1978: Dire Straits – Dire Straits

Por: Renan Pereira

Ano de 1977. Enquanto o punk rock domina a cena britânica, e muitas das bandas clássicas entram em um processo de decadência, um Mark Knopfer recém-graduado em Letras enfrentava dificuldades. Ele, após enfrentar um processo de divórcio, havia começado a conviver com problemas financeiros, tendo que conciliar seu gosto pela música com o trabalho em uma dupla jornada: ao dia, era professor no Loughton College, enquanto à noite tocava com algumas bandas no cenário underground.

E foi basicamente da necessidade que o Dire Straits nasceu. Com pouco dinheiro, Mark Knopfer decidiu se mudar para o apartamento do irmão, David Knopfer, ficando mais próximo de um antigo amigo de David, John Illsley. Os três decidiram, enfim, montar uma banda, aproveitando seus gostos pelos instrumentos; recrutaram o baterista Pick Withers e começaram a ensaiar, com Mark nos vocais e na guitarra, David na guitarra-base e Illsley no baixo. Após alguns meses de ensaios, conseguiram algum dinheiro emprestado e gravaram um fita-demo com cinco canções, que incluía “Sultans of Swing”. Levaram a fita para Charlie Gillett, um DJ que apresentava na BBC Radio London um programa chamado “Honky Tonk”. Impressionado com o que ouviu, Gillett começou a incluir “Sultans of Swing” em seu programa, tendo boa aceitação do público. Dois meses depois, o Dire Straits já assinava um contrato com a Phonogram Records.

Talvez a maior motivo para o rápido crescimento do Dire Straits esteja no descontentamento em que se encontravam os amantes do rock mais clássico, que entrava em decadência com o reinado absoluto do punk. Detentora de uma sonoridade mais leve, logo a banda de Mark Knopfer chamou a atenção desta fatia de ouvintes órfãos, se mostrando como um contraponto para o rock pesado, rápido e direto da época.

O primeiro disco da banda, gravado entre fevereiro e o início de março de 1978, foi construído levando em consideração as antigas ideias do rock clássico, mesclando folk, blues e country. Mas, acima de tudo, a musicalidade do Dire Straits sempre esteve atrelada ao pub rock, um movimento britânico surgido na metade da década de setenta que procurava um retorno a uma sonoridade mais básica, mais simples, ignorando as ideias de grandiosidade do progressivo e o estilo extravagante do glam. Com a ascensão do punk ao mainstream, coube ao pub rock ser uma alternativa mais tranquila em relação àquele que se tornou o estilo dominante.

Instrumentalmente competente, pisando sempre sobre um terreno seguro, constituído pelos fortes alicerces do rock edificados principalmente durante as décadas de cinquenta e sessenta, o álbum de estreia do Dire Straits abrange uma sonoridade elegante e serena, com muitos toques reflexivos, alocados principalmente nas introspectivas letras de Mark Knopfer. Geralmente, as músicas englobam as  experiências de vida do vocalista; “Down to the Waterline”, por exemplo, traz à tona imagens de sua vida em Newcastle. Esta é a primeira faixa, que após se inciar misteriosa, ruma calmamente para um bonito instrumental, onde tudo parece estar perfeitamente alocado (os impregnantes riffs de Mark Knopfer, porém, não deixam de ser o grande destaque).

Com uma inundação de riffs country, “Water of Love” é outro número calmo e agradável, cuja instrumentação, apesar de muito simples, parece fazer a base necessária para a aclamada letra da canção, que acredita-se ser relacionada ao processo de separação enfrentado pelo vocalista. “Setting Me Up”, apesar da temática simples, com um romantismo tradicional, é liricamente brilhante, alternando de forma magistral os sentimentos: ora é bem-humorada, ora é amarga, doída; o instrumental também segue uma linha bem tradicional, em uma divertida e bem-sucedida revisitação ao rockabilly do final dos anos cinquenta e início dos sessenta. A quarta, “Six Blade Knife”, bebendo de influências blues, é uma faixa com uma sonoridade mais enevoada, mais sisuda, constituída por uma pesada linha de baixo e riffs mais discretos.

