2006: FutureSex/LoveSounds – Justin Timberlake

Por: Renan Pereira

Não foi fácil para Justin Timberlake se desfazer da imagem juvenil que o acompanhou em grande parte da carreira, se bem que este é um desafio constante para artistas que, em alguma época, são reconhecidos como ídolos teen. Em 1993, aos doze anos, Timberlake se tornou uma estrela do cenário infantil ao ser contratado pela Disney, participando do programa televisivo da ABC “Mickey Mouse Club”, com sua futura namorada Britney Spears, sua futura companheira de turnê Christina Aguilera e seu futuro parceiro de banda JC Chasez. Com o fim do programa, em 1995, tendo como finalidade o aproveitamento da fama dos garotos que faziam parte do estrelato da Disney, o empresário Lou Pearlman, que já havia criado os Backstreet Boys, decidiu criar uma nova boy-band, denominada ‘N Sync. Para esta banda, foram recrutados, além de Timberlake e Chasez, Lance Bass, Joey Fatone e Chris Kirkpatrick.

Seguindo todo o modelo implementado por Pearlman nos Backstreet Boys, o ‘N Sync acabou se consolidando como um sucesso comercial imediato. O primeiro álbum de estúdio, homônimo ao grupo, lançado em 1997, teve uma vendagem absurda, se tornando um dos mais vendidos daquela época, e hits como “I Want You Back” e “Tearin’ Up My Heart” se tornaram canções suspiradas por um amplo número de garotinhas fanáticas pelo quinteto. Depois, houve o rompimento da banda com o seu empresário, mais alguns singles de sucesso, outros dois álbuns massivamente vendidos e, enfim, o hiato. Timberlake, como vocalista principal do grupo, despontava como uma grande promessa de pop-star, e com o fim dos serviços do ‘N Sync, lá pelos idos de abril de 2002, o mundo pop se perguntava o que seria do futuro do músico.

Mas eis que, no penúltimo mês do mesmo ano, é lançado “Justfield”, o tão aguardado primeiro álbum de Timberlake em carreira solo. Apesar de ainda juvenil, atrelado à musicalidade do ‘N Sync e contendo músicas melosas, excessivamente radiofônicas, ficava claro que a carreira de Timberlake só viria a crescer; em um futuro próximo, talvez, ele conseguiria se tornar um músico adulto, fazendo música para adultos, se livrando daquela insistente imagem de ídolo adolescente.

Porém, apesar da alta vendagem de “Justfield”, alguns anos se passaram para o lançamento de um segundo álbum solo. Depois de passar um tempo sem se sentir à vontade para compor, em 2005, motivado pelo fraco estado da música pop na época, Timberlake foi à procura do produtor Timbaland, com quem já havia trabalhado anteriormente, para a criação de um novo conjunto de canções. No início, ambos não sabiam ainda muito bem o que fazer, mas com o auxílio do produtor Danja, os primeiros rumos do trabalho começaram a ser tomados. Fortemente influenciados pelo trabalho que Prince havia realizado na década de oitenta, o que Timberlake e seus produtores decidiram foi a criação de algo totalmente diferente, algo totalmente novo não apenas para a carreira de Timberlake, mas também para a música pop da época. Com carta branca para experimentar à vontade, Timbaland tratou de utilizar toda sua veia criativa para produzir um registro que viria a surpreender o mundo pop.

As antigas fãs de Timberlake, aquelas que outrora suspiravam os hits do ‘N Sync, provavelmente levaram um grande choque ao conferir o conjunto de canções que formou “FutureSex/LoveSounds”, o tão aguardado segundo álbum do artista, lançado em setembro de 2006. Afinal, como o próprio título do registro pode demonstrar, as músicas melosas, juvenis e feitas para adolescentes haviam perdido seu espaço. Os rumos da carreira de Timberlake acabaram por ser bruscamente modificados através de uma drástica mudança na sonoridade e na temática de suas canções.

