2012: Music from Another Dimension! – Aerosmith

Por: Renan Pereira

A espera foi grande, e finalmente, depois de mais de dez anos de espera, os fãs do Aerosmith foram agraciados com um novo álbum de inéditas. Nos últimos tempos, é fato que a banda norte-americana vem devendo ao seu público, pois, em vinte anos, foram apenas cinco álbuns de estúdio lançados, e levando em consideração que “Honkin’ on Bobo”, de 2004, abrangeu apenas covers, temos uma improdutividade ainda maior. Mas se o problema fosse apenas a pouca quantidade de lançamentos, ainda não haveria muito do que se lamentar, visto que a demora em lançar novos trabalhos se tornou, nos últimos anos, uma prática comum entre as bandas mais consagradas; o real problema está, na verdade, na qualidade dos lançamentos.

Basicamente, desde 1989 o Aerosmith não constrói um grande álbum de rock. “Honkin’ on Bobo” foi um bom trabalho, é verdade, mas seu mérito é apenas relativo, visto que não apresentou nenhuma canção inédita. A partir de 1993, com o lançamento de “Get a Grip”, o que se viu na discografia da banda foi uma sucessão de discos comerciais, que poucas vezes foram além do razoável. “Nine Lives” foi a entrega total da banda à música comercial, de melodias e letras chicletes, de fácil aceitação, enquanto “Just Push Play” foi a sacramentação desta ideia. Não que o Aerosmith tenha se tornado uma banda descartável, longe disso… Seus shows continuam sendo atraentes, a voz de Steven Tyler continua sensacional, Joe Perry continua a executar muito bem a sua guitarra, e a energia da banda, apesar de todas as dificuldades de relacionamento entre os integrantes, continua visualmente intacta. Mas talvez seja apenas isso, o que é, obviamente, muito pouco para o Aerosmith, uma das maiores bandas de hard rock de todos os tempos; para honrar sua história, um novo grande álbum de rock deveria ser lançado.

Do lançamento de “Just Push Play” para o de “Music From Another Dimension!” somam-se mais de onze anos, um tempo em que o grupo, envolvido em vários problemas (a se destacar os conflitos de relacionamento entre os membros em virtude do vício em drogas), não fez nada mais que algumas turnês e um disco de covers – realmente uma falta de produtividade absurda para uma banda que, nos anos setenta, brindava o mundo com um grande álbum de rock a cada ano. Mas, em contrapartida, o público deve agradecer pela banda ainda estar na ativa; não foram poucos os momentos em que ela parecia rumar para o seu fim, pois, convenhamos que, sem Tyler ou Perry, o Aerosmith não existiria mais.

Jogando uma dose de ânimo ao público ansioso, e talvez até mesmo funcionando como um pedido de desculpas pela improdutividade da banda, foi prometido que “Music from Another Dimension!” seria o retorno do grupo à sua sonoridade setentista. Os amantes do bom e velho hard rock, obviamente, se encheram de esperança, afinal, o que o Aerosmith produziu em sua época áurea fez a banda se tornar uma das mais consagradas de seu gênero. Seria então o novo álbum um grande recomeço, a volta do velho rock, criativo e sem apelos comerciais?

A resposta é, infelizmente, não. Dá até para imaginar a expressão de desânimo que os fãs mais esperançosos tiveram ao ouvir a sucessão de faixas de “Music from Another Dimension!”, afinal, o disco não é nada do que se prometia. Há algumas músicas mais pesadas, mais empolgantes, é verdade, mas, em resumo, não deixa de ser seguido o caminho comercial dos lançamentos anteriores. Não que baladas e momentos mais melódicos sejam proibidos, muito pelo contrário, e que simplesmente soar comercial seja um erro fatal; o problema é exagerar em apostas óbvias, repetitivas, puramente radiofônicas, que vem arrastando a banda em um caminho cada vez mais sem volta, onde grande parte de sua música não passa de mesmice.

Pior ainda, é ver que as esquisitices de “Get a Grip” parecem ter voltado a dar o ar de sua graça. O início do álbum é bizarro, com uma faixa denominada “LUV XXX” e com uma narração ao melhor estilo “super-produção hollywoodiana”; a música, quando finalmente começa, mostra a tímida participação de Julian Lennon nos backing-vocals, e se caracteriza pela execução de riffs óbvios, nada criativos, compondo uma canção pouco dinâmica. “Oh Yeah” também é bem chatinha, sem engrenar, insistindo em patinar no lugar-comum.

“Beautiful” tem um início parecido ao de “Shoul I Stay or Should I Go”, mas acaba não apresentando o mesmo nível da canção do The Clash, longe disso… é uma aposta puramente comercial, com uma estrutura bastante estranha, passeando pelo agitado e pelo meloso de forma confusa, o que só leva a destacar a mediocridade do seu refrão. “Tell Me” é a primeira balada chata do disco, mostrando ser mais uma música com graves lapsos de criatividade, totalmente estagnada. É impressionante ver como Joe Perry, que criou “Walk this Way” e diversas outras canções de riffs memoráveis, se tornou um guitarrista extremamente comum, cujo mérito está apenas na execução do grande trabalho que, muito antigamente, com muito brilho ele construiu; seu senso criativo está visivelmente abalado, pois não é possível que, sendo o músico famoso e aclamado que é, se contente com a mediocridade de suas atuais composições.

