2001: Is This It – The Strokes

Is This It

Por: Renan Pereira

Por mais que seja um trabalho dos tempos modernos, e muitos puristas ainda neguem, é inevitável afirmar que “Is This It” se tornou um eterno clássico do rock. E não é para menos; este é um daqueles álbuns em que cada detalhe, cada verso, cada riff de guitarra, por mais que às vezes simples e jovial, soa para ser memorável. O que os então estreantes do The Strokes conseguiram em seu primeiro álbum, modificando o olhar do público para o rock alternativo, talvez nenhum grupo depois deles, exceto o Arcade Fire, tenha conseguido: “Is This It” reinventou o indie rock, balançou os alicerces da música mundial e inspirou uma geração inteira de músicos e bandas.

Levando em consideração a grande bagagem musical que a banda apresentou logo em seu disco de estreia, é de se imaginar que ela tenha começado mesclando as mais diferentes influências. Pois assim foi: Bob Marley, The Doors, The Velvet Underground e Jane’s Addiction inspiravam Julian Casablancas e seus colegas nas primeiras seções do grupo como ele é conhecido – e de demos gravadas em um pequeno estúdio alugado de Nova York para o contrato com uma grande gravadora foi só um pulo. As demos acabaram chamando a atenção do caça-talentos Ryan Gentles, que ajudou a banda a gravar três novas canções que, posteriormente, estariam em “Is This It”. Impressionando os ingleses da Rough Trade Records, o grupo teve a oportunidade de lançar, no Reino Unido, e no início de 2001, seu primeiro EP, intitulado “The Modern Age”, que obteve uma calorosa recepção da crítica.

Daí em diante, uma bem-sucedida turnê nas terras da Rainha Elizabeth e o fechamento de um contrato com a RCA Records levaram o The Strokes a gravar o seu tão esperado primeiro álbum de estúdio. Contendo uma capacidade lírica invejável, números instrumentais matadores e, principalmente, levando mais vida e tempero para dentro de seu gênero musical, “Is This It” acabou por obter status de clássico desde praticamente seu lançamento.

Afinal, aquele trabalho não remoía a década passada, simplesmente tentando “alongar” a década de noventa, como muitos de seus álbuns contemporâneos faziam. Ele se apresentou como um marco para o rock do novo século, cantando os sentimentos do novo século, com um espírito novo, pulsante, e para o público do novo século. “Is This It” chegou para mostrar que a década passada já havia acabado, e que o rock precisava muito de uma nova abordagem, para não se tornar velho, obsoleto… Foi um choque de realidade, que fez nascer a era mais produtiva, a era dourada do indie rock.

Ousado e provocante desde a sua capa, “Is This It” é um disco que instiga o ouvinte do início ao fim, apresentando sempre uma sonoridade pulsante e inteligente, que nunca decai em qualidade. Por mais que seja um registro vívido, agitado, inicia-se com sua canção mais lenta, que é, por acaso, a faixa-título; talvez a única canção do álbum que se possa comparar a uma “balada”, é fruto de um relacionamento de Casablancas (que a canta com uma voz especialmente doce), e contém o primeiro número instrumental surpreendente, que, apesar de sua simplicidade, se trata de uma rápida e intensa viagem por deliciosos riffs e uma belíssima linha de baixo. A ótima “The Modern Age” é, realmente, um discurso sobre a vida moderna, e se trata de uma daquelas canções para o ouvinte “flutuar” enquanto ouve; com um instrumental extremamente agradável, e com vocais que pendem do calmo para o raivoso, é mais uma atestação do quão segura a banda era, mesmo em sua estreia. O The Strokes é um daqueles casos, como o Velvet Underground, o The Doors, ou até mesmo o Guns N’ Roses (nomes que, por coincidência ou não, em algum momento tiveram certa ligação com os Strokes), de bandas que chegam “arrebentando a boca do balão”, tocando a música que as pessoas queriam ouvir, na época perfeita e com a segurança digna de uma banda experiente e já consagrada.

A terceira, “Soma”, é mais uma canção curta e intensa, contendo referências diretas do livro “Admirável Mundo Novo” em uma letra altamente intrigante, um verdadeiro espetáculo lírico de Casablancas, que é amparado por um instrumental certeiro, com riffs matadores, impregnantes. Se mais alguma prova era necessária para confirmar quão acertada era a música dos Strokes, e os sentimentos nela inseridos, “Barely Legal” arremata tudo o que se pedia de um som realmente “atual”, contemporaneamente perfeito; se trata de uma música fantástica, com mais um instrumental delicioso, melodicamente impecável, que leva em consideração as recorrentes preocupações de uma garota a sair da adolescência. “Someday” é um clássico do indie rock; com uma letra bem bonita, em que o vívido, dinâmico e melódico instrumental é realmente um grande destaque, funciona como um hino do rock moderno, um sinônimo da revolução causada pelos Strokes lá no início da década passada (hoje em dia pode até ser uma música de propaganda, mas já foi considerada como uma das mais surpreendentes gravações do rock do novo milênio).

