2012: Unorthodox Jukebox – Bruno Mars

Por: Renan Pereira

Depois de estrear em estúdio em 2010, com o álbum “Doo-Wops & Hooligans”, Bruno Mars acabou conquistando uma grande parte do público e da crítica, sendo considerado uma das melhores revelações dos últimos anos e um dos artistas mais promissores da música pop. Apesar da irregularidade de seu primeiro registro de estúdio, suas grandes performances no palco e seu incontestável talento bastaram para ele se tornar, rapidamente, um dos nomes mais comentados da música atual.

O crescimento de Bruno Mars em seu segundo disco não era somente esperado, como também inevitável. “Doo-Wops & Hooligans” havia feito um bom papel para apresentar o cantor ao mundo, mas acabou se esquecendo de ser consistente, de estar ao nível do artista em questão. Sendo o músico detentor de uma bagagem musical gigantesca, abrangendo os mais diferentes estilos, os mais diferentes artistas das mais diferentes épocas, ficava claro que Mars era capaz de muito mais, de voar muito acima da sonoridade comum e pouco abrangente de seu debut. Portanto, todas as expectativas foram lançadas para seu segundo álbum, que veio a ver a luz do dia em 6 de dezembro de 2012.

“Unorthodox Jukebox” não é tudo que os mais entusiastas esperavam, mas é o trabalho que nos diz que Mars está no caminho certo. A evolução é perceptível, as capacidades do músico vem sendo melhor lapidadas, e uma maior abrangência musical nos mostra um Bruno Mars muito mais à vontade, mais sincero, muito mais completo e competente. Em suma, é um álbum que, apesar de ainda cometer alguns deslizes, acerta em quase todos dos seus pontos principais, sendo capaz de satisfazer quem aguardava um bom registro da evolução sonora do músico, e não uma obra fundamental do pop atual.

Viajando do eletrônico ao rock, passando pelo R&B e o reggae, Bruno Mars nos mostra um novo conjunto de facetas, que só vem a enfatizar a ideia de quão bom músico ele é. É verdade que pouca coisa no disco é realmente nova, de inovação não há quase nada… mas, muitas vezes, um ótimo agrupamento de referências já basta para se criar um álbum competente. Bebendo intensamente de fontes antigas, sejam sessentistas, setentistas ou oitentistas, Mars desloca seu olhar constantemente para o passado para escolher os melhores caminhos para o seu futuro. No fim das contas, ele parece ter acertado.

É com ares épicos e melódicos que “Unorthodox Jukebox” se inicia: a bela “Young Girls”, delicada e finamente produzida, é um ótimo número de entrada, apesar da letra apenas razoável – a impecável atuação vocal de Mars, por si só, já seria capaz de torná-la uma canção atraente. A segunda faixa, considerada por alguns como um dos melhores singles do ano, é uma agradável passagem pelo pop-rock da década de oitenta; “Locked Out of Heaven” soa como uma competente visita do The Police ao pop do século XXI.

Falando sobre sexo, com sentimentos machistas, “Gorilla” já procura apresentar um Bruno Mars mais crescido, mais atrevido, se sentindo à vontade para tratar de temas mais pesados; através de uma sonoridade que vagueia entre o R&B tradicional e toques de um rock mais pesado, Mars canta uma das canções mais introspectivas do disco, fazendo referência, inclusive, a sua prisão em 2010 por porte de cocaína. “Treasure” mergulha totalmente nos primeiros anos da década de oitenta, ambientada em um cenário repleto de  referências à sonoridade de Prince e Michael Jackson; é uma canção de formato tradicional, sem muito se aventurar, mas com uma performance competente.

