1968: Creedence Clearwater Revival – Creedence Clearwater Revival

Por: Renan Pereira

Quando o Creedence lançou o seu primeiro álbum, em julho de 1968, já era uma banda experiente, com quase dez anos de história. Em 1959, John Fogerty (guitarra), Stu Cook (piano) e Doug Clifford (bateria) haviam fundado o trio instrumental The Blue Velvets, que em 1960, após a entrada de Tom Fogerty (irmão mais velho de John) para assumir os vocais, acabou por se tornar Tommy Fogerty & The Blue Velvets. O grupo lançara três compactos durante 1961 e 1962 pelo selo Oakland’s Orchestra Records, sendo que nenhum obteve um grande sucesso de vendas.

As coisas começaram a clarear para a banda quando em 1964 gravaram duas canções para o selo local Fantasy Records, que no ano anterior havia lançado um hit nacional com o pianista Vince Guaraldi. Quando lançados os compactos, um dos co-proprietários da gavadora decidiu renomear a banda para The Golliwogs, apesar do contragosto dos integrantes. A partir daí, o grupo experimentaria um grande sucesso local, se firmando como uma das bandas mais promissoras da Califórnia.

Mas, até a gravação do primeiro álbum de estúdio, algumas coisas haviam mudado na estrutura do grupo. Stu Cook acabou saindo do piano para tocar baixo, e Tom Fogerty rumou para a guitarra-base, enquanto John Fogerty viria a se tornar o vocalista, o principal guitarrista e o principal compositor da banda. Em 1967, enfim, o grupo mudou o seu nome para Creedence Clearwater Revival. A palavra “Creedence” foi inspirada no nome de Credence Newball, amigo de Tom Fogerty; “Clearwater” veio a partir de uma propaganda de cerveja, e “Revival” representou a renovação do compromisso dos quatro membros para com a banda. Em 1968, todos os integrantes largaram seus empregos, passando a despender todo seu tempo com o projeto, e desta forma profissionalizando-se como músicos.

O primeiro registro de estúdio do Creedence Clearwater Revival, muito mais do que uma estreia, acabou se caracterizando, com o passar do tempo, como o exemplar mais exótico da discografia da banda. Por ainda respirar os ares de 1967, elementos psicodélicos podem ser encontrados em muitos momentos do álbum, ao começar pela capa; há, ainda, uma aproximação muito grande ao blues (principalmente em “Susie Q”, cover de Dale Hawkins e primeiro hit nacional do grupo) e certos flertes com o acid rock, que acabaram por tornar o disco um registro que, em quase todos os momentos, se diferencia de tudo o que o Creedence viria a realizar nos próximos anos. Curioso, musicalmente dinâmico, e muitas vezes ignorado, o primeiro álbum do Creedence pode não estar no mesmo nível dos grandes clássicos da banda, mas é, além de um registro competente, um produto óbvio da banda naquela época: um misto das obsessões tradicionalistas de John Fogerty com as vertentes do rock que faziam massivo sucesso na época.

A primeira faixa é um cover: “I Put a Spell on You”, composição de 1956 do músico Screamin’ Jay Hawkins, foi regravada pelo Creedence com toques psicodélicos, mas sem abandonar o espírito predominantemente soul e blues da versão original; se trata, sem dúvida, de uma grande faixa de abertura, caracterizada por uma grande seção instrumental, em que se destacam, largamente, os belíssimos riffs de guitarra. “The Working Man” também é uma ótima música, construída acima de uma estrutura segura e inteligente, e novamente rodeada por ótimos riffs; o fato é que, nas duas primeiras canções do registro, já fica evidenciada a grande capacidade instrumental do grupo.

Talvez o maior êxito do Creedence em seu primeiro disco tenha sido transformar “Susie Q”, uma antiga canção e já regravada anteriormente por diversos artistas (incluindo Gene Vincent, Johnny Rivers e os Rolling Stones), em um single de grande sucesso – o único grande hit da banda não composto por John Fogerty; além disso, a versão do Creedence é notável pelas longas jams instrumentais com flertes psicodélicos, dando à faixa mais de seis minutos a mais de duração em comparação à versão original. “Ninety-Nine and a Half” é uma música deliciosa, com uma melodia agradável e mais um instrumental certeiro, mais um número consistente dentro do disco.

“Get Down Woman” é o maior encontro do Creedence com o blues-rock, com John Forgety vivendo seu momento de Eric Clapton, enquanto “Porterville”, a sexta faixa, é uma composição tradicional da banda, uma canção de estilo mais próximo às que seriam lançadas no próximo álbum do grupo, “Bayou Contry”. Aqui acaba ficando claro que, além de uma apresentação, o primeiro disco do Creedence serviu como um encaminhamento, capaz de reunir tudo o que a banda fizera desde quando se chamava The Golliwogs e, ao mesmo tempo, movendo seu olhar para o futuro a fim de fundamentar um som próprio e inconfundível. É verdade que o álbum “Creedence Clearwater Revival” não conseguiu criar tal sonoridade, mas seu encaminhamento para “Bayou Contry” foi fundamental.

A psicodélica “Gloomy” é uma boa canção, mas não está entre as melhores faixas do disco; apesar da boa qualidade instrumental e de um bem-vindo dinamismo, mostra que, acima de tudo, psicodelismo não era uma das vertentes em que o Creedence Clearwater Revival estava apto a lidar muito bem, e não por falta de competência – simplesmente, era algo que não casava, não combinava. A última é a bonita “Walk on the Water”, misteriosa e certeira, com um criativo instrumental.

No fim das contas, a estreia do Creedence mostra uma banda competente, e não muito além disso. Mas, apesar da sonoridade tradicional da banda ainda não estar fundamentada, o que se ouve é um álbum consistente, que em raros momentos deixa a desejar… Afinal, estrear com competência já é um grande ponto positivo. São apenas oito canções, que se sucedem em pouco mais de meia hora, mas que já dão provas da alta qualidade da banda; indubitavelmente, ficava claro que, em um próximo registro, o Creedence Clearwater Revival seria capaz de criar uma sonoridade incrível, com grandes feitos.

Conveniente e de grande valor histórico, o primeiro álbum do Creedence é uma audição muito interessante; consegue soar como um registro único apesar da música temporal, fortemente influenciada pelas vertentes de êxito daquela época. Mesclando sentimentos, principalmente as ideias tradicionalistas de John Fogerty com o psicodelismo, é um registro instigante; na época podia até não espantar, mas hoje é capaz de surpreender todos os ouvintes que, inteligentemente, forem atrás da discografia do Creedence Clearwater Revival – uma das mais brilhantes bandas de sua época.

NOTA: 7,9

Track List:

01. I Put a Spell on You (Screamin’ Jay Hawkins) [04:33]

02. The Working Man (John Fogerty) [03:04]

03. Susie Q (Eleanor Broadwater/Dale Hawkins/Stanley Lewis) [08:37]

04. Ninety-Nine and a Half (Won’t Do) (Steve Cropper/Eddie Floyd/Wilson Pickett) [03:39]

05. Get Down Woman (John Fogerty) [03:09]

06. Porterville (John Fogerty) [02:24]

07. Gloomy (John Fogerty) [03:51]

08. Walk on the Water (John Fogerty/Tom Fogerty) [04:40]

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