“Alone, Together” não é das mais famosas, mas contém uma das melhores e mais inteligentes letras de Casablancas, demonstrando como uma relação pode ser vazia e, porque não, solitária. Pode ser dita até como uma divagação sobre o início do século, tão sem brilho, tão depressivo, que apesar de experimentar um gigantesco crescimento populacional, insistia em afastar cada vez mais as pessoas. Com uma melancolia explorada pelo sentimental vocal, que vagueia pelo desânimo e a raiva em sintonia com os instrumentos, é uma canção com a cara de sua época, e um dos momentos mais brilhantes do grandioso “Is This It”.

É impressionante como o disco consegue emplacar uma grande canção depois de outra, basicamente em uma sucessão de clássicos. “Last Nite” é outra dessas canções impecáveis, excelentes, com performances líricas, vocais e instrumentais praticamente perfeitas; não por acaso, está presente em várias listas que enumeram as melhores músicas da década passada. “Hard to Explain” é outro espetáculo, com mais uma grande letra, e apresentando uma outra performance instrumental impecável, trabalhando com excelência e dinamismo uma ótima melodia. A nona, a pesada “New York City Cops”, foi retirada dos exemplares comercializados nos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro, por criticar abertamente a polícia da cidade; se trata de uma letra crítica, raivosa, com um instrumental nervoso e melódico ao mesmo tempo, altamente dinâmico.

“Trying Your Lucky” também é fantástica, uma música que exala o talento da banda do início ao fim, falando sobre relacionamento de um modo que surpreende pela inteligência e profundidade da letra. A décima-primeira, e surpreendentemente já a última faixa do disco, que realmente passa voando, é a também ótima “Take It or Leave It”, oferecendo mais um espetáculo para os ouvidos; é um número perfeito para o final, passeando com peso por um riff melódico, com mais uma daquelas performances vocais tradicionais de Casablancas – ora serena, ora raivosa. E é assim, com um espetáculo de guitarras, bem como se iniciou, que “Is This It” é finalizado, deixando o ouvinte geralmente com vontade de voltar ao início e ter o prazer de ouvir tudo de novo.

Por mais incrível que a banda fosse, é claro que na época ainda houve algum exagero, principalmente quando começaram a chamá-los de “o novo Velvet Underground”, ou, pior ainda, de “os Stones do século XXI”. Não é para tanto, é verdade, e o tempo mesmo nos mostrou que a banda passou longe de ser um fenômeno ao nível dos Stones; outrora tão vívida, tão pulsante, principalmente em seu primeiro álbum, é hoje uma banda estagnada, que está apenas relativamente em atividade, tendo lançado, como último trabalho, o chato “Angles”.

Mas, no início da década passada, era sim um grupo fantástico, extremamente promissor, um dos mais copiados e influentes daquele tempo até os dias de hoje. “Is This It” está para o indie rock assim como “Paranoid” está para o heavy metal, “The Dark Side of the Moon” está para o progressivo, e assim vai… É, enfim, um dos discos mais cultuados de todos os tempos, o mais famoso e o mais significante do rock alternativo do segundo milênio.

Porém “Is This It” não é só importância, como também é consistência e brilhantismo. É um espetáculo em toda sua duração, contendo onze grandes canções, que a cada palavra, a cada nota musical, ajudaram a construir as bases para o rock genuinamente moderno. É um álbum grandioso e ao mesmo tempo rápido, que parece passar na velocidade da luz, mas que mesmo assim deixa marcas duradouras no senso musical dos ouvintes. Pode-se amar ou pode-se odiar o indie rock, mas o que não se pode é negar a importância e a qualidade deste disco, um dos melhores da década passada e, consequentemente, do século em que estamos vivendo.

NOTA: 9,5

Track List: (todas as faixas compostas por Julian Casablancas)

01. Is This It [02:35]

02. The Modern Age [03:32]

03. Soma [02:38]

04. Barely Legal [03:54]

05. Someday [03:07]

06. Alone, Together [03:12]

07. Last Nite [03:18]

08. Hard to Explain [03:48]

09. New York City Cops [03:36]

10. Trying Your Luck [03:28]

11. Take It or Leave It [03:16]

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