2013: M B V – My Bloody Valentine

Por: Renan Pereira

É até surpreendente, de alguma forma, falar sobre o álbum em questão. Afinal, ao longo de duas décadas, o terceiro álbum do My Bloody Valentine passou de uma quase certeza a uma das maiores lendas da música contemporânea. Pode parecer incrível, uma ficção pós-apocalíptica, mas aqui finalmente ele está, mais de vinte anos após o lançamento do memorável “Loveless”. Eis aqui, enfim, o terceiro e tão aguardado álbum do quarteto liderado por Kevin Shields.

Mais do que as distorções sonoras que formam a identidade musical do grupo, a carreira do My Bloody Valentine parece ser, constantemente, atingida por distorções temporais. Tanto que nem “Loveless”, ápice artístico do grupo, deixou de ser relativamente atrasado: o registro precisou de mais de três anos de produção para ser finalizado, além de ter exigido um investimento tão alto que quase levou a Creation Records a falência. Agora (ou melhor, durante os últimos vinte anos), desgarrados de qualquer gravadora, Kevin Shields e seus pupilos entregam ao ouvinte um trabalho independente, lançado via web, mostrando tudo o que o grupo pensara, prepara e gravara durante todos esses anos que passaram.

Além de quase eternas, as sessões das quais “M B V” nasceria foram pra lá de esporádicas. A concepção do novo álbum iniciou-se ainda nos anos noventa (enquanto os fãs ainda acreditavam em um sucessor de “Loveless”), mas uma pausa quase definitiva da banda, em 1997, estacionou tudo o que havia sendo realizado, gerando rumores de que Shields estaria, inclusive, sofrendo de bloqueios de inspiração e criatividade. Outros rumores indicavam, que mesmo com a banda fora de atividade, a produção do novo álbum continuava, mesmo que em um ritmo extremamente lento.

Para acabar com o burburinho que havia se instalado desde 1997, o My Bloody Valentine voltou novamente a se reunir dez anos depois, com Shields declarando que o grupo voltaria, enfim, a trabalhar na gravação de seu terceiro álbum – que, na época, segundo palavras do próprio Shields, estava 75% pronto. Só que as coisas com o My Bloody Valentine parecem acontecer lentamente, e como pode se perceber, nunca um quarto de um álbum demorou tanto para ser finalizado. Mas o que importa é que, definitivamente, o disco está lançado, devidamente finalizado, pronto para ser degustado tanto pelos fãs que, pacientemente, o aguardaram por duas décadas, quanto pelos novos ouvintes que surgiram durante todo esse tempo, admirados com o que a banda havia produzido no comecinho dos anos noventa.

Embora muita coisa tenha mudado do lançamento de “Loveless” para cá, é indiscutível que a força do My Bloody Valentine continua inalterada. Mesmo sem abandonar a sonoridade tradicional da banda, arquitetada em seus dois primeiros álbuns, o grupo irlandês, ciente da grande passagem de tempo, faz de “M B V” um registro que vai além de uma simples continuação de “Isn’t Anything” e “Loveless”. Kevin Shields, felizmente, não deixou de experimentar, de voltar o seu olhar para o futuro, enquanto tenta construir, com sua guitarra atmosférica, a perfeição dentro do shoegaze; por mais que diversas bandas novas, influenciadas pelo que o My Bloody Valentine fizera antigamente, tenham atingido um ineditismo maior dentro do gênero, não há como negar a grande novidade incluída dentro de “M B V”. Além de um conciso conjunto de nove canções, o novo álbum insiste em querer acrescentar, a cada instante de sua duração, algo a mais para a já consagrada sonoridade da banda, seja com novos experimentos ou com uma fantástica intensidade sentimental.

