2012: Bloom – Beach House

Por: Renan Pereira

Provavelmente uma das melhores sensações de uma audição musical pode ser descrita pelo verbo “surpreender”. O inesperado, o inédito, que nos deixa boquiabertos e faz nossas percepções se alterarem é de intensa procura pelos músicos que insistem em elevar suas carreiras a níveis maiores. Afinal de contas, os trabalhos que acabam marcando não só uma época, mas como também as nossas vidas, são geralmente aqueles que, no momento mais estacado e da maneira menos esperada, têm a capacidade de surpreender. Há também a surpresa negativa, que decepciona e afugenta o ouvinte de um artista outrora considerado ídolo… Mas, felizmente, quando se fala em “Bloom”, quarto disco do projeto norte-americano Beach House, a positividade se alarga, pregando boas surpresas ao ouvinte em qualquer instante de suas dez faixas.

“Bloom” surpreende não por ser conceitual, ou por causar (ou querer causar) uma revolução dentro de seu gênero. O álbum todo é construído através das bases já edificadas do dream pop, soando muito mais como uma abrangente contemplação de tudo de melhor que já foi criado do que uma reinvenção dentro do gênero. O aspecto mais impressionante do disco está, na verdade, dentro da história do próprio Beach House: ninguém realmente estava esperando algo acima do aclamado “Teen Dream”, álbum lançado em 2010 e que acreditava-se ser o ápice do projeto. Com “Bloom”, acaba ficando claro que não se pode rotular um magnum opus para o Beach House, apesar deste registro ser, até o dia de hoje, sua grande obra.

O projeto, formado em 2004 pelo casal Victoria Legrand e Alex Scally, desde seus primeiros dias procurou desafiar os limites impostos pelo escasso recurso humano: tanto em estúdio quanto ao-vivo, foram sempre apenas os dois, e ninguém mais. Segundo Legrand, “com duas pessoas, é muito mais fácil de conseguir as coisas que se sentem novas e excitantes”. Desde o lançamento do primeiro álbum, em 2006, a carreira da banda se apresentou como uma das mais constantes e aclamadas dos últimos tempos, abrangendo em sua totalidade apenas ótimos registros: “Beach House” de 2006, “Devotion” de 2008, e principalmente “Teen Dream” de 2010, acabaram se caracterizando como uma bela jornada rumo a uma das melhores concepções de dream pop de todos os tempos.

O gênero, originário em meados da década de oitenta no Reino Unido, sempre ruminou muitas das características presentes em grandes discos da década de sessenta, como “Pet Sounds” e “The Velvet Underground”, enfatizando as texturas sonoras ao invés da construção a partir dos riffs de guitarra, como no rock clássico. Marco também para o refino do gênero foi “All Things Must Pass”, álbum clássico de George Harrison, produzido através de uma sonorização inundada por ecos e arranjos fluidos, características marcantes do gênero. Porém, foi na década de noventa e nos Estados Unidos que o dream pop se consolidou musicalmente, influenciando uma grande leva de novos músicos aficionados pelos arranjos sintéticos do new wave e do synthpop. Psicodelismo, música ambiente, post-punk e space rock são outros dos pilares deste subgênero do pop-rock, que tem principalmente nos vocais murmurados e arranjos ecoantes suas características mais perceptíveis.

Levando em consideração todos os trabalhos anteriores, tanto do próprio projeto quanto dos desbravadores do gênero, “Bloom” é um forte registro em que as melodias hipnóticas e as letras introspectivas do Beach House encontram seu ponto máximo. “Myth”, a primeira faixa, surge através de um belíssimo arranjo que vai crescendo aos poucos, ganhando contornos épicos à medida em que o límpido vocal de Victoria Legrand divaga lirismos de um existencialismo introspectivo. A seguinte, “Wild”, também abrange um belo ambiente sonoro, em que a bateria programada e os tímidos e certeiros riffs de guitarra de Alex Scally formam uma atmosfera acolhedora para os sintetizadores e a voz, que vão constantemente se completando em incríveis harmonias.

