1969: Led Zeppelin – Led Zeppelin

Por: Renan Pereira

Quando o público roqueiro inglês lamentou, em agosto de 1968, o fim dos Yardbirds, um dos mais bem-sucedidos grupos daquela década, mal sabia que algo maior ainda estava para vir. Algo que, naquele tempo, era absolutamente duvidável, visto o legado que o The Yardbirds havia deixado; afinal, foi um dos grupos que ajudaram a moldar o rock, contando, durante seus cinco anos de atividade, com o extremo talento de nomes como Eric Clapton, Jeff Beck e, finalmente, Jimmy Page. O último, que acabou com os direitos de nome do grupo dissolvido, ficou também com algumas obrigações contratuais, incluindo uma série de concertos que já haviam sido anteriormente marcados para a Escandinávia.

Chris Dreja, até então baixista dos Yardbirds, havia decidido parar com a música e seguir carreira como fotógrafo, e sem ter uma banda para os tais shows, Page tratou de recrutar para o baixo o multi-instrumentista John Paul Jones, um músico de reconhecido talento, que já havia trabalhado com os Stones (no arranjo de “She’s Like a Rainbow”, faixa do psicodélico “Their Satanic Majesties Request”), com Rod Stewart, Donovan, Cat Stevens, com o ex-Yardbird Jeff Beck e demais outros nomes.

Os outros recrutados faziam parte da Band of Joy: os jovens John Bonham (baterista) e Robert Plant (vocalista), nomes desconhecidos do grande público até então. Estava assim formada a banda The New Yardbirds, que veio a realizar os nove shows previstos contratualmente, na Dinamarca e na Suécia. A banda, segundo Plant, “não ganhou nenhum dinheiro na turnê. Jimmy gastou cada centavo que ele tinha conseguido através dos Yardbirds, o que já não era muito”. Apesar de bem-recebida pelo público, a banda, segundo os próprios integrantes, estava ainda muito verde, pouco entrosada, mas, mesmo assim, encorajou Page a mudar o nome do grupo para “Led Zeppelin” e, em outubro de 1968, entrar em estúdio para a gravação do primeiro álbum do conjunto.

Este, por ser um trabalho auto-financiado, teve que ser gravado e mixado com poucas horas de estúdio, visto o alto custo que isso despendia. Contudo, por ser uma gravação independente, foi garantida a total liberdade artística da banda, que pôde fazer o que realmente queria, sem intervenções de terceiros. O contrato com a Atlantic Records só veio depois de sua reação muito positiva sobre o trabalho, depois de a banda lhe apresentar as fitas gravadas nos Olympic Studios, em Londres.

Produzido por Page e por Glyn Johns (que já havia trabalhado com Beatles, Stones e The Who), o disco é praticamente um álbum ao-vivo, devido ao ínfimo tempo que a banda teve para gravá-lo. Há overdubs, é verdade, que foram adicionados no processo de mixagem, mas todas as músicas foram registradas com todos os instrumentos tocando juntos. Por ser de baixo orçamento, de produção simplória e capturar o real espírito dos concertos, é comparado, por muitos, ao “Please Please Me”, primeiro álbum dos Beatles – se bem que os garotos de Liverpool eram realmente iniciantes, enquanto os integrantes do Led Zeppelin já tinham certa experiência.

Quando se ouve um álbum do Led Zeppelin, principalmente os anteriores ao “Prezence”, o que se espera é nada mais que uma sucessão de clássicos. E no primeiro registro, apesar de ser o primeiro, não poderia ser diferente, levando em consideração a magnitude do grupo em questão. O primeiro dos clássicos já é a primeira faixa, a fantástica “Good Times Bad Times”, caracterizada pelos riffs memoráveis, pelo estupendo solo de Page e pela performance sobre-humana de Bonham nas baquetas. Conhecido por nunca esconder suas referências, já fica claro, na primeira faixa de seu primeiro álbum, que o Led Zeppelin constantemente se inspirou em Cream, principalmente para construir o pesado e distorcido blues-rock de seu debut.

