2012: King Animal – Soundgarden

https://i0.wp.com/www.strictlyrandl.com/wp-content/uploads/2012/11/King-Animal-300x300.jpg

Por: Renan Pereira

De todos os retornos ocorridos nos últimos tempos, um dos mais comemorados, sem dúvida, é o retorno do Soundgarden, uma das mais bem-sucedidas bandas da cidade de Seattle, Washington, berço do grunge. O grupo, originário nos anos oitenta, sempre foi portador de um som forte e pesado, mesclando algumas antigas ideias, principalmente do heavy metal setentista, com o então novo som que abalava as estruturas dos edifícios de sua cidade natal, e que, poucos anos depois, seria capaz de mudar os rumos do rock no mundo inteiro. Juntamente com Pearl Jam, Nirvana e Alice in Chains, o Soundgarden popularizou de forma rápida e arrebatadora o grunge por todo o globo, transformando o gênero, tão sujo e underground, em febre e sinônimo de uma época – um grito rebelde e juvenil que rebaixou o rock farofeiro da década de oitenta a mera infantilidade. Importantíssimo, o Soundgarden foi um daqueles grupos de rock fundamentais para a inclusão, pra valer, da década de noventa na história da música.

Por mais que, ao se analisar a discografia da banda, o que se vê é uma crescente em qualidade, à medida em que a banda se tornava mais madura, se rebelando de certos exageros de seu início, é profundamente perceptível o abismo existente entre seus dois últimos álbuns antes da dissolução. “Superunknow”, de 1994, foi um trabalho fantástico, o último dos clássicos do grunge, e talvez o último momento em que o rock de Seattle veio a, realmente, apresentar um trabalho de alta criatividade e brilhantismo. Isto porque, “Down on the Upside”, de 1996, se mostrou um registro decepcionante, para muitos o pior da banda em toda sua carreira, repleto de firulas e exageros que se caracterizaram como verdadeiras viagens a vias sem saída. Não por menos, divergências internas ocorreram, levando o grupo a um triste fim em 1997.

Chris Cornell, que naquela época figurava entre os mais importantes vocalistas do mundo, não teve muitos problemas com a dissolução, visto que, poucos anos depois, veio a montar junto a Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk o supergrupo Audioslave, que lançou três álbuns (de 2002 a 2006) e teve boa aceitação comercial. Matt Cameron e Ben Shepherd estiveram no projeto Wellwater Conspiracy, sendo que o primeiro, além de ter trabalhado brevemente com Billy Corgan no Smashing Pumpkins, veio a substituir Jack Irons no Pearl Jam, se tornando então o baterista oficial da banda de Eddie Vedder. Já Kim Thayil pouco trabalhou, sendo que seus projetos após a dissolução do Soundgarden não passaram de meras e rápidas participações em trabalhos de terceiros.

Sim, os antigos membros da banda continuavam suas carreiras, e Chris Cornell estava no mainstream; mas, mesmo assim, os fãs continuavam órfãos. Apesar de ativos, nenhum dos quatro membros, durante os anos em que o Soundgarden esteve inativo, mostrou ter o mesmo brilho de outrora. Os dois últimos álbuns-solo de Cornell, por exemplo, só vieram a confirmar a ideia de que o vocalista havia perdido o fio da meada, sua carreira estava em decadência, e talvez somente um retorno do Soundgarden seria capaz de mudar um cenário altamente desanimador. Felizmente, este retorno aconteceu.

Tudo aconteceu em 2010, quando Cornell, Thayil, Cameron e Shepherd voltaram a se apresentar juntos sob o nome de Soundgarden. A banda, finalmente de volta à ativa, foi uma das principais atrações do Lollapalooza e, naquele mesmo ano, veio a lançar seu primeiro disco ao-vivo, “Live on I-5”. As primeiras informações de que eles estavam trabalhando em um novo projeto de estúdio vieram no início de 2011, enchendo de ansiedade quem sempre esperou por algo novo da trupe. E eis que agora, o primeiro álbum de estúdio da banda em mais de quinze anos teve a oportunidade de ver a luz do dia.

