das melhores composições da banda em todos os tempos. A semi-balada “Big City Nights” também é uma ótima música, criativa e detentora de um instrumental maravilhoso, competente e criativo, no qual o Scorpions dá praticamente uma aula de comerciabilidade com alta qualidade.

“As Soon as the Good Times Roll” inicia-se muito bem, mas acaba demonstrando ser, no fim das contas, uma daquelas músicas que muito prometem e pouco realizam, embarcando em cinco minutos que em nada acrescentam à sonoridade do disco; é apenas uma continuação pouco criativa das fórmulas prontas. A penúltima, por outro lado, é a impressionante “Crossfire”; construída com ares épicos, sendo detentora de um dos instrumentais mais bem pensados pela banda: é um espetáculo de arranjos, um número imperdível do grandioso catálogo de canções do grupo alemão.

Que bom que existem as baladas. Embora sejam praguejadas por um restrito do grupo de seres que se auto-intitulam “roqueiros”, sujeitos fanáticos e de mente fechada (aquelas criaturas cabeludas e mal ajeitadas, que fariam você atravessar a rua se estivessem vindo ao seu encontro, que cospem no gosto musical alheio e só olham para dentro do seu nicho), as músicas lentas e românticas são o que há, muitas vezes, de mais impressionante dentro da sonoridade pesada do hard rock ou do heavy metal; afinal, é a prova definitiva de que até os mais brutos são capazes de amar. A faixa derradeira de “Love at First Sting”, a tristonha “Still Loving You”, pode até ter suas características bregas, mas é uma música perfeita para o momento em que o ouvinte passa por aquela brava e indesejável dor-de-cotovelo.

“Love at First Sting” não é arte, mas é entretenimento puro, o rock pesado mais divertido e empolgante que você pode experimentar em alguns momentos da sua vida. Afinal, aqui os músicos do Scorpions são simplesmente eles mesmos, fazendo um som que, além de ter uma qualidade instrumental indiscutível, consegue atrair os ouvintes não por novidades e complexidades; ele simplesmente cativa. Claro que é extremamente importante prezar pelo vanguardismo, pelo refino, mas nunca se prenda apenas ao que há de mais extrema qualidade: cante música brega, dance no quarto e desafine no chuveiro, se divirta, seja feliz… E o que Klaus Meine, Rudolf Schenker, Matthias Jabs, Jimmy Bain e Bobby Rondinelli oferecem neste disco é, justamente, um momento para se desapegar dos questionamentos mais importantes e somente se entreter. Enfim, ouça “Love at First Sting” no volume máximo, e não ligue para quem está ao lado.

NOTA: 8,1

Track List: (todas as faixas creditadas a Meine/Schenker, exceto as duas primeiras)

01. Bad Boys Running Wild (Meine/Rarebell) [03:56]

02. Rock You Like a Hurricane (Meine/Rarebell) [04:12]

03. I’m Leaving You [04:17]

04. Coming Home [04:59]

05. The Same Thrill [03:31]

06. Big City Nights [04:09]

07. As Soon as the Good Times Roll [05:03]

08. Crossfire [04:36]

09. Still Loving You [06:33]

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