2012: The 2nd Law – Muse

Por: Renan Pereira

Quando, nas vésperas dos últimos Jogos Olímpicos, o Muse lançava a música tema de Londres 2012, ficava claro que “The 2nd Law”, sexto álbum de estúdio da banda, seria diferente de todos os demais. Mais pomposo, mais eletrônico e mais orientado ao pop, já se esperava que o trabalho fosse recebido com olhares desconfiados pelos fãs da banda; até porque, pronta para crescer no cenário comercial, ela se lança na busca de novos seguidores.

É clara a pretensão do Muse em se tornar uma das maiores bandas do mundo. Talento os caras sempre tiveram; Matthew Bellamy é um dos melhores músicos de sua geração, e álbuns como “Origin of the Symmetry” e “Absolution” acabaram por se tornar clássicos do rock alternativo da década passada. Sempre faltou-lhes, realmente, um pouco mais de reconhecimento fora dos domínios britânicos, e aí está algo que “The 2nd Law” tenta consertar. Não que eles não sejam relativamente conhecidos no continente europeu, mas a tentativa de conquistar a América torna-se aparente.

Os flertes do Muse com a música eletrônica, porém, não são mais nenhuma novidade. Desde a primeira metade da década passada, a banda deixava bem claro que rumos sua música tomaria, e nestes já estavam incluídas as tendências constantemente abordadas em “The 2nd Law” (se bem que, agora, elas estão mais visíveis do que nunca). Dubstep, sintetizadores exuberantes, sinfonias pomposas e certos “Queenismos” fazem de “2nd Law” não o melhor, mas talvez o mais bombástico álbum do Muse até então. Mas, enfim, seria  isto bom ou ruim? Infelizmente (ou felizmente) o consenso se mostra distante, e recepções polêmicas fazem do álbum um motivo de acaloradas discussões entre os fãs.

A primeira faixa, “Supremacy”, parece o resultado da mescla de sons do “Absoultion”, melhor álbum do Muse, e do “Innuendo”, último álbum do Queen com Freddie Mercury; se trata de uma grande canção, uma ótima faixa de abertura, dinâmica e pomposa, com uma instrumentação fenomenal, repleta de orquestrações espetaculosas e poderosos riffs. Mesmo criticada por muitos fãs, “Madness” é sim uma música bonita; é óbvio que se trata do máximo encontro do Muse com o dubstep, mas o ouvinte deve sempre estar preparado para mudanças – ainda mais quando se trata da banda em questão, que nunca se mostrou contente em apenas seguir o que está pronto; por mais que não seja um primor, “Madness” é competente, com uma boa letra, e uma aposta óbvia para se tornar single.

Os flertes com o Queen continuam na dançante “Panic Station”, cuja linha de baixo traz semelhanças com “Another One Bites the Dust”; apesar de não ser um dos números mais criativos do álbum, continua a mantê-lo em um elevado nível, sendo musicalmente certeiro e caprichosamente produzido. A quarta é o prelúdio para a faixa seguinte, a mais bombástica de todas as músicas do álbum; se trata justamente de “Survivor”, música-tema das últimas Olimpíadas, com sua letra falando de vitória, sobrevivência, superação, e seu fortíssimo instrumental permeando entre o rock alternativo e o sinfônico, embalado por uma bela melodia e por um coral matador. Já a seguinte, “Follow Me”, se caracteriza por ser um dos momentos mais fracos do álbum, liricamente comercial em demasia, e instrumentalmente preguiçosa, exageradamente eletrônica.

A sétima, “Animals”, é uma das canções mais interessantes de “The 2nd Law”; não por sua letra, pouco atraente, mas pelo seu instrumental calmo e certeiro, temperado por melódicos riffs que, calmos em quase toda a canção, acabam por surpreendentemente se “enraivecer” no desfecho da faixa. “Explorers” é melodicamente fantástica, belíssima, uma melancólica balada construída ao piano, que dá provas de quão sentimentais podem ser as composições de Matthew Bellamy. Citando um grande congelamento, uma tempestade elétrica e até nuvens estelares de gás, “Big Freeze” acaba se mostrando como mais uma bonita balada do disco, apesar de sua parte instrumental ser muito pouco criativa em relação ao que o Muse já andou fazendo em seus trabalhos anteriores.