“King Animal”, apesar de não se comportar como um clássico, é um disco bem convincente, um retorno à altura da banda. Não espere o ouvinte, porém, o mesmo som apresentado pela banda em outras oportunidades; afinal, as diretrizes se modificaram, os músicos se aventuraram por novas tendências, e obviamente, muito tempo passou dos anos noventa para cá. Se muita daquela atitude antiga foi perdida, e sequer a química atual lembre a daquela banda fantástica de outrora, temos, porém, um grande e óbvio crescimento musical. Abrangendo novas vertentes, bordando novas texturas em seu rock pesado, em “King Animal” o Soundgarden lida com o que há de mais antigo e de mais atual no rock, mas sem se esquecer, é claro, do velho grunge que a banda, há mais de duas décadas, ajudou a arquitetar.

A capa do disco é bonita, e tudo vai transcorrendo razoavelmente bem. “Been Away Too Long” traz a tradicional estrutura de riffs pesados de Thayil, com a costumeira competente interpretação vocal de Chris Cornell, com as sempre seguras linhas de baixo de Ben Shepherd e de bateria de Matt Cameron; não chega a ser uma maravilha, não é nada de excepcional, mas se trata de um bom começo, com tudo em seu devido lugar. “Non-State Actor” pode ser até uma prova de todas as mudanças ocorridas durante os últimos dezesseis anos, carregando toda a experiência adquirida pelos membros da banda durante todo esse tempo; apesar da força instrumental, não deixa de ser uma canção cadenciada, brincando com o rock alternativo pós-grunge, como se toda a energia da banda tivesse sido diluída no líquido seguro e experiente que forma o atual som do grupo. “King Animal” poderia começar melhor? É claro que sim, mas os tempos são outros, e nem a banda é a mesma, apesar de trazer os mesmos integrantes de seus áureos tempos… Não há mais o mesmo som impactante de “Superunknown”, mas há, felizmente, um conjunto de boas canções.

A pesadíssima “By Crooked Steps” contém os primeiros flertes psicodélicos do álbum, e até poderia vir a ser uma canção formidável, se houvesse uma evolução durante os quatro minutos que a compõem; é repetitiva demais, falha em não dinamizar sua estrutura, apresentando sempre os mesmos riffs. Já na quarta faixa, “A Thousand Days Before”, o psicodelismo parece alcançar seu ponto máximo na musicalidade do Soundgarden; a ótima canção mergulha profundamente no Oriente, transformando Seattle em Nova Deli, com arranjos indianos que com certeza agradariam George Harrison. “Blood on the Valley Floor” é um daqueles rock pesados que, apesar de estruturalmente fortes, não chegam a empolgar, mas também não desagradam; é uma boa música, com uma boa instrumentação, nada acima e nem abaixo disso.

A competente “Bones of Birds” pode até se aproximar a uma balada, por ser uma música mais calma, mas também se trata de uma maior aproximação à antiga sonoridade da banda, não se aventurando muito além de grunge noventista; obviamente, é uma aposta certeira para agradar os mais antigos fãs, trazendo velhos sentimentos para 2012. “Taree” é construída sob um terreno obscuro, enfatizando nas sombras e na fumaça que o compõem um dos instrumentais mais bem pensados do álbum, com riffs de qualidade bem acima da média. Ben Shepherd não apenas compôs a oitava faixa, “Attrition”, como também tocou guitarra na música, inclusive dividindo os vocais; se trata de mais um momento que agrada, apesar de passar longe de soar incrível.

