1974: Queen II – Queen

Por: Renan Pereira

Uma louca aventura por temas espirituais e obscuros. Não é de se admirar que o segundo álbum dos ingleses do Queen tenha causado, na época, estranheza a muitas pessoas – afinal, naquele tempo, muitos ainda não conheciam verdadeiramente o Queen. Por mais que o primeiro disco do grupo tivesse alcançado status de “grande estreia”, recebendo elogios calorosos de toda a crítica, muitos dos elementos fundamentais da música do Queen vieram a ser apresentados apenas em seu segundo registro, implantando complexidade e megalomania à sonoridade outrora simples, que lidava basicamente com o rock da época. Em “Queen II”, Freddie Mercury e sua trupe propuseram ir além; nitidamente, procuraram superar a si próprios, se aventurando por terrenos inóspitos que viriam a revelar a real identidade da banda.

Não por menos, com o passar dos anos, o segundo álbum do Queen passou a ser visto com olhos mais abertos, servindo de legado para muitos artistas e bandas. Adorado por Axl Rose (que até tentou fazer algo parecido no polêmico “Chinese Democracy”), Billy Corgan, Steve Vai e demais músicos famosos, “Queen II” acabou se consolidando como o trabalho mais subestimado do Queen, o melhor e mais complexo exemplar desconhecido de sua discografia. Não é percursor como “Sheer Heart Attack”, nem tão brilhante como “A Night at the Opera”, e sequer tem o mesmo apelo popular de “News of the World”, mas é, sem dúvida nenhuma, um dos trabalhos mais atraentes que o quarteto inglês conseguiu construir ao longo de sua carreira.

Interessante do início ao fim, a sonoridade do disco é capaz de realizar algumas proezas; ao mesmo tempo que é feroz, não abandona a elegância, bem como há singeleza em tamanha grandiosidade. Passa pela música erudita, pelo que existia de mais pesado e de mais progressivo no rock, brincando com elementos pop em uma linguagem psicodélica – criando, enfim, um ambiente complexo, que se alterna entre sentimentos acolhedores, misteriosos, belos, assustadores e, porque não, inacreditáveis. Pois, certamente, há de ser bebido muito chá de cogumelo para contemplar, em nosso muito real, as viagens longínquas propostas pela banda.

O Lado A do disco, intitulado “White Side”, que contém cinco canções (quatro compostas por Brain May, e uma pelo baterista Roger Taylor), satisfaz o momento mais íntimo e espiritual do disco. O início se dá com a fúnebre “Procession”, um curto instrumental em que Brian May demonstra toda sua genialidade à bordo do som único de sua guitarra Red Special, gerando riffs que procuram se assemelhar, a todo instante, ao som de uma orquestra. Emprestando do rock progressivo a ideia de não haver um intervalo silencioso entre as faixas, “Father to Son” se incia imediatamente ao fim da faixa anterior, divagando sobre sentimentos fraternais em um cenário dinâmico, que ora apresenta o peso do heavy metal, ora mergulha em seções calmas de piano. A preocupação com o dinamismo foi, aliás, fundamental para todos os êxitos de “Queen II”, tornando-o uma audição intensa do início ao fim.

A bela “White Queen (As It Began)” é uma fantástica canção de amor, contendo ares místicos e uma das mais competentes demonstrações da alta qualidade harmônica que o Queen era capaz de alcançar, sendo envolvida por arranjos fenomenais, tanto vocais quanto instrumentais; além disso, contém um dos mais sentimentais solos de guitarra de Brian May. Cantada pelo guitarrista, “Some Day One Day” é notável pelos complexos arranjos de guitarra (que, com o tempo, viriam a se tornar uma das marcas registradas de May), enquanto “The Loser in the End”, ritmicamente impregnante, é a única colaboração de Roger Taylor no álbum como compositor e vocalista, encerrando a primeira parte do disco.