“FutureSex/LoveSounds” foi um lançamento ousado, inovador e surpreendente. O próprio Justin Timberlake nem parecia mais a mesma pessoa, agora fazendo o uso sem moderação de letras carregadas de erotismo e sensualidade, atacando descaradamente o público feminino e praticamente doutrinando o público masculino. Do adolescente mimoso não restava mais nada, e o que o mundo via, boquiaberto, era um artista que havia crescido de forma assombrosa, exalando ousadia e poder, a tratar o seu público como um lobo esfomeado a observar um rebanho, pronto para o ataque.

Mas, para a criação de um grande álbum, apenas a fome de um predador não basta. Sempre por trás de um grande projeto há uma generosa leva de influências e referências, e com “FutureSex/LoveSounds” não seria diferente. Por mais que o disco, basicamente, se equilibre através do tripé formado por Timberlake, com sua sensualidade, Timbaland, com toda sua experiência e conhecimento de black music, e Danja, com seus elementos eletrônicos modernos (onde se incluiu a música trance, na época em exponencial crescimento), o que não faltam no álbum são alusões a ótimos trabalhos dos mais diferentes artistas. Abrangeu-se principalmente a qualidade melódica de David Bowie e a música sensual de Prince, mas também foram explorados nomes como Michael Jackson, INXS, Arcade Fire, David Byrne, The Killers, The Strokes e Radiohead.

“FutureSex/LoveSound”, quase uma faixa-título, é a abre-alas, o primeiro e já definitivo recado de como o álbum se comportaria; sensual e finamente produzida, construída através das tão famosas batidas minimalistas de Timbaland, já é capaz de rebaixar tudo o que Timberlake havia anteriormente feito em sua carreira, se mostrando adulta e consciente. O primeiro dos clássicos do álbum é a fantástica “SexyBack”, uma produção impecável, obra-prima de Timbaland, que exala erotismo do início ao fim através de seu ritmo contagiante, excitador de músculos, de uma flutuação fenomenal de sintetizadores minimalistas e de uma linha vocal quente, mixada perfeitamente a fim de alastrar sensualidade.

Hoje em dia flertar com o dubstep é moda, mas em 2006 não era algo lá muito comum na música pop – e até nisso “FutureSex/LoveSounds” foi inovador, com sua sonoridade ímpar. Mas é da música negra norte-americana dos anos setenta e oitenta que vem a base forte de “Sexy Ladies”, mais uma canção dançante e sensual, em que o vocal de Timberlake está especialmente forte, como se estivesse assoprando frases eróticas nos ouvidos de seu público feminino. No final da mesma faixa, um prelúdio “bate-lata”, capaz de deixar até o mais desengonçado dos ouvintes com o corpo inquieto, abre os serviços da quarta canção do disco, a formidável “My Love”, uma das mais surpreendentes produções do álbum, cujos sintetizadores, minados com um fantástico efeito de alteração de volume, funcionam como um hipnotizante passeio de Timberlake pelo corpo de uma mulher; além de ser um número perfeito para demonstração de todas as qualidades de Timberlake como bailarino, é uma ode ao talento de Timbaland, uma canção tão certeira que até a participação do rapper T.I. soa memorável.

“LoveStoned” soa como se, em 2006, Timbaland e Michael Jackson tivessem colaborado juntos em uma canção – e talvez mais nada precisa ser dito para se concluir quão boa ela é. No desfecho da faixa, em meio a uma atmosfera beat-box, surgem uma orquestração maravilhosa, um belíssimo riff de guitarra e discretos toques de piano, que fazem Justin Timberlake viver um surpreendente momento de Tom Yorke. Com contornos épicos, “What Goes Around… Comes Around” se caracteriza como um clássico do pop moderno, uma longa e atraente balada onde Timberlake lamenta o desfecho de um relacionamento, com toques vingativos; surpreendendo pela produção, traz baglamas (instrumentos de corda pouco utilizados na música popular), R&B, violinos, dubstep e hip hop, uma riqueza de sons que impossibilita à faixa tornar-se enjoativa em qualquer instante de seus mais de sete minutos.