“Babe, I’m Gonna Leave You” é uma canção folk, composta por Anne Bredon no final dos anos cinquenta, e gravada anteriormente por Joan Baez. Revisitada pelo Led Zeppelin (devido ao fanatismo de Page e Plant pela música de Baez), com algumas alterações, acaba se mostrando como um dos momentos mais incríveis do disco, uma grande exposição sentimental. Primeiramente, o triste canto de Plant inserido no fantástico arranjo acústico de Page, fazendo o ouvinte viajar a longas milhas de distância, para depois explodir em um bloco pulsante e pesado, como que se estivesse expelindo para todos os lados os sentimentos inseridos na emotiva linha vocal.

Por ter sempre inspirações bem claras, volta e meia o Led Zeppelin se viu envolvido em pequenas confusões. Uma destas ocorreu em “You Shook Me”, cover de Muddy Waters. O caso é que Jeff Beck, antigo companheiro de Yardbirds e amigo pessoal de Page, já havia regravado a canção meses antes de o Led Zeppelin ter a mesma ideia para preencher a terceira faixa de seu primeiro álbum. Beck acusou Page de ter lhe roubado a ideia, enquanto Page jurou de pés juntos que não tinha conhecimento da versão de Beck. No fim, felizmente, temos duas versões que, apesar de parecidas, não são idênticas, o que pode dar alguns créditos às juras de Page. A música, por ser de um blues bem tradicional, é um dos maiores encontros do Led como este gênero, enfatizando o extremo talento de Page em sentimentais riffs, a sensual linha vocal de Plant e a bela atuação de Jones ao órgão, com claros toques psicodélicos.

E lá vai mais uma: “Dazed and Confused”, música de Jake Holmes, foi creditada apenas a Page no encarte do disco, ignorando totalmente o fato de ela ter sido criada, dois anos antes, por outro músico. O fato é, que apesar de ser uma decisão polêmica por parte do Led Zeppelin, a música teve letra e melodia totalmente alteradas por Page, resultando em uma canção bruscamente modificada, que realmente muito pouco lembra o número composto por Holmes. É famosa pela interação entre a pesada linha de baixo, brilhantemente interpretada por John Paul Jones, e riffs de guitarra espetacularmente construídos, lentos, pesados e misteriosos, que lembram até o que o Black Sabbath faria em seu primeiro disco, meses depois; a partir de sua metade, a faixa amplifica sua velocidade, dando um ritmo mais veloz ao baixo e mais melódico à guitarra, em um bloco altamente hilariante. No desfecho, temos algumas progressões, variações incríveis de velocidade, totalmente inesperadas, que dão notas finais a uma das mais dinâmicas e mais surpreendentes canções já gravadas pelo Led Zeppelin.

“Your Time Is Gonna Come” abre a segunda metade do disco, com uma das letras mais interessantes de todo o registro, falando sobre uma menina infiel que irá pagar o preço de seus descaminhos. Segundo o produtor Rick Rubin, “tem um dos refrões mais otimistas de qualquer música do Led Zeppelin, mas com palavras bastante escuras”. O instrumental, pra variar, é mais uma vez maravilhoso, com Bonham em um ritmo forte, como se estivesse em uma música pesada, enquanto as guitarras tocam suaves riffs folk. Também é destacável mais uma grande atuação de Jones ao órgão, mostrando quão completo como músico ele sempre foi.

As influências orientais também sempre foram uma constante no som do Led Zeppelin, o que já é evidenciado em “Black Mountain Side”, mostrando que, apesar de ser principalmente blues-rock, o primeiro álbum já evidenciava algumas “aventuras sonoras”. A faixa, que trás apenas Page como membro oficial da banda na execução (há a participação do indiano Viram Jasani na percussão), é um número instrumental inspirado em uma canção folclórica irlandesa, e se comporta como um raro momento de calmaria dentro do disco. É uma faixa que não pode passar batida, sendo tão importante quanto as demais, por solidificar os pontos extremamente positivos da criatividade de Page e concretizar a ideia da liderança que era por ele exercida nos primeiros tempos da banda.

