2012: Psychedelic Pill – Neil Young & Crazy Horse

Por: Renan Pereira

O canadense Neil Young novamente juntou-se à banda Crazy Horse, que vem lhe acompanhando pela carreira há um bom tempo, para lançar seu trigésimo-quinto álbum de estúdio, e o segundo só no ano de 2012; “Psychedelic Pill” é, porém, o primeiro álbum de inéditas da parceria de Young com sua eterna banda de apoio desde “Greendale”, de 2003. Mas parece que toda essa espera valeu a pena, visto que eles presentearam seus admiradores com um disco pra lá de caprichado.

Da carreira de Neil Young e do músico que ele é nem se precisa falar muito; afinal, ele é uma verdadeira lenda-viva da música, um dos músicos mais brilhantes e competentes da história, e um dos pilares do rock norte-americano. Felizmente, assim como outros grandes nomes experientes, como Bob Dylan e Bruce Springsteen, ele continua afiado, criativo e com toques de genialidade, com totais condições de compor mais alguns ótimos álbuns para o seu vasto catálogo. É verdade que a carreira musical atualmente para ele tem uma nova dimensão, sua atuação como ativista tem lhe tomado um bom tempo, e não há como esperarmos dele a mesma atuação dos anos setenta; temos que levar em consideração que ele já está envelhecendo, e não dá para exigir de um sexagenário o mesmo fôlego do seu ápice artístico. Mas mesmo assim, ele tem lançado um disco atrás do outro, em um ritmo invejável, continuando a ser um dos músicos mais influentes e admirados, e não somente devido aos seus antigos trabalhos.

A carreira musical de Neil Young, embora menos brilhante nos últimos tempos, tem se mantido em um bom nível, condizente com o grande artista que ele é. Dos seus últimos álbuns de inéditas pouco há do que se reclamar, e analisando o novo “Psychedelic Pill” percebe-se que o espaço para visões negativas é praticamente inexistente. O álbum é bonito, conciso, corajoso e competente, mais uma prova, e talvez a maior dos últimos anos, de que Young continua no supra-sumo dos artistas da música.

“Psychedelic Pill” é bonito por reunir, mais uma vez, a grande capacidade lírica e melódica das composições de Young com as instrumentações fantásticas da banda Crazy Horse, e é conciso por trazer faixas relevantes, boas canções, que fazem as dúvidas quanto à qualidade do álbum passarem nulas. É corajoso porque rema ao contrário das tendências atuais, de consumismo veloz e instantâneo, em que tudo se prende à base do imediatismo; “Psychedelic Pill” é um álbum longo, duplo, para ser ouvido com calma (preferencialmente no final de semana), sem pressa e sem pressão. Faixas extensas e longas jams deixam o álbum com uma personalidade forte, com um aspecto anti-comercial nada característico destes tempos de “consumo acima de tudo”.

A primeira faixa, para se ter ideia, marcha por longos e deliciosos vinte e sete minutos, sem que nenhum segundo seja tempo perdido; de uma agradável instrumentação acústica que aloca os primeiros versos, passando por um forte coro de vozes, “Driftin’ Back” acaba por se tornar uma ode ao hard rock clássico, com ótimos riffs em duradouras jams, em um espetáculo dinâmico e criativo, dando destaque absoluto aos instrumentos. Mas, como não poderia deixar de ser em um trabalho de Neil Young, a letra também tem alguma relevância, desta vez brincando com o psicodelismo, com algumas boas tiradas em momentos aparentemente “alucinógenos”. Na realidade, a consciência foi sempre um dos pontos mais fortes da capacidade lírica de Young, e talvez nenhuma de suas composições chegue a ser, algum dia, somente “loucura” – elas sabem sempre de onde e para onde ir. Em “Psychedelic Pill”, elas não estão tão profundas como em outras oportunidades, mas totalmente dentro do coração da música norte-americana… Se a capa do álbum mostrasse a folha de bordo da bandeira canadense, não estaria em nada fora do contexto.

A faixa-título é mais rápida, com os habituais três minutos e alguns segundos, com um instrumental pesado e envolto por uma mixagem que faz o álbum flertar mais um pouquinho com o psicodelismo; é uma canção vívida, intensa, que deixa a experiente musicalidade de Neil Young soar especialmente jovem.