A partir da sétima faixa o álbum decai um pouco, o que, de jeito nenhum, chega a significar algo negativo – até porque manter em todo o registro a altíssima qualidade de suas seis primeiras canções seria algo extraordinariamente incrível. “Chop Me Up”, pendendo para o hip hop como nenhuma outra canção do disco, continua a brincar com os mesmos elementos sensuais das faixas anteriores, e de forma até competente, convincente, mesmo sem mostrar o mesmo brilhantismo. Felizmente, “Damn Girl”, que conta com a participação de will.i.am, volta a apresentar a surpreendente qualidade da esmagadora maioria das faixas do álbum, com uma produção pra lá de caprichada, trazendo na linha vocal de Timberlake o seu principal destaque.

Em “Summer Love”, Timberlake é novamente agraciado com toques geniais do seu guru Timbaland, que mais uma vez lapida uma poderosa melodia com seus tradicionais e formidáveis efeitos minimalistas. No desfecho da faixa, o prelúdio “Set the Mood” apresenta o momento do álbum que talvez mais possa se aproximar dos trabalhos anteriores de Timberlake, enquanto a décima, “Until the End of Time”, apesar de se apresentar como uma boa canção, com mais uma produção certeira, se caracteriza por ser o momento de menor criatividade em todo o registro; não que não seja ótimo reviver as ideias plantadas por Prince nos anos oitenta, mas um dos grandes méritos de “FutureSex/LoveSounds” está na inovação, na apresentação de novas texturas para a música pop, algo que, claramente, não aconteceu nesta música.

A penúltima, “Losing My Way”, é um número fenomenal, surpreendendo quem mais nada esperava do álbum; seu destaque maior está na excepcional melodia, capaz de lembrar o nível melódico de David Bowie em seus melhores trabalhos. Mas se Bowie teve Brian Eno, Timberlake teve Timbaland, e assim como a “Berlin Trilogy” deve muito ao famoso produtor inglês, a musicalidade de “FutureSex/LoveSounds” é atribuída em sua maior parte ao produtor virginiano. Se bem que, na última faixa, a produção ficou à cabo de outro renomado produtor: Rick Rubin contribuiu em “(Another Song) All Over Again”, uma canção que, apesar de totalmente diferente das demais, tem seus méritos por encerrar o álbum de forma convincente, mostrando como Timberlake, mesmo muito mais ousado que em outras oportunidades, não havia perdido sua veia romântica.

Em “FutureSex/LoveSounds” Justin Timberlake não se tornou apenas um artista maduro, mas também um dos maiores astros do pop. Munido com uma musicalidade rica, contagiante, inovadora e ousada, finalmente conseguiu deixar para trás seu status de ídolo teen, passando a ser um dos caras mais respeitados do show biz.

Enfim, este foi um trabalho que deixou profundas marcas na carreira de Timberlake, nos rumos da música pop da década passada, e elevou o talentoso produtor Timbaland a um novo patamar, tornando-o um dos mais bem-vistos da nova geração. Contém uma sonoridade rica, apoiada por uma produção praticamente perfeita, com ideias ousadas e espírito empreendedor, e por isso só poderia realmente se destacar como um dos melhores de sua época. Afinal, é um registro seminal, uma das mais fortes marcas deixadas pelo pop nos últimos tempos, cravada com muito poder e volúpia.

NOTA: 8,5

Track List:

01. FutureSex/LoveSound (Timberlake/Mosley/Hills) [04:01]

02. SexyBack (Timberlake/Mosley/Hills) [04:02]

03. Sexy Ladies/Let Me Talk to You (Prelude) (Timberlake/Mosley/Hills) [05:32]

04. My Love (Timberlake/Mosley/Hills/Harris) [04:36]

05. LoveStoned/I Think She Knows (Interlude) (Timberlake/Mosley/Hills) [07:23]

06. What Goes Around…/…Comes Around (Interlude) (Timberlake/Mosley/Hills) [07:28]

07. Chop Me Up (Timberlake/Mosley/Hills/Houston/Beauregard) [05:04]

08. Damn Girl (Timberlake/Adams/Davis) [05:12]

09. Summer Love/Set the Mood (Prelude) (Timberlake/Mosley/Hills) [06:24]

10. Until the End of Time (Timberlake/Mosley/Hills) [05:22]

11. Losing My Way (Timberlake/Mosley/Hills) [05:22]

12. (Another Song) All Over Again (Timberlake/Morris) [05:45]

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