Os deliciosos riffs de “Southbound Again” são mais um momento para apreciação, enfatizando a alta segurança instrumental da banda enquanto lida com elementos da música folk – o próprio vocal de Mark Knopfer, nesta época, procurava se assemelhar muito ao de Bob Dylan. “Sultans of Swing”, a canção que elevou o Dire Straits ao mainstream, foi o grande single do primeiro álbum, sendo considerado um dos maiores clássicos do catálogo da banda, notável pelo grandioso e extraordinário solo de guitarra, talvez a mais impressionante atuação de Mark Knopfer no instrumento; escrita durante um dia chuvoso, em um bar de Ipswich, foi inspirada em uma medíocre banda de jazz que tocava no recinto praticamente deserto (além disso, “Sultans of Swing” também era o nome da banda de Mark Knopfer quando ele era um garoto universitário em Newcastle).

“In the Gallery”, faixa escrita em tributo ao escultor inglês Harry Phillips, é a canção mais duradoura do álbum, com mais de seis minutos; apesar de ter sido construída com visível bom gosto, abrangendo um elegante instrumental, soa um pouco arrastada, talvez pela repetitividade exagerada – no fim das contas, ela parece durar mais do que deveria. Inspirada nos primeiros dias de Mark Knopfer na capital inglesa, “Wild West End” soa regionalista e melancólica, parecendo desenhar gravuras vívidas de um passado não muito distante; é uma belíssima canção, que faz o ouvinte viajar através de seu instrumental calmo e melódico. “Lions”, a nona faixa, é também a canção que fecha o álbum, trazendo a guitarra de Mark em mais uma melódica e convincente atuação, sabendo como não se sobrepor aos demais instrumentos mesmo sendo o grande destaque; em toda sua carreira, o provável maior êxito de Mark Knopfer  foi ter a consciência de que a guitarra era sempre apenas um instrumento a mais, ignorando firulas e exageros – seus riffs eram tímidos quando assim a música pedia, mas sabiam mostrar o seu poder no momento certo.

O Dire Straits surgiu em um momento estranho do rock, onde fazer diferente era basicamente seguir as ideias do rock do passado. Por causa disso, a música do Dire Straits nunca foi considerada inovadora, revolucionária, pois também nunca procurou assim ser. Foi a banda que surgiu na hora certa, fazendo um som vívido e novo que muitos ouvintes, descontentes com o domínio massivo do punk rock, queriam ouvir. Suaves, leves, serenas, as canções da banda serviam como uma alternativa bastante interessante, dominando com maestria os ideais do antigo rock e contendo uma altíssima consciência musical. Apesar de estreante, o Dire Straits se portava como uma banda já experiente, tratando sua sonoridade com uma solidez invejável, às vezes até mais segura que as banda que, naquela época, estavam no topo.

O álbum de estreia do Dire Straits é, enfim, um registro conciso, que apesar de não figurar entre os melhores discos daquela época, sequer sendo o melhor álbum da discografia da banda, merece um bom destaque. Foi um debut convincente, um ótimo conjunto de belas canções, que tratou de apresentar ao mundo um grupo que viria a ser um dos mais elogiados da década seguinte, um reduto do bom e velho rock n’ roll em meio à utilização exagerada de sintetizadores. Com letras e instrumentais inteligentes, Mark Knopfer e sua trupe construíram uma carreira consistente, que recebeu os primeiros louros através de seu seguro e competente disco de estreia.

NOTA: 8,0

Track List: (todas as faixas compostas por Mark Knopfer)

01. Down to the Waterline [03:55]

02. Water of Love [05:23]

03. Setting Me Up [03:18]

04. Six Blade Knife [04:10]

05. Southbound Again [02:58]

06. Sultans of Swing [05:47]

07. In the Gallery [06:16]

08. Wild West End [04:42]

09. Lions [05:05]

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