1973: Innervisions – Stevie Wonder

Por: Renan Pereira

Stevie Wonder é um daqueles caras que já nasceram com um talento que provavelmente nunca morrerá. Descoberto pela Motown ainda quando criança, tendo sido, desde então, um dos artistas norte-americanos mais bem sucedidos, Wonder se mostrou sempre um instrumentista fantástico, genial principalmente com o piano e com a gaita de boca. Suas composições, porém, demoraram certos anos para se elevarem de um estudo pré-maturo para o alto nível artístico que o caracteriza; algo compreensível, pois não dá para exigir de um adolescente trabalhos de grande maturidade e consistência.

Por mais que não seja algo tão espetacular, a discografia sessentista de Wonder é algo bem interessante de se ouvir, justamente por mostrar o garoto de enorme talento tentando se firmar no mundo da música; por mais que já tenha nascido talentoso, quando criança Wonder era ainda uma pedra bruta, que necessitava ser lapidada. Para isso lhe serviram os anos de Motown, onde pôde realizar seu trabalho de forma satisfatória na mais famosa gravadora da música negra norte-americana; lá teve a oportunidade de conviver com os mais famosos artistas, os mais bem-conceituados produtores, recebendo todas as condições para se tornar um músico impecável.

Foi nos anos setenta que, então, o prodígio se tornou maduro. Ainda muito jovem, com vinte e pouquinhos anos, Wonder veio a compor os melhores trabalhos de sua carreira, discos reconhecidos como simplesmente uns dos melhores de todos os tempos dentro do gênero soul/funk. O chamado “período clássico” da carreira de Stevie Wonder iniciou-se em 1972, quando veio a surpreender o mundo da música com um trabalho ambicioso, forte, maduro, e totalmente diferente de tudo que ele havia feito na Motown até então; “Music of My Mind” extrapolou tudo o que se esperava de Wonder, com texturas fantásticas, abordando os mais diferentes gêneros da música, e com uma capacidade lírica admirável, capaz de construir canções longas, épicas, as quais muitas tinham capacidade de se tornar verdadeiros hinos da música negra.

Quando lançou “Music of My Mind” e posteriormente, no mesmo ano, “Talking Book”, Wonder basicamente saiu do pântano instável que era sua carreira adolescente para percorrer um terreno dourado, se destacando como uma das mentes mais inteligentes de sua época. Mergulhando fundo nos problemas da sociedade, falando abertamente sobre drogas, violência e falta de ética política, e utilizando alguns bons toques de espiritualidade, ele construiu, em 1973, utilizando o mesmo cativante tempero soul/funk de toda sua carreira, um álbum com ambições ainda maiores; este, “Innervisions”, é considerado por muitos como o melhor registro de sua carreira.

A primeira faixa de “Innervisions”, “Too High”, apresenta um instrumental poderoso, com uma pesada linha de baixo e com belíssimas interferências de gaita, se tratando de uma canção abertamente anti-drogas; soando como uma advertência, é apenas a primeira imersão de Wonder nos problemas sociais em “Innervisions” – o disco em que ele se mostrou especialmente crítico. Tida pelo próprio Stevie Wonder como, talvez, sua composição preferida, “Visions” é uma canção efêmera, de espírito destoante dentro do álbum, por ser calma e positiva; construída com um fantástico instrumental acústico, com uma linha vocal emocionante, é o mais puro e sincero desejo de Wonder por um mundo melhor.

A terceira, “Living for the City”, é uma obra-prima que merece um parágrafo especial; é a mais impressionante composição de Stevie Wonder, o mais crítico e mais raivoso momento de toda a sua longa carreira. Ela conta a história de um menino pobre, nascido em um tempo difícil em Mississippi, integrante de uma família que sofria de problemas como falta de comida e racismo. À medida em que os descaminhos dos personagens vão se tornando mais gritantes, a tensão vai crescendo na voz de Wonder, em uma verdadeira aula interpretativa. Eis então que o personagem principal torna-se adulto, vai para Nova York tentar a sorte, mas, logo na chegada, é preso transportando drogas; condenado, fica dez anos na prisão. É, indubitavelmente, um canção épica, uma das liricamente e sentimentalmente mais complexas de todos os tempos dentro da soul music.