Imergindo os ouvintes na criativa mente de Freddie Mercury, o Lado B, intitulado “Black Side”, que pega da mitologia os principais temas de sua construção, detém o momento mais enferveceste do álbum, sendo altamente denso e tenso. Para começar, nada mais que uma batalha de ogros, que tal? A alucinante “Ogre Battle”, pesada e veloz, é um dos números mais impressionantes do Queen em seus primeiros anos; é notável pelo espetacular trabalho de Roger Taylor, tanto na linha “thrash” de bateria quanto nas altíssimas harmonias vocais, e por ser, definitivamente, um dos momentos mais “atmosféricos” de Brian May, alocando, com sua guitarra, o ouvinte dentro da batalha tratada pela canção. Continuando na temática medieval, a psicodélica “The Fairy Feller’s Master-Stroke” foi escrita por Mercury sob influência do quadro homônimo, pintado por Richard Dadd na segunda metade do século IXX.

Nada melhor que “Nevermore”, oitava faixa do álbum, para se contemplar a incrível qualidade de Freddie Mercury como vocalista; emotiva e melancólica, construída em piano, é uma canção interpretada com uma abertura total de sentimentos. A complexidade da nona faixa, “The March of the Black Queen”, é tamanha que pode até ser comparada, neste aspecto, à mais famosa composição de Mercury, “Bohemian Rhapsody”; afinal, marcha durante mais de seis minutos por diversas seções instrumentais, em um dinamismo absurdo, inteligente e criativo, que acaba caracterizando a faixa como um dos momentos máximos de todo o catálogo de canções da banda. Após uma belíssima progressão, “Funny How Love Is” se inicia pegando carona no desfecho da faixa anterior; é a música mais fraca do álbum, chatinha como ela só, mas mesmo assim não deixa de ter seus pontos complexos – principalmente na linha vocal extremamente alta imposta por Freddie Mercury.

A faixa final é “Seven Seas of Rhye”, a versão totalmente finalizada da última faixa da primeiro álbum da banda, que fala sobre uma terra fantástica na qual Mercury sonhava (e que foi, aliás, mencionada em outras composições do vocalista); projetada com maestria, mesclando as complexidades do disco com elementos comerciais, foi uma aposta óbvia para single, que acabou gerando o primeiro hit da banda.

Envolvente e complexo, “Queen II” é, afinal de contas, mais do que um simples álbum de música. Enquanto, em sua primeira parte, é uma audição séria que lida com os sentimentos cotidianos de qualquer um, ruma para uma segunda parte mítica, que pede para o ouvinte se desligar do mundo real e embarcar nas mais fantásticas e enlouquecedoras aventuras. Por mais que, às vezes, possa ser até assustador, ouvir as composições de Mercury no álbum é como voltar a ser criança por alguns instantes: despreocupar com a realidade, e simplesmente mergulhar na imaginação. Porém, o disco consegue ainda ser mais do que tematicamente delicioso, demonstrando qualidades capazes de chamar a atenção do povo grande; produzido com capricho, e detentor de uma qualidade harmônica invejável, é um espetáculo de arranjos, com os instrumentais provavelmente mais criativos de toda a história da banda.

Enfim, é um grande álbum, e embora seja até desconhecido pelo grande público, deveria ser indispensável em qualquer coleção de discos… E olha que nem é por causa de sua capa, a imagem mais famosa do quarteto.

NOTA: 9,5

Track List:

01. Procession (Brian May) [01:12]

02. Father to Son (Brian May) [06:14]

03. White Queen (As It Began) (Brian May) [04:34]

04. Some Day One Day (Brian May) [04:23]

05. The Loser in the End (Roger Taylor) [04:02]

06. Ogre Battle (Freddie Mercury) [04:10]

07. The Fairy Feller’s Master-Stroke (Freddie Mercury) [02:40]

08. Nevermore (Freddie Mercury) [01:15]

09. The March of the Black Queen (Freddie Mercury) [06:33]

10. Funny How Love Is (Freddie Mercury) [02:50]

11. Seven Seas of Rhye (Freddie Mercury) [02:50]

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2 opiniões sobre “1974: Queen II – Queen”

  1. Por incrível que pareça. esse foi o primeiro álbum do Queen que eu ouvi. Fascinante em todos os aspectos. Da primeira vez que ouvi até pensei em se tratar de um álbum conceitual, mas nunca procurei saber se ele realmente era. Mais uma excelente crítica, parabéns!

    Ps: Você colocou acidentalmente o “A Night At Opera” como a “A Day At Opera”, ou então quis dizer “A Day At The Races”. Hehehe.

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