2012: Abraçaço – Caetano Veloso

Por: Renan Pereira

Setenta anos de idade, e com o mesmo espírito inovador de quando tinha vinte e poucos. Caetano Veloso não é somente um dos maiores gênios da nossa música, como também é um dos artistas mais inquietos que o mundo teve o prazer de ver. É incrível perceber como ele, mesmo já há muito consagrado, sendo um verdadeiro monstro sagrado, continua com seu senso criativo em alta, experimentando e inovando com a mesma intensidade do início de sua carreira. “Abraçaço”, o quadragésimo nono álbum do compositor baiano, deve chocar e surpreender muita gente, principalmente aos que se esqueceram, afinal, de quem Caetano Veloso se trata. É verdade que até mesmo os gênios experimentam uma época menos intensa, e assim foi com Caetano, do final dos anos setenta até poucos anos atrás; algo normal, compreensível, até porque o sensacional álbum “Cê”, de 2006, veio a nos mostrar que o gênio só estava descansando, como se estivesse em uma longa noite de sono para recuperar o fôlego.

Como se ele estivesse querendo se superar, testar seus limites, eis que veio o rock alternativo. Acompanhado pela banda Cê, formada por Pedro Sá na guitarra, Marcelo Callado na bateria e Ricardo Dias Gomes no baixo, Caetano veio a experimentar uma nova fase em sua carreira, totalmente obcecado pelas mais modernas tendências da música alternativa. Se entregando ao indie rock, e flertando de forma intensa com a extremamente jovial vertente lo-fi, viu a sua música tomar um novo rumo, bebendo dos anos noventa, como se ele fosse mais um garoto influenciado por Kurt Cobain… Só que com um “pequeno” diferencial: no lugar de espinhas, marcas de expressão e cabelos brancos, e ao invés de EP’s caseiros, uma das mais brilhantes e diversificadas discografias da música brasileira. Não é de se admirar que muitos ficaram positivamente chocados com tamanha revitalização, afinal, o Caetano Veloso genial havia retornado quando quase ninguém esperava tal feito.

Mais do que instrumentalmente jovial e ideologicamente moderno, o Caetano a partir de “Cê” parece ter reencontrado toda aquela irrequietude lírica de seus trabalhos mais brilhantes. Dominando a língua portuguesa e todas suas possibilidades artísticas, como aliás sempre fez, acrescentou em si mesmo pitadas de tristeza e aspereza, sem poupar a utilização das palavras mais sinceras e dos sentimentos mais pessoais. Talvez nunca o ouvinte esteve tão próximo de Caetano, inserido em seus pensamentos e partilhando suas emoções.

Agora, seis anos depois, encerrando da melhor forma possível a tão bem-sucedida parceria com a banda Cê, é lançado “Abraçaço”, o último registro da trilogia que veio a reinventar a arte de Caetano. Menos amargo que “Cê” e mais conciso que “Zii e Ziê”, o álbum é mais uma ótima cartada, uma jogada competente onde certos versos de fácil apelo funcionam como um blefe a “maquiar” a complexidade da obra. Novamente os arranjos surpreendem, lidando com momentos intensos e densos, tornando a sonoridade atraente e aventureira mesmo para os ouvintes mais acostumados com a criatividade do bom baiano.

Enquanto homenageia João Gilberto e outros medalhões da música, como Bob Dylan e Carlos Lyra, “A Bossa Nova É Foda”, primeira faixa de “Abraçaço”, atinge de forma certeira o público de trinta anos para baixo, citando inclusive estrelas contemporâneas do MMA, como Victor Belford e Anderson Silva. Com as mesma guitarras encorpadas e raivosas de “Cê”, a canção trabalha estruturas líricas e sonoras dinâmicas, conflitando e unindo, ao mesmo tempo, a bossa nova e as artes marciais mistas, segundo palavras do próprio Caetano Veloso em entrevista ao “O Globo”.

“Um Abraçaço” é uma canção magnífica, atemporal, com uma fantástica construção de versos, brincando com o nosso idioma a fim de explorar continuamente a sofisticação trazida por uma construção leve, suave, a partir de versos fáceis e ideias simples. Como um mestre da comunicação, capaz de sintetizar na simplicidade o que há de mais complexo, Caetano constrói um número liricamente primoroso que, aliado a um instrumental vívido (detentor inclusive de um longo solo de guitarra), acaba se caracterizando como o momento mais brilhante do registro.