“Black Saturday” é semi-acústica e fenomenal, talvez até mesmo abrangendo os momentos mais brilhantes do disco; lida muito bem com a variação de sentimentos, se apresentando ora pesada, misteriosa, ora calma, e com um dinamismo implacável, digno dos melhores momentos da banda, contendo uma fantástica construção de riffs. Ótima também é “Halfway There”, apesar de ser mais orientada ao pop, mais simples, mais radiofônica; melodicamente, a canção é um verdadeiro espetáculo, mostrando como não apenas de momentos mais misteriosos, mais sujos, precisa viver a música do Soundgarden (a banda, afinal, parece ter atingido um nível de experiência invejável, onde nada precisa soar repetitivo para soar bem). Se “King Animal” não é nenhuma obra-prima, pelo menos é uma aposta certeira para o retorno, mostrando uma banda formada por integrantes que cresceram com o tempo, com a consciência de que a década de noventa há muito já se findou.

Mais alguns momentos de genialidade estão contidos na impecável “Worse Dreams”, que é instrumentalmente brilhante, altamente dinâmica e empolgante, sabendo misturar com louvor o grunge noventista com ideias mais modernas de rock. Aliás, este é um momento do álbum em que se parece querer arrebatar, mostrar de janelas escancaradas, o quão bom é o retorno do Soundgarden; no caso, o desfecho de “King Animal” é justamente a parte mais forte do disco, onde uma sucessão de ótimas canções mostra todo o dinamismo que não havia sido apresentado no início do registro. “Eyelid’s Mouth” também é ótima, agarrando o ouvinte do início ao fim, enquanto a última, “Rowing”, contém uma instrumentação pra lá de incomum, com uma linha de baixo altamente criativa, se caracterizando como um momento de uma intensa e bem-vinda aventura.

Por mais que apenas a sucessão das últimas canções chegue a surpreender, há alguns momentos de genialidade do disco, mostrando que o Soundgarden ainda tem muita lenha para queimar. O que o público precisa entender é que não é mais possível fazer o mesmo grunge dos anos noventa; não somente porque a crítica não aceitaria, mas porque os próprios músicos não aceitariam tal constatação de preguiça. O que transformou o Soundgarden em um dos melhores grupos de sua época foi um som vívido, que sempre apresentou novidades, e a mutação deste som não só era esperada, como também necessária – ver a banda tornar a sua sonoridade obsoleta poderia significar um triste fim de carreira.

“King Animal”, porém, mostra que a banda ainda não é o que poderia ser. As melhores faixas do álbum mostram que, em alguns momentos do registro, faltou um algo a mais, seja energia, foco ou dinamismo, constatando assim que o Soundgarden tem totais capacidades de construir algo ainda maior. Mas, como se trata de um retorno de uma banda que estava em longa inatividade, talvez não dê para exigir dela o total de suas forças… O Soundgarden voltou agora, está acelerando seus motores, reaquecendo seus pneus, e o que se espera é que, em um próximo trabalho, já esteja a toda, se aproximando da banda que foi em seus melhores momentos. No mais, o que fica de “King Animal” é a boa qualidade de bom álbum de retorno, com alguns momentos razoáveis, alguns bons e outros ótimos.

NOTA: 7,5

Track List:

01. Been Away Too Long (Cornell/Shepherd) [03:36]

02. Non-State Actor (Thayil/Cornell/Shepherd) [03:57]

03. By Crooked Steps (Cornell/Cameron/Shepherd/Thayil) [04:00]

04. A Thousand Days Before (Cornell/Thayil) [04:23]

05. Blood on the Valley Floor (Cornell/Thayil) [03:48]

06. Bones of Birds (Cornell) [04:22]

07. Taree (Cornell/Shepherd) [03:28]

08. Attrition (Shepherd) [02:52]

09. Black Saturday (Cornell) [03:29]

10. Halfway There (Cornell) [03:16]

11. Worse Dreams (Cornell) [04:53]

12. Eyelid’s Mouth (Cornell/Cameron) [04:39]

13. Rowing (Cornell/Shepherd) [05:08]

Download

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s