1984: Titãs – Titãs

Por: Renan Pereira

É inegável que os Titãs construíram, a partir de uma história de mais de trinta anos, uma das maiores e melhores bandas de rock que o Brasil já viu. Dinâmica, a sonoridade da banda esteve sempre em constante mutação, abrangendo diversas texturas sonoras nos mais diferentes instantes da sua carreira; ora mais cru, ora mais pop, e às vezes até soando cru e pop ao mesmo tempo. Alguns de seus trabalhos vieram, pela qualidade artística e crítica que os cercam, a se tornar verdadeiros clássicos da música, marcas inapagáveis da época em que foram inseridos, e instantes necessários para a formação política e sociológica de uma grande leva de jovens.

Só que a história da banda, apesar de rica, brilhante, sempre esteve envolvida em polêmicas. Uso de drogas, prisões, críticas ferrenhas a nichos “intocáveis” da sociedade, fugas do óbvio seguidas de aproximações, e demais confusões constantes, fizeram do grupo o mais intrigante de sua época.

E os Titãs já começaram sua história com ousadia, carregando o incomum título de Titãs do Iê-Iê e combinando estilos esquisitos, tanto no que diz respeito à música quanto à área comportamental; mesclavam as mais diversas vertentes sonoras que, naquele tempo, começavam a ter destaque no cenário internacional, mas que ainda não tinham grande apelação em terras tupiniquins, e se apresentavam com um visual extravagante, que incluía maquiagem, penteados engraçados e ternos coloridos com gravatas de bolinhas.

No início, o grupo era praticamente um “batalhão”, uma rara banda de nove integrantes, que se uniu através da dissolução de outros projetos. Da banda Performática vieram Arnaldo Antunes e Paulo Miklos, enquanto Nando Reis era percussionista do Sossega Leão, e Branco Mello, Marcelo Fromer e Tony Bellotto formavam o Trio Mamão e as Mamonetes. Sérgio Britto e Marcelo Fromer até chegaram a se apresentar no Chacrinha, sendo “gongados” enquanto cantavam a música “Eu Também Quero Beijar”, de Pepeu Gomes.

Em 1984, pouco antes de assinarem com a gravadora WEA, os Titãs experimentaram pela primeira vez uma alteração em seu line-up. Por motivos estéticos, Ciro Pessoa decidiu sair do grupo, deixando então a banda com os oito membros que compõe a foto da capa do primeiro disco: Arnaldo Antunes, Branco Mello, Marcelo Fromer, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto, André Jung e Tony Bellotto. Este primeiro álbum, lançado naquele mesmo ano, no mês de agosto, procurou apresentar toda a peculiaridade do conjunto (agora denominado apenas “Titãs”, para evitar associações com a jovem guarda), tentando extrair o máximo de sua personalidade para a criação de um registro único, inovador para o rock nacional.

Só que a produção errou, e a culpa maior talvez nem esteja nos próprios produtores. A WEA, animada com a oportunidade de gravar o primeiro disco de uma banda promissora, deu a oportunidade aos Titãs de fazer uso da mais avançada tecnologia de gravação existente no Brasil, que consistia em um áudio com 24 canais. O grupo era iniciante, sem experiência, ninguém no país ainda sabia muito bem como fazer o melhor uso da tecnologia disponível… Enfim, tudo era novidade, e o resultado disso foi um som bastante fraco em relação às apresentações ao-vivo da banda.

Mas, mesmo assim, o disco passa longe de soar ruim. Temos nele uma sucessão de faixas interessantes, algumas que viriam a se encontrar entre as mais famosas da banda, como “Sonífera Ilha”, “Marvin”, “Go Back” e “Querem Meu Sangue”. E é com a tropical “Sonífera Ilha”, cantada por Paulo Miklos, que o álbum começa, o maior sucesso da banda em seus primeiros anos e, segundo algumas fontes, a música mais tocada nas rádios de todo o país em 1984; a canção, construída sob um terreno litorâneo, aparentemente relaxante, é na verdade um misto entre os sentimentos reais de tensão e imaginários de paz do personagem, que, ao “colar seu ouvindo no radinho de pilha”, viaja para uma nova dimensão, idealizada. Nando Reis foi quem fez “Marvin”, versão para “Patches”, de Dunbar e Johnson, interpretada originalmente pela banda de soul music Chairmen of the Board, em 1970; a música, que tem uma letra belíssima, crítica, é uma primeira e pequena evidenciação do talento lírico de Nando Reis, apesar dele apenas ter lapidado algo que já estava criado.

