1983: Murmur – R.E.M.

Por: Renan Pereira

Pode até parecer estranho pensar assim nos dias de hoje, mas em 1983 nada soava como o R.E.M., banda norte-americana da cidade de Athens, Geórgia. Com ares de novidade, ignorando tudo o que se considerava popular e rentável, o som da banda foi gradativamente crescendo em popularidade em um cenário bem alternativo, tendo como maior público os jovens universitários. Foi nas rádios universitárias, aliás, que as canções do grupo começaram a ecoar, se alastrando rapidamente e levando o R.E.M., de forma concisa e veloz, a um grande sucesso underground.

O ambiente sonoro criado por Michael Stipe, Mike Mills, Peter Buck e Bill Berry acabou inspirando uma geração inteira, levando o rock alternativo a ter um importante e massivo crescimento principalmente em terras americanas. Mas um pouco antes disso, quando os anos oitenta ainda apenas nasciam, Michael Stipe era só um jovem obcecado pela música punk, um admirador de Velvet Underground, Television e Patti Smith, que em um belo dia decidiu adquirir, em uma loja de discos, os registros que mais o agradavam. Naquela loja acabou conhecendo Peter Buck, um jovem vendedor, ficando logo perceptível que os dois partilhavam os mesmo gostos musicais. “Acontece que eu estava comprando todos os registros que [Buck] estava guardando para si mesmo”, revelaria Stipe anos depois.

O resultado é que Stipe e Buck acabaram rapidamente se tornando bons amigos – mas ainda não havia banda, e sequer a ideia de formar alguma. Pode-se dizer que o R.E.M. realmente surgiu quando Stipe e Buck conheceram Mills e Berry, dois colegas da University of Georgia que já haviam tocado juntos anteriormente. O começo, porém, foi bem despretensioso, e segundo o próprio Stipe, as atividades do quarteto não passavam de colaborações em algumas canções, sem nenhum grande plano por trás de nada. Dessa forma, passaram um bom tempo tocando juntos sem ter um nome para o quarteto, e sem sequer saber se aquilo era realmente uma banda. Quando as primeiras ideias de nome surgiram, títulos como “Twsited Kites”, “Negro Wives” e “Cans of Piss” (em protuguês, “latas de mijo”) acabaram vindo à tona. Felizmente, o nome R.E.M. foi escolhido, enquanto Stipe aleatoriamente folhava um dicionário.

Pouco tempo passou da primeira apresentação da banda (em abril de 1980, na festa de um amigo) ao sucesso avassalador. Após se apresentar em Chapel Hill, Carolina do Norte, o R.E.M. acabou chamando a atenção de Jefferson Holt, um gerente de uma loja de discos que acabou se mudando para Athens a fim de agenciar a banda – e, a partir deste ponto, o sucesso foi especialmente meteórico. Rapidamente, o grupo se tornou sensação em sua terra natal, arrastando multidões para seus shows, e após uma bem-sucedida turnê pelo sul dos Estados Unidos, em que os membros da banda ganhavam apenas um subsídio alimentício de dois dólares por dia, se locomovendo em uma velha van azul dirigida por Holt, veio a oportunidade da gravação do primeiro single. Um compacto com “Radio Free Europe” foi lançado em 1981, e apesar de poucos exemplares terem sido prensados, o single recebeu aclamação crítica, sendo inclusive nomeado pelo The New York Times como um dos melhores singles daquele ano.

Definitivamente, o caminho para o sucesso nacional estava aberto. Produzido por Mitch Easter (uma espécie de guru da banda em seus primeiros anos), o primeiro EP do R.E.M., “Chronic Town”, foi lançado em 1982 pela I.R.S. Records, novamente sob calorosas recepções dos críticos; afinal, o registro deixava claro que a sonoridade do jovem quarteto georgiano estava muito além de “Radio Free Europe”. Vocais murmurados, linhas de baixo melódicas e arpejos de guitarra faziam da música do R.E.M. algo totalmente inédito na época, fugindo tanto do rock clássico quanto do new wave.

Logo após, vieram as gravações do primeiro LP, e talvez o principal fato que tenha tornado “Murmur” um clássico foi o processo de negação que envolveu a sua produção. Primeiramente, os trabalhos com o produtor Stephen Hague, oferecido pela gravadora por ser mais experiente e gabaritado que Mitch Easter, desagradaram os integrantes da banda, devido ao preciosismo e às obsessões técnicas. Para que os exemplares do álbum tivessem uma boa vendagem, veio a ideia de incluir na sonoridade da banda certos clichês do rock na época, como solos de guitarra e sintetizadores – e esta parece ter sido a gota d’água. Para evitar um fracasso nas gravações, Mitch Easter foi recrutado, e os trabalhos seguiram levando a diante preceitos democráticos, onde a opinião de cada membro da banda tinha o mesmo valor, com mínimas intervenções da gravadora.

Em suma, o R.E.M. conseguiu fazer em seu debut o que realmente queria fazer: um som atemporal, jovial, de personalidade forte e sem apelos comerciais. A primeira faixa do grande “Murmur” é uma versão regravada de “Radio Free Europe”, mais cadenciada, menos suja que o single de 1981, mas igualmente ótima, levando consigo todas as características particulares da musicalidade do R.E.M.: letras obscuras, vocal distante, baixo melódico e riffs arpejados de guitarra – uma combinação espetacular. “Pilgrimage” também lida com os mesmos elementos, construindo uma canção pulsante, dinâmica e com um ótimo refrão, carregada com todo aquele espírito introvertido dos primeiros anos do rock alternativo bem-sucedido comercialmente.