Por mais que estejam no álbum “Cê” os momentos mais tristonhos e raivosos de toda a carreira de Caetano, “Estou Triste” é provavelmente a canção mais melancólica de toda a trilogia, inserida em um momento totalmente depressivo, e contando com a ajuda de mais um instrumental certeiro para expelir da forma mais competente sentimentos de dor e amargura. Prestando homenagem à missionária Dorothy Stang, “Império da Lei” rompe com a melancolia, deixando de se apoiar no rock gélido dos últimos anos a fim de percorrer um universo mais quente, pisando em cima da linha do Equador; Caetano também sempre foi conhecido por flertar com regionalismos, e estes parecem voltar com tudo na quarta faixa, adotando as batidas festivas da música paraense como ponto central.

A melódica “Quero Ser Justo” abrange a poesia de um homem encantado, soando tranquila e confortável, enquanto “Um Comunista” ecoa como uma densa canção de protesto da época da ditadura, a homenagear Carlos Marighella, perseguido pelo Regime Militar e assassinado pelos milicos em 1969.

De todas as experimentações de Caetano nos últimos anos, talvez “Funk Melódico” seja a mais surpreendente. Quem conferiu “Recanto”, último álbum de estúdio de Gal Costa (que teve Caetano como idealizador), sabe muito bem que o baiano está totalmente antenado às texturas mais modernas, se confessando um grande admirador da música eletrônica. Mas é só agora, com a sétima faixa de “Abraçaço”, que suas apostas parecem ter se concretizado de uma forma mais convincente, mais segura e mais sincera.

Liricamente apaixonante, com sentimentos que vagueiam do romântico ao amargo, “Vinco” envolve as características dos últimos trabalhos de Caetano em um cenário menos melancólico, mais agradável e colorido, passeando na orla carioca em um fim de tarde a citar brasileirismos, chegando até mesmo aos pampas do Rio Grande do Sul. “Quando o Galo Cantou” é mais um momento acompanhado pelos elementos acústicos que dão o ar de sua graça em praticamente todo o registro, se aproximando de uma sonoridade mais popular ao defender o pagode romântico. Corajoso, sem medo das críticas ferrenhas dos que dizem que a sua época já passou, Caetano Veloso sente-se à vontade para cumprimentar gêneros muitas vezes esbofeteados pela mídia, levando às construções sofisticadas o que é considerado pobre e brega.

A leve “Parabéns”, que embarca nos anos setenta, é a única faixa mal resolvida do disco, com estruturas instrumentais e líricas estranhas, confusas, que passam longe dos elementos seguros e concretos das demais canções do álbum. “Gayana” finaliza o registro com puro romantismo, literalmente finalizando a parceria de Caetano com a banda Cê, rumando sua música para novos contextos a serem tratados em um futuro, seja próximo ou mais distante.

Caetano Veloso é pop, é rock, é brega e sofisticado, da burguesia e do povão. É um artista compromissado com a arte, ciente do quão importante é, que mesmo septuagenário não dá sequer pequenos sinais de aposentadoria; continua com sua sede por inovação a todo vapor, utilizando toda a bagagem adquirida em todos seus anos de carreira para tratar as texturas contemporâneas de forma competente e arrebatadora. Por mais que seja um nome do passado, e atualmente remoa o passado em quase todas suas composições, Caê ruma seu olhar ao futuro, procurando ainda dar algo a mais à evolução sonora de nossa cultura. Inquieto e único, não há como não o aplaudir, não há como não o admirar, deixando com ares de louco quem afirma que, como artista, Caetano já era.

“Abraçaço” não é um dos maiores clássicos de Caetano, mas é consistentemente atual, moderno, e não apenas a continuação da música de um artista que vem brilhando por um longo tempo. É mais uma tentativa de fazer algo a mais, soar relevante mesmo aos ouvidos jovens, mesmo que implicando um breve afastamento do público mais antigo. Caetano Veloso não para no lugar-comum, e quem deseja lhe acompanhar deve se desamarrar das raízes que prendem seu corpo sempre ao mesmo local, a admirar sempre a mesma paisagem. Ouvir “Abraçaço” é percorrer, com companhia antiga, os mais novos caminhos.

NOTA: 8,5

Track List:

01. A Bossa Nova É Foda [03:53]

02. Um Abraçaço [03:49]

03. Estou Triste [05:12]

04. Império da Lei [04:06]

05. Quero Ser Justo [03:52]

06. Um Comunista [08:32]

07. Funk Melódico [04:38]

08. Vinco [05:39]

09. Quando o Galo Cantou [03:46]

10. Parabéns [03:06]

11. Gayana [04:30]

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