“Babi Índio” é muito interessante, até mesmo por demonstrar um espírito mais “selvagem”, que a banda exploraria de forma bem mais intensa em 1986, no disco “Cabeça Dinossauro”; se trata, afinal, de uma música mais crua, com uma instrumentação mais puxada para o punk, se caracterizando um dos números mais pesados do primeiro álbum. A sonoridade do disco reflete, aliás, muito a época em que foi gravado, quando o ska e o new wave eram ritmos em constante crescimento ao redor do mundo; há alguns toques mais diretos, de um punk rock mais tradicional, é verdade, e até alguns flertes com a música negra norte-americana, mas basicamente o que se ouve é o seguimento das tendências mundiais da época (se bem que, no Brasil, estas texturas tinham uma imagem muito maior de novidade).

A quarta, “Go Back”, é mais um dos clássicos da banda, mas que, assim como “Marvin”, teve maior êxito em regravações futuras, devido à errônea produção dos instrumentais ocorrida no debut; composta por Sérgio Britto, é uma canção positiva, na qual o tecladista teve inspirações diretas de um poema de Torquato Neto. “Pule” é dançante, contagiante, onde novamente certos sentimentos “tropicais” dão o ar de sua graça; com uma letra bem característica dos primeiros anos da banda, refletindo toda a peculiaridade do conjunto, tem um contraponto novamente no instrumental, uma aposta fácil que muito lembra a sonoridade de Tim Maia.

A ótima “Querem Meu Sangue”, cantada por Nando Reis, uma das mais competentes faixas do disco, é versão de “The Harder They Come”, de Jimmy Cliff, e também viu alcançar maiores êxitos em versões ao-vivo e em lançamentos posteriores. “Mulher Robot” parece refletir melhor o que os Titãs eram na época, saindo, para a sorte dos ouvintes, inabalada pelos erros de produção; se trata de uma faixa de forte personalidade, com uma instrumentação mais pesada, com riffs obscuros, sujos, e uma letra curta e direta. A oitava é a bonita balada “Demais”, que contém, em seu início, a mesma introdução de cítara de “Love You To”, música de George Harrison presente no álbum “Revolver”, dos Beatles. “Toda Cor”, por ter sido lançada no mesmo compacto de “Sonífera Ilha” (disco este que, na época, acabou vendendo mais que o próprio LP em que as músicas estão inseridas), teve também uma boa execução nas rádios, ajudando os Titãs a crescerem em popularidade, se concretizando como um dos grupos mais promissores do rock nacional; se trata de uma música interessante, com uma letra competente e uma instrumentação bem puxada para o punk rock.

“Balada Para John e Yoko” é a versão em português da música em inglês de John Lennon, com uma letra praticamente idêntica, a não ser por alguns toques titânicos “nonsense”. A última faixa é “Seu Interesse”, que não é uma música com muita fama, mas é um dos melhores números do disco, refletindo de forma impecável aquela situação vivida pelas pessoas quando atingem a fama, quando são geralmente rodeadas por interesseiros.

No fim, o que o disco prometia não acabou sendo cumprido. Afinal, os Titãs do primeiro álbum pouco se pareciam com os Titãs dos shows. A força instrumental, um dos pilares da banda, acabou por ser totalmente perdida pela produção, que não conseguiu inserir no disco toda a forte personalidade da banda. Um erro grave, sem dúvida, pois o álbum poderia ser um clássico, ser realmente o registro inovador que a gravadora esperava, e até tentou captar o espírito da banda, mas infelizmente não conseguiu. Mostrar o que realmente um projeto musical é, provavelmente seja o principal ponto de um debut – e quando isso não é alcançado, temos trabalhos com méritos apenas relativos. E assim é, realmente, o primeiro disco dos Titãs.

Liricamente forte, mas instrumentalmente fraco, o álbum não é de se jogar fora, mas claramente deixou a desejar. Os Titãs, desde o seu início, formaram uma grande banda, uma das mais interessantes do Brasil, mas que não apareceu em seu primeiro registro de estúdio. Felizmente, ficaram algumas grandes canções, que entraram para história, e que, em algum momento posterior, com seu real espírito, conseguiram mostrar sua verdadeira e alta qualidade.

NOTA: 6,4

Track List:

01. Sonífera Ilha (Mello/Barmack/Pessoa/Fromer/Bellotto) [02:54]

02. Marvin (Johnson/Dunbar/Reis) [04:11]

03. Babi Índio (Mello/Pessoa) [03:38]

04. Go Back (Britto/Torquato Neto) [03:40]

05. Pule (Antunes/Miklos) [02:20]

06. Querem Meu Sangue (Jimmy Cliff) [03:08]

07. Mulher Robot (Bellotto) [02:22]

08. Demais (Antunes) [02:48]

09. Toda Cor (Barmack/Pessoa/Fromer) [03:21]

10. Balada Para John e Yoko (Lennon/McCartney) [02:40]

11. Seu Interesse (Antunes/Miklos) [03:10]

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