2012: Claridão – Silva

Por: Renan Pereira

Renovação parecia ser, no decorrer da década passada, uma palavra de difícil compreensão para a música popular brasileira. Quando os novos nomes da cena nacional não apelavam para uma cópia descarada do que se desenvolveu ao longo dos movimentos da bossa nova e do tropicalismo, muitos e muitos anos atrás, o que havia era a contemplação de algo até mais atual, mas igualmente “copiável”: não foram poucos os artistas que, babando nas barbas de Camelo e Amarante, insistiam em seguir exatamente a mesma linha sonora do Los Hermanos, em apostas que procuravam repetir o que havia sido desenvolvido em álbuns como “Bloco do Eu Sozinho” e “Ventura”. Agora, em uma nova década, parece que, felizmente, a música nacional está se renovando e evoluindo, deixando para trás os tempos que já passaram, mesmo sem ignorar o que já foi feito.

Tulipa Ruiz e seu pop florestal, Marcelo Jeneci e suas singelas composições, as melancolias claustrofóbicas de Cícero e o samba experimental de Wado, entre outros ótimos artistas com suas devidas marcas registradas, deram não somente um novo rumo para a música nacional em uma nova década, como também um novo fôlego para uma MPB até então tão carente de novos nomes com novos pensamentos. E o melhor de tudo é perceber que, mesmo munidos de novas ideias, com o olhar e os dois pés no futuro, não há a simples ideia de soar novo e inédito acima de tudo, deixando para trás tudo o que muitos dinossauros da música brasileira – de João Gilberto a Marcelo Camelo – fizeram em tantos anos de existência da MPB.

Felizmente, a renovação da música brasileira é algo que, neste momento, ainda paira sobre nós. O ano de 2012 nos trouxe, muito mais do que promessas de fim do mundo, o que parece ser o término definitivo dos tempos de improdutividade e mesmice da MPB – uma nova era, bem como profetizado pelos maias. Mais do que detentor de um belo conjunto de grandes canções, o jovem músico capixaba Lúcio da Silva Souza (ou simplesmente Silva) abraça o novo, sem temer o que a envelhecida crítica brasileira poderia rejeitar. Para a sorte de todos, Silva esbanja talento em todas as doze faixas de “Claridão”, primeiro registro de longa duração de sua carreira, sem deixar espaço para dúvidas quanto à sua qualidade.

Se até antigos nomes, como Caetano Veloso e Gal Costa, têm apostado na inserção da música eletrônica à MPB, não é de se admirar que um novo artista, como Silva, siga esta aposta cada vez mais corriqueira e bem-sucedida. Não que os sons eletrônicos sejam o grande destaque de “Claridão”, mas é fato que eles formam, em uma salada musical forte e consistente, uma base atraente para as singelas composições do músico capixaba.

Atual é um dos melhores adjetivos para “Claridão”, um registro com a cara e o espírito de 2012. Na primeira faixa, rodeado por batidas modernas, Silva divaga sobre o fim do mundo com uma admirável qualidade lírica, utilizando a linha vocal acolhedora de todas as faixas que se sucederão no registro; “2012” é, no fim das contas, uma canção muito bem produzida, de bela melodia e com uma letra adorável. “Falando Sério” é melodicamente fantástica, totalmente à vontade com seus elementos eletrônicos, e demonstrando, mais uma vez, a incrível qualidade lírica de Silva, que com letras simples e inteligentes, parece acertar com esplendor seus objetivos musicais. É impressionante ver como, já nas duas primeiras faixas do álbum, não resta mais nenhuma dúvida sobre sua grande capacidade; ele é, afinal, um dos nomes mais talentosos da nova safra da música nacional.