De sintetizadores simplórios surge “Lazuli”, que se encharca de melodia em uma viagem hipnotizante, através dos arranjos que vão levando o ouvinte para outra dimensão – a dimensão dos sonhos. “Other People” é construída acima de obsessões pop, tornando a música do Beach House tão acessível como nunca; os vocais são límpidos, as melodias são cativantes, e a produção consegue passear pelo seguro e pelo dinâmico com igual competência, perfazendo uma sonoridade agradável e de aceitação imediata. A quinta faixa, “The Hours”, se diferencia um pouco das demais por apresentar um conjunto mais encorpado de riffs de guitarra, se assemelhando mais a um indie rock. Por mais que “Bloom” explore valores já cunhados em outras oportunidades, a cada faixa que se sucede temos uma nova contemplação, um novo agrupamento de ricas referências, capaz de criar uma atmosfera norteada por belas e aconchegantes paisagens.

Procurando superar a si próprio, o Beach House vai criando em seu quarto disco um amável conjunto de arranjos tocantes, fazendo sua música alcançar níveis que até pouco tempo atrás eram considerados inimagináveis para muita gente. A belíssima “Troublemaker” faz com que o progresso do disco alcance sua máxima fluidez, onde todos os sons parecem se fundir, soando como se fossem construídos a partir de algo único, e não de vários instrumentos; os sintetizadores, a voz e os riffs de guitarra se completam, caminhando juntos como se necessitassem sempre da presença um do outro. Com belas harmonias vocais, “New Year” é mais uma aposta acertada, constituída por mais um grandioso conjunto de melodias impregnantes e arranjos acertados.

Sempre introspectivas, as letras procuram enfatizar sentimentos, sonhos, desejos. Assim também ocorre em “Wishes”, a oitava e mais melancólica faixa do disco, construída em uma base mais segura, menos flutuante, mas igualmente competente, onde até alguma suposta falta de dinamismo soa despercebida em função da inteligente construção musical. “On the Sea” é primorosa, rumando calmamente através de um arranjo tocante, lidando com sentimentos hipnóticos de calmaria, que só poderiam estar presentes no mais profundo dos sonhos, no momento mais pesado do sono: uma viagem existencial ácida, fora do intelecto, onde certos sentimentos obscuros só Freud explicaria. Como uma última divagação noturna, em que a hora de acordar se aproxima a passos largos, a longa “Irene” transmite as últimas percepções surreais do disco, abrangendo mais um número melódico com arranjos finamente construídos. No fim, como se a realidade fosse excessivamente concreta para a música do Beach House, a faixa escondida “Wherever You Go” tenta premiar o ouvinte com uma última contemplação dos sonhos antes do término do álbum… Os raios de sol da realidade vem à tona, e o que se percebe é que um dos melhores álbuns dos últimos anos acabou de ser apreciado.

Arranjos belíssimos, melodias psicodélicas e sentimentos existencialistas constroem “Bloom”, um registro rico e pulsante que aos poucos retira o ouvinte da realidade, levando-o ao mundo surrealístico imaginado por Victoria Legrand e Alex Scally. Com uma concepção totalmente acertada dos elementos do dream pop, o Beach House faz avançar o nível de sua música, podendo agora atingir um maior público em função da construção leve e de aceitação relativamente fácil de seu som.

Sendo um registro de audição praticamente obrigatória nos dias atuais, “Bloom” se eleva a quase tudo que tem sido feito ultimamente, e embora não seja uma grande obra de arte, contém uma qualidade rara: imprime nos ouvintes os sentimentos nele inseridos, fazendo com que o ambiente sonoro seja contemplado com a clareza que se procurava. “Bloom” é, enfim, um álbum para se ouvir e sonhar.

NOTA: 8,8

Track List:

01. Myth [04:20]

02. Wild [04:58]

03. Lazuli [05:02]

04. Other People [04:25]

05. The Hours [04:07]

06. Troublemaker [04:55]

07. New Year [05:23]

08. Wishes [04:40]

09. On the Sea [05:32]

10. Irene [16:57]

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