“Communication Breakdown”, uma das canções mais conhecidas do grande catálogo do Led, traz uma estrutura mais direta, mais raivosa, contendo um instrumental pesado, amparado por fantásticos riffs de guitarra e uma grandiosa linha de baixo. Pode até mesmo ser considerada como um protopunk, tanto que serviu de inspiração para a construção do estilo de Johnny Ramone, guitarrista dos Ramones.

“I Can’t Quit You Baby” é mais um cover, mas dessa vez sem causar maiores confusões. Se trata de um blues bem tradicional, com uma forma perfeitamente simétrica, mas com uma instrumentação ligeiramente diferente, mais dinâmica em relação à versão original de Otis Rush. Se trata de uma daquelas canções “puro feeling”, evidenciando-se pelo lúbrico vocal de Plant e pela belíssima interpretação de Page na guitarra.

Para finalizar um grande álbum, logo a canção mais longa do registro, com oito minutos e meio de duração. “How Many More Times” foi composta juntando pedaços já anteriormente pensados por Page, enquanto ainda membro dos Yardbirds, e por isso se comporta como uma canção altamente dinâmica; enfim, é como uma longa faixa deve ser, atraindo os ouvintes constantemente, em cada segundo de sua duração, sem deixar espaços para “encheção de linguiça”. A curiosidade é que, no encarte do álbum, a duração da faixa está marcada como sendo de três minutos e trinta segundos; o erro é, na verdade, proposital, pois Page sabia que nenhuma estação de rádio estaria disposta a tocar uma canção com mais de oito minutos, levando então ao “maquiamento” do tempo e, consequentemente, a algumas execuções na mídia.

Por mais que não seja o melhor álbum do Led Zeppelin, o primeiro registro da banda é tão grandioso quanto a própria banda. Os roqueiros ingleses não esperavam, e talvez nem Jimmy Page esperava tamanho sucesso, tamanha aclamação, sendo que tudo veio dos pedaços de uma banda que havia acabado. Por mais que seja inegável a importância dos Yardbirds, é visível que, apenas em seu primeiro álbum, o Led Zeppelin já havia criado um legado muito maior à banda dissolvida. Afinal, o primeiro trabalho de Page, Plant, Bonham e Jones, apesar de conter certos momentos de polêmica (discutidos até os dias de hoje), se mostra como um registro inovador, revolucionário, dono de uma musicalidade firme, competente, com melodias poderosas e ritmo dinâmico, que ajudou a construir as bases para o hard rock e o heavy metal como hoje conhecemos. Se trata basicamente de uma mescla de blues e rock, é fato, mas desta simples mescla, muito inspirada em trabalhos anteriores, surgiu um dos legados sonoros mais entusiasmantes do final da década de sessenta.

O Led Zeppelin é uma das bandas mais dinâmicas de todos os tempos, o que é provado por grandes momentos de sua rica discografia, que inclui flertes com uma incrível variedade de vertentes e estilos. Seu primeiro álbum não é de um dinamismo tão grande assim, percorrendo, em quase todo o tempo, um terreno firme, sem correr maiores riscos. E talvez aí realmente esteja o grande acerto do disco; ele fez o certo no momento certo, sem maiores firulas, apresentando uma banda nova que fazia um som de uma solidez incrível, invejável à maioria dos conjuntos da época. É, enfim, o primeiro momento de brilhantismo de um dos grupos mais brilhantes da história, que nos próximos anos ainda viria a brilhar muito mais.

NOTA: 9,7

Track List:

01. Good Times Bad Times (Bonham/Jones/Page) [02:47]

02. Babe, I’m Gonna Leave You (Bredon/Page/Plant) [06:41]

03. You Shook Me (Dixon/Lenoir) [06:30]

04. Dazed and Confused (Page) [06:27]

05. Your Time Is Gonna Come (Jones/Page) [04:34]

06. Black Mountain Side (Page) [02:13]

07. Communication Breakdown (Bonham/Jones/Page) [02:30]

08. I Can’t Quit You Baby (Dixon) [04:43]

09. How Many More Times (Bonham/Jones/Page) [08:28]

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