A beleza lírica de “Cansei” é marcante, com Silva escancarando sentimentos íntimos de forma magnífica, sabendo acertar em cheio as percepções dos ouvintes mesmo em um número introspectivo; sensacional também é a construção instrumental da canção, mesclando modernos sintetizadores com a elegância tradicional do piano. Apesar de ter uma sonoridade bastante inspirada em ideais estrangeiros, levando em consideração o lo-fi e o dream pop dos dias atuais, a brasilidade é um ponto forte da música de Silva; mesmo rodeada por sentimentos clássico-comerciais, a força de “12 de Maio” está nas batidas fortemente influenciadas por ritmos folclóricos do Brasil – em uma nova abordagem, é verdade, mas que não deixam de remeter a ideias tropicalistas cravadas há muito tempo. “Ventania” também parece trabalhar para fundir as tradições da MPB com o que há de mais atual na música internacional, como se quisesse levar Hollywood para o clima tropical do Espírito Santo; o ritmo é brasileiro ao extremo, enquanto sintetizadores e violinos insistem em dar um ar luxuoso à produção.

Ambientada em um cenário pop, que poderia muito bem ter pertencido a nomes comerciais da música estrangeira, “Mais Cedo” mergulha profundamente no R&B moderno, em uma estrutura menos dinâmica às demais faixas do álbum, mas tendo em mais uma singela letra um grande destaque. Batidas dançantes e que podem até lembrar vagamente o dubstep formam a faixa-título, produzida com maestria, e que através de mais uma concepção atual do clima tradicionalmente tropical da música brasileira, põe os dois pés na música pop, soando como uma aposta muito mais comercial do que conceitual. Os conceitos de Silva, aliás, passam longe da música experimental: no fundo, suas composições são de audição fácil, e mesmo que possam soar de caráter inédito aos ouvidos tupiniquins, lidam constantemente com elementos fundamentais da música pop. O que não é nenhuma novidade, visto que Gilberto Gil, Caetano Veloso e demais grandes nomes que revolucionaram a nossa música sempre tiveram um olhar atentamente voltado aos gostos do grande público – ou seja, não são nada novas as ideias pop dentro da MPB. A oitava faixa, “Acidental”, trata de seguir, claramente, essa mesma linha, embora sua melodia possa lembrar, principalmente aos ouvintes mais atentos, certos traços da música folk norte-americana.

Brincando com a língua portuguesa em uma sonoridade mais próxima ao Rio de Janeiro, com elementos de bossa-nova, “Posso” continua a levar “Claridão” a uma jornada convincente, onde nada soa de má qualidade – mais do que saber o que fazer, Silva sabe nitidamente como fazer. “Imergir” é esplendorosa, de uma incrível beleza, caminhando majestosamente através de uma letra inteligente e de um instrumental dinâmico e sentimental, que se aproxima da perfeição à medida em que se inspira em “Funeral”, clássico álbum dos canadenses do Arcade Fire. A penúltima, a excelente “Moletom”, que contém uma melodia espetacular e mais uma letra arrebatadora, poderia até ser o ponto alto do disco… o que se percebe, porém, é que no álbum não há somente um ponto alto: o terreno de “Claridão” está localizado em um alto pico que, devido ao talento de Silva, acabara por se tornar uma grande chapada, com espaço de sobra para inúmeras canções, e não apenas uma. A última faixa é espetacular: “A Visita” contém uma doçura irretocável, e através de uma melodia de agradabilidade máxima, é capaz de abrir um sorriso aos lábios de qualquer ouvinte.

“Claridão” é um registro atual e vívido, mas, acima de tudo, de uma beleza impressionante. É espantoso ver como Silva, ainda em seu primeiro álbum, já conseguiu construir um conjunto extraordinário de canções, já se firmando como um artista de invejável talento e segurança. Acertando em todas suas apostas, o jovem músico capixaba já se porta como um dos nomes mais aclamados da nova geração, bem como seu álbum de estreia já é um clássico imediato da música brasileira.

NOTA: 9,0

Track List:

01. 2012 [04:10]

02. Falando Sério [04:26]

03. Cansei [03:33]

04. 12 de Maio [04:16]

05. Ventania [05:39]

06. Mais Cedo [04:36]

07. Claridão [04:02]

08. Acidental [03:46]

09. Posso [02:12]

10. Imergir [05:01]

11. Moletom [05:15]

12. A Visita [03:00]

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