Tecnicamente, “The 2nd Law” é um trabalho impecável; musicalmente competente, consciente, e com uma produção muito caprichada, é merecedor de aplausos por sua mixagem, que envolve em nós sons capazes de nos hipnotizar. Mas, como nem tudo é apenas técnica, não há como deixar passar certos equívocos. Ora liricamente exemplar, ora instrumentalmente forte, “The 2nd Law” não consegue condensar em um mesmo instante suas maiores qualidades; salvo raros momentos, quando temos uma grande letra, temos um instrumental pouco envolvente, e vice-versa. É claro que pequenos erros não são capazes de tornar “The 2nd Law” um trabalho ruim, mas tiram-lhe um pouco do mérito – se assim não fosse, este texto poderia estar muito bem falando de um dos melhores lançamentos do ano.

“Save Me” e “Liquid State”, respectivamente a décima e a décima-primeira faixa do álbum, são composições do baixista Christopher Wolstenholme. De novidade, temos o próprio assumindo os vocais, e a percepção de que ele sabe cantar bem. A primeira é uma balada triste, com uma instrumentação minimista, que pode até chegar a lembrar, em alguns instantes, certas canções do Radiohead, enquanto a segunda é um tradicional número do Muse, mostrando mais dos trabalhos antigos da banda, porém com menor dinamismo.

As duas últimas, porém, são canções descartáveis. Falando sobre um mesmo tema, a Segunda Lei da Termodinâmica, tentam discutir os rumos do mundo através de trocas de energia entre sistemas e de geração de entropia… Só que, no fim das contas, o resultado não acaba condizendo em nada com o esperado; não passam de pensamentos confusos dispostos em uma sonoridade turbulenta, com intenções duvidosas de querer ser experimentalista e, ironicamente, gastando muita energia para pouco resultado útil. Um desfecho inexplicavelmente confuso e de eficiência baixa para um trabalho que, até a décima-primeira faixa, parecia ter sido meticulosamente calculado para saber de onde sair e para onde chegar, sem deixar dúvidas nos ouvintes.

“The 2nd Law” é, enfim, um trabalho cuja identidade é ditada pelos erros e acertos que envolvem as canções e suas apostas. Dinâmico, é às vezes pulsante, noutras sereno, abordando grandes sinfonias até números minimistas. Não é um trabalho impecável, passando inclusive longe dos melhores álbuns do Muse, talvez até pela necessidade da banda em ter maior reconhecimento fora da Europa. Quando se quer algo a mais, certos equívocos podem ser cometidos, e como diz o velho ditado, “melhor um passarinho na mão do que dois voando”. Os fãs mais antigos do Muse acabaram, em sua maioria, não aprovando o resultado do álbum, e aí está um importante recado que a banda deve considerar.

Mas, no fim, ao se analisar o que “The 2nd Law” nos oferece, o que se vê é um bom álbum, com algumas grandes canções, e que em alguns pequenos momentos realmente chega a desagradar. É um trabalho válido de uma das mais interessantes bandas da atualidade, e apesar de cometer alguns equívocos, continua a fazer o Muse crescer, ganhar notoriedade e se firmar no cenário atual. Definitivamente, eles estão no mainstream.

NOTA: 7,1

Track List: (todas as faixas compostas por Matthew Bellamy, exceto a 10 e a 11)

01. Supremacy [04:55]

02. Madness [04:39]

03. Panic Station [03:03]

04. Prelude [00:57]

05. Survival [04:17]

06. Follow Me [03:51]

07. Animals [04:23]

08. Explorers [05:48]

09. Big Freeze [04:41]

10. Save Me (Christopher Wolstenholme) [05:09]

11. Liquid State (Christopher Wolstenholme) [03:03]

12. The 2nd Law: Unsustainable [03:47]

13. The 2nd Law: Isolated System [04:59]

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