Ainda bem que o álbum, apesar de pouco convincente, apresenta alguns bons momentos, contidos em faixas válidas que  dão um choque de realidade nos ouvintes – afinal, o que se ouve no disco é o Aerosmith, uma das grandes bandas da história, e seria improvável que, de tudo o que vem fazendo, nada pudesse ser aproveitado. “Out Go the Lights” e “Legendary Child”, por exemplo, são ótimas canções. A primeira, apesar de durar mais do que necessitava, é um rock bem cadenciado, ritmicamente competente, com uma forte presença de elementos funk, que lembra e pode ser comparada a “Last Child”; a segunda foi a feliz escolha da banda para ser o primeiro single do disco, contendo um instrumental poderoso, que pela primeira vez no disco apresenta alguns toques de genialidade. Em contrapartida, a sétima, “What Could Have Been Love”, é mais uma daquelas baladas sem-graça, parecida a tantas outras gravadas pela banda em seus últimos trabalhos.

“Street Jesus” é um outro momento de força e criatividade dentro do disco; é veloz, direta, pesada, caracterizando-se como um dos maiores encontros do Aerosmith com uma sonoridade mais punk. Das baladinhas de “Music from Another Dimension!”, “Can’t Stop Loving You”, com participação da country Carrie Underwood, talvez seja a melhor; se não se trata de uma grande canção, é pelo menos uma música conscientemente construída, agradável, sabendo de onde sair e para onde ir, sem soar enjoativa. A décima, “Lover Alot”, talvez esteja no álbum apenas para provar que o Aerosmith não erra apenas quando compõe canções melosas; afinal, é uma música pesadíssima, energética, mas extremamente enjoativa, irritante, com uma letra especialmente ruim.

“We All Fall Down” é mais um daqueles instantes calmos e chatos do disco, enquanto “Freedom Fighter”, com Joe Perry nos vocais e o ator Johnny Depp nos backing-vocals, é um arena-rock certeiro, bem construído, uma canção que mesmo sem muito brilhantismo é capaz de convencer os ouvintes mais sedentos por um rock mais puro. Já “Closer” tem uma veia bem puxada para o blues, e apesar de ser mais uma canção com fundo romântico, é um bom número do álbum, com competentes interpretações vocal e instrumental. “Something” é também muito boa, uma das melhores do álbum, novamente com Joe Perry assumindo os vocais, só que dessa vez com Steven Tyler tocando bateria.

A última faixa do álbum, “Another Last Goodbye”, é provavelmente uma das mais feias pisadas de bola que o Aerosmith já realizou. Sabe “I Don’t Want to Miss a Thing”? Então, é praticamente a mesma coisa… uma aposta repetitiva, nada criativa, capaz de fazer o disco se encerrar com as piores impressões que se poderiam imaginar.

“Music from Another Dimension!” tem alguns momentos de um rock mais forte, e por isso não é um trabalho com demérito total. Mas, mesmo assim, não deixa de ser um dos trabalhos mais decepcionantes do Aerosmith, um dos momentos de mais grave falta de criatividade na história da banda. Em suma, o álbum é comercial em demasia, em quase toda sua totalidade a explorar texturas óbvias e de fácil aceitação. É, enfim, um “resumão” de todos os álbuns da banda desde “Get a Grip”, com todos os mesmos erros e acertos da banda nos últimos vinte anos.

Parece ser cada vez mais difícil ver o Aerosmith fazer novamente o mesmo rock brilhante realizado pela banda na década de setenta. Desde que começou a se obcecar pela música pop, a banda resolveu deixar de lado um som de maior atitude e de maior criatividade para investir sempre nas mesmas apostas, com as mesmas ideias prontas. O que é uma pena, pois, mesmo que não seja de se jogar fora, o atual momento do Aerosmith mostra uma banda muito menor do que um dia já foi; é como uma carregada e constante nuvem cinza a esconder o brilho que a banda é capaz de ter.

NOTA: 5,5

Track List:

01. LUV XXX (Tyler/Perry) [05:17]

02. Oh Yeah (Perry) [03:41]

03. Beautiful (Tyler/Frederiksen/Whitford/Kramer/Hamilton) [03:05]

04. Tell Me (Hamilton) [03:45]

05. Out Go the Lights (Tyler/Perry) [06:55]

06. Legendary Child (Tyler/Perry/Vallance) [04:15]

07. What Could Have Been Love (Irwin/Tyler/Frederiksen) [03:44]

08. Street Jesus (Whitford/Tyler) [06:43]

09. Can’t Stop Loving You (Whitford/Frederiksen/Tyler/Hamilton/Kramer) [04:04]

10. Lover Alot (Tyler/Whitford/Hamilton/Kramer/Sky Kramer/Frederiksen/Moir) [03:35]

11. We All Fall Down (Warren) [05:14]

12. Freedom Fighter (Perry) [03:19]

13. Closer (Tyler/Frederiksen/Kramer) [04:04]

14. Something (Perry) [04:37]

15. Another Last Goodbye (Tyler/Perry/Desmond Child) [05:47]

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