Mais um fantástico instrumental espera pelo ouvinte na terceira faixa, “Laughing”, que pode demonstrar quão primorosa foi a construção das faixas do álbum: uma aula de como alocar os instrumentos e o vocal, evidenciando a participação decisiva e igualitária de todos os integrantes. Até porque, uma das melhores características que envolveu a banda em todos seus anos de atividade foi o pensamento democrático de seus integrantes: todos opinavam, todos decidiam – quando a banda acertava, todos compartilhavam os louros, e nos poucos momentos em que errava, todos dividiam o mesmo peso de culpa. “Talk About the Passion” é mais um momento mágico do disco, envolto por mais um instrumental de grandiosa beleza, e embora não haja uma letra muito clara, Stipe já andou confirmando que ela fala sobre fome. Riffs mais sujos dão o ar de sua graça em “Moral Kiosk”, uma canção que só vem a evidenciar o grande dinamismo musical do disco, alternando momentos de um rock mais simples com passagens luxuosas, a se evidenciar o poderoso refrão da quinta faixa, com vocalizações poderosas, bateria pulsante e uma linha de baixo lenta, pesada e impregnante.

O momento mais emotivo do álbum provavelmente esteja em “Perfect Circle”, uma belíssima canção contida por uma melancolia nostálgica, que, segundo o guitarrista Peter Buck, “induz imagens de crianças jogando futebol em um anoitecer”; contendo um instrumental melódico e uma sentimental linha vocal, é uma das canções preferidas da maioria dos seguidores da banda, tendo sido primeiramente escrita por Bill Berry, apesar dos créditos compartilhados. A pulsante “Catapult”, sem dúvida, também está entre os grandes clássicos da banda, devido principalmente a seu contagiante refrão, embebido por entusiasmantes riffs acústicos.

A oitava, “Sitting Still”, é um momento para uma clara apreciação da incrível capacidade melódica do baixo Mike Mills, bem como dos bem-alocados arpejos de Peter Buck. E é do baixo melódico de Mills que surge “9-9”, com um dos instrumentais mais dinâmicos e sujos do álbum, com riffs atirados loucamente, sem muita pretensão, liricamente confusa, de difícil interpretação, contendo inclusive alguns dizeres indecifráveis – afinal, as letras de caráter misterioso sempre foram um dos pontos-chave da música do R.E.M.. “Shaking Through” é mais tranquila, mais melódica, mas continua a escancarar todas as qualidades da banda; apesar de estar apenas inciando, em seu terceiro ano de existência e em seu primeiro LP, o grupo, indiscutivelmente, já se apresentava como um conjunto seguro, com toda a certeza do caminho a que tomar e com total consciência de suas capacidades.

“We Walk” é mais uma faixa capaz de não deixar nenhuma dúvida quanto à extrema qualidade do disco; com uma fantástica e agradável melodia, e vocais muito bem marcados, é a canção de “Murmur” que mais pode se assemelhar a um rock clássico (principalmente se pensarmos nos anos sessenta e no The Byrds). Em um raro instante de co-autoria do R.E.M., créditos são compartilhados a Neil Bogan na décima-segunda e última música do álbum, “West of the Fields”, que parece querer englobar todos os elementos presentes no disco… Novos pensamentos, uma nova abordagem, que mesmo sem grandes ambições inciais, acabou por inaugurar uma nova era do rock. Rapidamente, a música do R.E.M. acabou caindo no gosto popular, alterando a visão de muitos sobre o mainstream, fazendo com que o mundo passasse a ter novas percepções sobre o futuro da música.

A partir de “Murmur”, não foi mais necessário longos solos de guitarra e o intenso uso de modernos sintetizadores para se fazer um rock de qualidade. Impactante e revolucionário, o disco fez com que um caminhão de novas bandas surgissem, e que um outro tanto, que já detinham uma sonoridade distante do rock comercial, começassem a ter um maior destaque, sendo aceitas por público e crítica com olhares mais brandos. O R.E.M. sempre deixou bem claro que nunca quis fazer do álbum um clássico, um registro revolucionário, mas o fato é que a banda conseguiu fazer algo que até não esperava conseguir. E talvez uma das melhores coisas de “Murmur” esteja realmente neste sucesso inesperado, na tal revolução feita “sem querer”.

Mas muito mais que praticamente um marco inicial para o rock alternativo norte-americano, “Murmur” é de uma consistência absoluta, detentor de doze onze canções que perfazem, ao mesmo tempo, um conjunto dinâmico e entrelaçado entre si. Partindo da capa, que parece enfatizar os elementos líricos obscuros da banda, o que temos é uma grande marcha de momentos memoráveis. Do início de “Radio Free Europe” até o fim de “West of the Fields” há simplesmente uma sucessão de clássicos, que além da incrível capacidade musical, encaixada com uma brilhante inteligência, ajudaram a moldar o sub-gênero responsável pela maior e mais importante quantidade de registros clássicos nos últimos tempos. E “Murmur” não é somente um dos melhores destes registros: é o primeiro, o que fez com que tudo acontecesse. Sem dúvida, um clássico definitivo, um dos mais importantes momentos da música na década de oitenta… Um grande marco.

NOTA: 9,7

Track List: (todas as faixas creditadas a Berry/Buck/Mills/Stipe, exceto a décima-segunda)

01. Radio Free Europe [04:06]

02. Pilgrimage [04:30]

03. Laughing [03:57]

04. Talk About the Passion [03:23]

05. Moral Kiosk [03:31]

06. Perfect Circle [03:29]

07. Catapult [03:55]

08. Sitting Still [03:17]

09. 9-9 [03:03]

10. Shaking Through [04:30]

11. We Walk [03:02]

12. West of the Fields (Berry/Buck/Mills/Stipe/Bogan) [03:17]

Download

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s