Emendada com o final da terceira faixa se inicia “Golden Lady”, outra clássica canção, contendo maravilhosas progressões de acordes;  é um momento mais tranquilo do álbum, se contrapondo bastante à pesada faixa anterior (é, afinal, uma bela canção apaixonada, e não muito além disso, desta vez sem nenhum olhar crítico). “Higher Ground”, a canção de maior sucesso comercial do álbum, é um espetáculo rítmico, um fortíssimo e tradicional funk envolvido por quentes riffs de guitarra; um ponto interessantíssimo da faixa é a impecável atuação nas baquetas, realizada pelo próprio Stevie Wonder.

A segunda parte do álbum, iniciada na quinta faixa, apresenta um lado mais espiritual de Wonder. Funciona como um sentimento de alívio, mas como a calmaria depois da passagem de um furacão: apesar dos ventos estarem fracos, a lembrança da tormenta ainda está fresca na memória, e as janelas quebradas e árvores caídas estão ainda por todos os lados. Mesmo mais aliviadas, as canções ainda mantém um apelo crítico – cada uma com um sentimento único, com as suas particularidades, mas todas amarradas de certa forma entre si. “Jesus Children of America”, com seu instrumental maravilhoso, pode até ser considerada uma canção espiritual, mas seu ponto central talvez esteja na defesa da honestidade religiosa, condenando o modo de atuação de algumas igrejas.

“All in Love Is Fair”, contendo mais um ótimo instrumental, é uma belíssima faixa romântica, com uma considerável carga dramática exposta pela performance vocal de Wonder; é inegável quão completo ele já era como músico tendo apenas 23 anos: compositor fantástico, instrumentista competente e letrista inteligente, trabalhando impecavelmente bem tanto com números mais críticos e raivosos quanto em canções românticas e calmas. Como se estivesse remoendo tudo o que passou pelo álbum, numa espécie de “resumo”, Stevie Wonder nos presenteia com “Don’t You Worry ‘bout a Thing”, dizendo pra levar as coisas com calma, “numa boa”, sempre procurando olhar para o lado positivo; o tipo de diálogo do início da faixa, incomum para a época, realmente importando o tipo de fala dos guetos, seria massivamente explorado no hip-hop a partir da década posterior.

Para finalizar um grande álbum, uma grande faixa, que não fica devendo nada às demais, tanto em talento instrumental quanto crítico; apesar de não ser uma intenção clara, “He’s Misstra Know-It-All”, que fala de um malandro ensaboado, daqueles que tem sempre uma resposta para tudo, é dirigida para Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos que se envolveu no famoso “caso Watergate”, episódio paradigmático de corrupção.

Das drogas à desonestidade política, Stevie Wonder esbanja seu incontestável talento em um dos melhores álbuns da década de setenta. Visionário, Wonder se mostra capaz, como poucos, de discutir os mais diversos problemas sociais, sem deixar de lado certas pitadas de romantismo – porque ouvir Wonder é, acima de tudo, apreciar belos momentos de uma música agradável, um verdadeiro presente para nossos ouvidos. Genial, um monstro sagrado da música apenas aos vinte e três anos, Stevie Wonder insistia em cravar seu nome no supra-sumo dos artistas norte-americanos, se tornando cada vez mais uma estrela (a grande repercussão que o acidente automobilístico sofrido por ele, apenas três dias depois do lançamento de “Innervisions”, teve em toda a imprensa mundial, é uma boa evidência do quão importante ele já era).

“Innervisions” é, enfim, a prova final de tudo que ninguém imaginava que alguém um dia provaria: que um artista cego poderia ser um dos músicos mais visionários e um dos melhores observadores sociais de sua época. As visões de Stevie Wonder são, afinal, inteligentes e aguçadas, e acima de tudo, iluminadas com muito, muito talento.

NOTA: 9,8

Track List:

01. Too High [04:36]

02. Visions [05:23]

03. Living for the City [07:22]

04. Golden Lady [04:28]

05. Higher Ground [03:42]

06. Jesus Children of America [04:10]

07. All in Love Is Fair [03:41]

08. Don’t You Worry ‘bout a Thing [04:44]

09. He’s Misstra Know-It-All [05:35]

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