O disco é dividido em blocos, sendo que o primeiro, mais atrelado à busca incessante de Kevin Shields em alcançar todas as possibilidades de sua guitarra, se incia com “She Found Now”, uma grande faixa de abertura; totalmente inundada na densa atmosfera criada pela banda, nos apresenta o que melodicamente há de mais belo na sonoridade do My Bloody Valentine, levando o ouvinte a presenciar, conscientemente, o mais bonito e o mais longínquo dos sonhos. Em “Only Tomorrow”, é construído, dentro das apostas climáticas, um instrumental de enorme poder, mostrando, assim como o My Bloody Valentine havia mostrado há vinte e dois anos, uma beleza cativante mesmo em meio a tanta sujeira. Igualmente sentimental, “Who Sees You” consiste em mais um número clássico do My Bloody Valentine, que percorrendo um cenário barulhento, ruidoso, paira nas distorções e nos efeitos ondulados, casando impecavelmente os vocais e os instrumentos, a apresentar as formas mais serenas que podem ser encontradas em canções com pesados e sujos riffs de guitarra. No fim das contas, o título do álbum é perfeito, e por mais que seja bem simplório, praticamente define o que o disco é; ou seja, My Bloody Valentine em estado máximo, demonstrando com maestria todas as características sonoras que, tempos atrás, tanto agradaram público e crítica.

“Is This And Yes” é suave, somente voz e órgão, flutuando sobre progressões e finalizando-se de forma surpreendente, sem se resolver em um claro desfecho. Já “If I Am” é um daqueles números esperados, o que todo mundo imaginava que Kevin Shields poderia fazer com sua guitarra no terceiro álbum do My Bloody Valentine – o desfecho da faixa, porém, parece já anunciar o que intrigaria o ouvinte na próxima canção, com um moderno trabalho de sintetizadores. “New You” é, afinal, uma canção moderna, que brincando com a música eletrônica, consegue mostrar, muito mais do que os calendários, que muito tempo passou desde 1991. Complexa, detentora de diversas camadas sonoras, “In Another Way” funde o moderno e o antigo, talhando com contornos épicos uma sonoridade que, ainda repleta de “Loveless”, parece trilhar os novos rumos do My Bloody Valentine, com Shields voltando seu olhar para os próximos anos do século XXI.

“Nothing Is” é experimentalismo puro, uma explosão instrumental densa, pesada, quase robótica, e não poderia deixar de ser considerada a faixa mais “andrógena” do álbum. Também explosiva é a última faixa, “Wonder 2”, construída através de uma atmosfera inovadora, com distorções de força incontrolável, praticamente alocando o ouvinte dentro de uma furacão avassalador.

Soberbo, o novo disco do My Bloody Valentine é um daqueles registros que crescem a cada audição, tomando uma melhor forma à medida que o tempo passa e as conferidas se sucedem. Afinal, não há como contemplar todo o ambiente sonoro em apenas uma, ou até mesmo duas ouvidas. Como a obra de Kevin Shields é arquitetada em cima de camadas sonoras climáticas, os detalhes são tudo, construindo tudo o que há, e sendo fundamentais, assim como em um grande jogo de futebol, para construir o resultado final. Enfim, como não dá para presenciar todos os detalhes em poucas audições, o que se recomenda é adicionar o disco à sua rotina musical atual, e no fim das contas, o resultado certamente será positivo.

Dezesseis anos atrás, perguntado quando lançaria algum novo material, Kevin Shields respondera: “Definitivamente este ano, ou eu estou morto”. Felizmente, Shields continua vivo, finalmente um novo material foi lançado, e mesmo tanto tempo depois, ele continua a ser o grande mestre das distorções. E, por incrível que pareça, no fim das contas, a demora no lançamento de “M B V” nem soa tão má assim… Indubitavelmente, ela serviu para que “Loveless” fosse mais ouvido, melhor digerido, e por consequência, para o nome do My Bloody Valentine crescer em importância através dos anos, mesmo sem lançar nada de novo. E é ótimo ver que, mesmo com tanto atraso e com tantas expectativas criadas, “M B V” consegue agradar do início ao fim, fazendo a gente até perdoar o falso profeta Kevin Shields das promessas não cumpridas.

NOTA: 8,7

Track List:

01. She Found Now [05:06]

02. Only Tomorrow [06:22]

03. Who Sees You [06:12]

04. Is This and Yes [05:07]

05. If I Am [03:54]

06. New You [04:59]

07. In Another Way [05:31]

08. Nothing Is [03:34]

09. Wonder 2 [05:52]

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