“Ramada Inn”, mais um canção longa, com quase dezessete minutos de duração, pode ser considerada como uma viagem ao tempo, recordando as voltas e reviravoltas de um relacionamento de longo tempo, com o marido e a mulher a considerar o futuro das suas vidas, agora que os filhos cresceram. É uma faixa que está mais para emotiva, envolvida por um instrumental impecável, em que cada riff soa impregnante e memorável. Não é exagero dizer que se trata de um dos melhores momentos já vividos pela parceria de Young com a Crazy Horse.

Por mais que os grandes destaques do álbum sejam realmente as faixas mais longas, as mais curtas não chegam a simplesmente encher linguiça; servem como um acompanhamento, é verdade, alguma degustação mais leve para suavizar o peso do prato principal, mas nem por isso deixam de ter o seu mérito. “Born in Ontario”, como seu próprio título não mentiria, é uma canção tradicionalista, competente, com Young cantando sobre sua terra-natal, enquanto “Twisted Road”, que abre o segundo disco, cita Bob Dylan e The Grateful Dead em um rock daqueles com uma sonoridade bem clássica, totalmente inserida em sentimentos de nostalgia. “She’s Always Dancing” é outra faixa bem mais duradoura que o normal, com oito minutos e meio, e apesar de não ser um dos momentos de maior genialidade de Neil Young, é um belo espetáculo de guitarras. Aliás, “Psychedelic Pill” é realmente um trabalho daqueles que pode ser rotulado como “um álbum de guitarras”, por ter nos riffs e nas longas jams suas melhores qualidades – ou seja, um verdadeiro prato cheio para o ouvinte mais tradicionalista, para o amante do bom e velho rock.

É verdade que ouvir os últimos trabalhos de Neil Young é aproveitar um pouco mais do mesmo, tanto que “For the Love of Man”, que pisa em um terreno bastante corriqueiro da carreira do canadense, está aí para dar provas. Mas talvez aí é que esteja a graça da coisa; Young já é um artista há muito consagrado, e não precisa provar mais nada para nenhum crítico de música. Apesar de seus inúmeros trabalhos, na maioria das vezes, baterem muito na mesma tecla, procurando revisitar sempre os anos setenta, geralmente têm a qualidade e a competência que faltam a muitas bandas atuais. Inovar é necessário, é verdade (e Neil Young já cumpriu com louvor a sua “cota de inovação”), mas obviamente não é tudo; coesão e consciência são dois pontos necessários de um trabalho competente, e isto nem o mais ferrenho dos críticos pode ignorar nos últimos exemplares da discografia de Young.

“Walk Like a Giant”, outro número longo e de grande qualidade do disco, é uma daquelas canções que chegam a enganar o ouvinte, no início se comportando apenas como mais uma, semelhante a outras tantas; mas a pessoa mais paciente, menos imediatista, é premiada com uma incrível performance a partir do décimo minuto, talvez uma das mais aventureiras da banda Crazy Horse até então – pesada, com distorção atrás de distorção, expelindo um forte sentimento de raiva e dor. A última canção é apenas a última, aproveitável, é verdade, mas sendo só a faixa-título com uma mixagem diferente.

“Psychedelic Pill” não é de todo impecável, não é a maior demonstração da genialidade de Neil Young, e passa longe de querer tirar de “Everybody Knows This Is Nowhere”, “After the Gold Rush”, “Harvest” e “On the Beach” o ápice criativo do músico. Mas isso não significa nenhuma decepção, longe disso… Quem espera mais um clássico do tamanho destes pode esperar sentado, pois provavelmente vai esperar para sempre, necessitando assim de um bom encosto para as costas. “Psychedelic Pill” é tradição e qualidade, um álbum competente com toquinhos de genialidade, com um sentimento nostálgico que o diferencia no cenário atual; ou seja, tudo que realmente se espera da união de Neil Young com a banda Crazy Horse nos tempos atuais.

NOTA: 8,0

Track List:

CD 1:

01. Driftin’ Back [27:36]

02. Psychedelic Pill [03:26]

03. Ramada Inn [16:49]

04. Born in Ontario [03:49]

CD 2:

01. Twisted Road [03:28]

02. She’s Always Dancing [08:33]

03. For the Love of Man [04:13]

04. Walk Like a Giant [16:27]

05. Psychedelic Pill (Alternate Mix) [03:32]

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