Com uma produção impecável, “Moonshine” se apresenta como uma das faixas mais significativas do álbum, contendo um instrumental belíssimo, com ótimos riffs de guitarra, uma bonita letra e uma performance vocal pra lá de sentimental; dinâmico, em “Unorthodox Jukebox” Bruno Mars mostra ser capaz de trabalhar com os mais diferentes estilos de música com igual competência. É fato, porém, que ele ainda não parece estar muito certo do caminho a tomar em sua evolução musical; ainda sem muita segurança, Mars e seus produtores tratam de atirar para todos os lados – e eis aí uma das grandes inconstâncias do disco. Obviamente, é de grande valor a mescla de estilos, a incorporação de diferentes vertentes musicais; só que “Unorthodox Jukebox” não parece incorporar seus mais diferentes aspectos em um registro totalmente conciso. Espalhadas, as faixas não conseguem criar um vínculo, permanecendo desamarradas entre si e impossibilitando a formação de um conjunto impecável – há boas faixas, canções competentes, mas que soam muito distantes entre si.

Em “When I Was Your Man” há mais uma oportunidade para se contemplar o talento de Bruno Mars em canções românticas; construída em piano, melódica e sentimental, faz o artista viver seus momentos de versão masculina da cantora inglesa Adele. Em contrapartida aos momentos de romantismo puro das duas últimas faixas, “Natalie”, que conta com a inconfundível produção do premiado Paul Epworth, volta a trazer um Bruno Mars mais abusado, em um ambiente tomado pela riqueza  instrumental. Quem conferiu “Doo-Wops & Hooligans” sabe que Mars é um grande admirador de reggae, e em seu segundo álbum, tão abrangente, o ritmo jamaicano não poderia faltar; como bom havaiano que é, o cantor se sente seguro para cantar a música mais quente e tropical do disco, um reggae muito mais atraente que os presentes no disco de estreia do músico. Em um álbum tão voltado para as ideias do passado, “Money Make Her Smile”, detentora de uma sonoridade bem atual, que incorpora elementos do hip-hop e do R&B moderno, se comporta praticamente como uma ilha, rodeada pelo oceano formado pelas apostas muito mais seguras do que inovadoras.

É com o blues “If I Knew” que o álbum se encerra: novamente mostrando quão competente Mars pode se mostrar nos mais diferentes estilos, mas soando como mais uma tentativa de se encontrar um caminho… Afinal, que tipo de música Mars pode fazer? Talvez ele seja competente até em música sertaneja, mas é chegado o momento do artista fazer a sua estrada. A insegurança é até admissível em um segundo álbum, mas Mars deve tomar cuidado, pois não poderá passar toda sua carreira atirando para todos os lados.

Pois “Unorthodox Jukebox”, apesar de conter boas canções, em que nenhuma chega a ser mal resolvida, peca justamente pela desconexão entre as faixas. Bruno Mars é um ótimo cara, continua a ser um dos grandes nomes do futuro do pop, mas sua insegurança é tão incontestável quanto o seu talento. No fim, ele acaba ficando à mercê das apostas seguras e comerciais, de fácil aceitação. Mas uma evolução vem acontecendo: “Unorthodox Jukebox” é bem mais atraente que “Doo-Wops & Hooligans”, muito melhor produzido, e apresentando um artista que, em dois anos, cresceu o que se esperava.

Se Bruno Mars um dia será um dos pilares da música norte-americana, só o tempo dirá. Mas o fato é que ele vem crescendo constantemente e, acima de tudo, tendo a vontade de crescer. Não bastam talento e ótimas referências musicais para formar um grande artista, mas é bom perceber que Mars vem buscando alcançar o algo a mais que ainda lhe falta.

NOTA: 7,0

Track List:

01. Young Girls (Mars/Lawrence/A. Levine/Bhasker/Hynie) [03:49]

02. Locked Out of Heaven (Mars/Lawrence/A. Levine) [03:54]

03. Gorilla (Mars/Lawrence/A. Levine) [04:04]

04. Treasure (Mars/Lawrence/A. Levine/Brown) [02:59]

05. Moonshine (Mars/Lawrence/A. Levine/Wyatt/Bhasker/Ronson) [03:49]

06. When I Was Your Man (Mars/Lawrence/A. Levine/Wyatt) [03:34]

07. Natalie (Mars/Lawrence/A. Levine/B. Levine/Epworth) [03:45]

08. Show Me (Mars/Lawrence/A. Levine/Chin-quee/Chin) [03:28]

09. Money Make Her Smile (Mars/Lawrence/A. Levine) [03:24]

10. If I Knew (Mars/Lawrence/A. Levine) [02:13]

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