2012: Devotion – Jessie Ware

Por: Renan Pereira

De todas as artistas femininas que gravaram seu primeiro álbum no ano passado, a que mais chamou a atenção foi, sem nenhuma dúvida, a britânica Jessie Ware. Ela, que já vinha trabalhando há um bom tempo, emprestando sua voz para diversos projetos, viu o nascer definitivo de sua carreira através do belíssimo “Devotion”, lançado no final de agosto de 2012. Musicalmente rico, liricamente forte e deliciosamente confessional, o primeiro registro da carreira da cantora passeia de forma grandiosa pelos sentimentos nele inseridos, atraindo uma devoção praticamente imediata do público e da crítica.

Mesmo que vá atrás do que vem agradando uma grande parcela do grande público nos últimos tempos, domando os mesmos sentimentos melancólicos cantados por artistas como Adele e Lana Del Rey, “Devotion” não é um trabalho óbvio da música pop, que procura soar comercial acima de tudo. Embora seja de fácil aceitação, o disco se mostra superior a quase tudo o que tem sido feito ultimamente, sabendo ser complexo ao mesmo tempo em que parece soar de alta agradabilidade aos ouvintes. No fim das contas, Jessie Ware e seus produtores acabam nos presenteando com mais do que um competente álbum de estreia: o grande destaque do registro está no que ele é, ou seja, uma bela viagem pelos sentimentos de sua personagem principal – no caso, a própria cantora.

Bem como “Kaleidoscope Dream”, do californiano Miguel, e o premiado “Channel Orange”, de Frank Ocean, “Devotion” foi um dos grandes registros de 2012 que, de forma convincente, acabaram por caracterizar o ano como um período de grande renovação dentro do R&B; uma renovação não apenas de nomes, mas de ideias. Mesclando a música negra (antiga e moderna) com elementos contemporâneos da música eletrônica, a se incluir os atuais rumos do hip-hop, tais registros não apenas lidaram com o que já estava feito, assim como não procuraram simplesmente abraçar o novo a qualquer custo. Competentemente, difundiram uma sonoridade que, longe dos exageros comercias do pop atual e da mesmice muitas vezes encontrada dentro do R&B, sabiamente afagam nossos ouvidos, e que, além de boa música, nos apresentam instantes consistentes de crescimento do gênero.

Grandioso, “Devotion” se inicia com o bom gosto de sua faixa-título, dominada pela sonoridade inteligente, através da qual Jessie Ware divaga sobre um relacionamento que já acabara há algum tempo; é, afinal, uma canção sobre saudade. A fantástica “Wildest Moments”, que compreende ápice épico do disco, é outra faixa finamente produzida, construída sobre um dinâmico terreno, contendo mais um rico aspecto sonoro; enquanto a artista canta suas tristezas, é impossível não se sentir atraído pelo seu charmoso vocal, bem como não há como não se solidarizar com a personagem da canção – ou, até mesmo, inseri-la em seus próprios sentimentos, recordando momentos mal-resolvidos. Não por coincidência, aí está outro grande acerto do álbum: saber atingir as emoções do público, transferindo para ele, de forma certeira, os sentimentos íntimos de Jassie Ware.

É interessante ver como a elegância não é deixada de lado em nenhum momento do disco: mesmo “Running”, que compreende seu momento mais dançante, sabe ser inteligentemente fascinante, mesclando as tristezas de Ware em um ambiente compreendido entre o R&B dançante e o pop alternativo; seus riffs de guitarra, apesar de serem apenas mais um elemento dentro da luxuosa produção, formam um tempero delicioso. Abraçando a música pop sem nenhuma moderação, “Still Love Me” escancara, durante toda sua duração, as ambições de Jessie Ware, vislumbrando sua obsessão pelo inédito e aceitável. Embora tenha uma qualidade rítmica invejável, a quinta faixa, “No to Love”, peca pela falta de dinamismo, e acaba se caracterizando como a canção mais fraca do álbum.

Com ares épicos, “Night Light”, dona de mais uma letra certeira e de um instrumental luxuoso, é uma prova concreta de que, além de um ótimo nome da nova geração da música britânica, Jessie Ware anseia grandiosidade; afinal de contas, não há como não imaginar a cantora, daqui a algum tempo, dentro do supra-sumo do pop mundial. “Swang Song” também é complexa, deliciosa, prendendo a atenção do ouvinte através de seus versos melancólicos, atraindo a cada passo rítmico que se sucede.

Um grande crédito também deve ser dado ao quarteto de produtores do disco. Julio Bashmore, Kid Harpoon, Dave Okumu e Keith Uddin demonstraram ser exímios conhecedores não só da capacidade de Jessie Ware, mas de todas as disposições do pop moderno (construindo, desta forma, uma sonoridade profunda que surpreende a cada canção). “Sweet Talk” também é produzida com maestria, e apesar de liricamente complexa, procura soar de aceitação mais imediata, sendo claramente projetada para o grande público. Já, a agradável “110%”, topa atravessar o Atlântico, deixando a terra da Rainha para trás a fim de atingir de corpo inteiro o R&B tradicional dos Estados Unidos.

A belíssima “Taking in Water” é uma daquelas canções capazes de fazer o ouvinte viajar, independente de sua preferência musical. Aliás, é necessário afirmar que “Devotion” não é um álbum destinado aos amantes do pop moderno, ou aos admiradores do R&B; é mesclado por rock, lo-fi, soul music, levando suas canções a um rumo muito mais aventureiro e mais abrangente em comparação ao que normalmente se ouve no, muitas vezes, repetitivo pop atual. É a doce “Something Inside” que finaliza o álbum, em mais uma bela produção adornada pela elegante (e tristonha) voz de Jessie Ware.

“Devotion” é muito competente, consistente, uma grande estreia capaz de surpreender. Não é, porém, uma grande obra de arte, e embora não seja um álbum perfeito, é perfeitamente competente para apresentar Jessie Ware ao mundo. Através dele, afinal, vagamos pelo que há de melhor construção dentro da música pop atual.

Tematicamente forte, bonito e dolorido ao mesmo tempo, “Devotion” faz o ouvinte passear pelas nuances do pop enquanto Jessie Ware canta suas aflições. Por mais que seja atraente de uma forma até mesmo sádica, com o ouvinte se deliciando com as tristezas de Ware, o disco está muito além de um número simplesmente melancólico. É, afinal, um dos registros mais competentes que a música pop apresentou nos últimos tempos, vagando por uma sonoridade rica que cria a atmosfera perfeita para Jessie Ware brilhar, seja com sua voz doce ou com suas letras tristes.

NOTA: 8,5

Track List:

01. Devotion [03:24]

02. Wildest Moments [03:42]

03. Running [04:28]

04. Still Love Me [03:56]

05. No to Love [03:33]

06. Night Light [04:13]

07. Swan Song [03:43]

08. Sweet Talk [03:37]

09. 110% [03:27]

10. Taking in Water [04:27]

11. Something Inside [03:34]

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