2012: ¡Uno! – Green Day

Por: Renan Pereira

Após duas óperas-punk, os ótimos “American Idiot” e “21th Century Breakdown”, o Green Day decidiu retornar às suas origens. Não espere mais o ouvinte o mesmo cunho crítico dos dois últimos lançamentos da banda, ou aquelas baladas tristonhas ao estilo de “Boulevard of Broken Dreams” ou “21 Guns”, pois “¡Uno!”, tido como o primeiro álbum de uma trilogia, soa como uma viagem ao tempo; pense em tudo o que o Green Day fez na década de noventa, de bom ou de ruim, mescle com as tendências atuais, e você já estará sabendo do que o novo álbum se trata.

“¡Uno!” é de um pop-punk bem tradicional, nada muito diferente do que um dia a banda já fez; ele soa bastante como os trabalhos que ficam, cronologicamente, entre os fenômenos “Dookie” e “American Idiot”, em uma época em que os californianos ficaram relativamente no ostracismo – vale lembrar que, depois de estourar com “Dookie” e seus hits, o Green Day só viria a ter novamente um relevante sucesso com a sua primeira ópera-punk, lançada em 2004. Mas isso não chega a fazer de “¡Uno!” um álbum repetitivo, com uma musicalidade batida, pois hoje experiente, e tida como uma das melhores bandas do mundo, Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tre Cool não só sabem como agradar o público atual, mas também acariciam os fãs das antigas através de suas novas composições.

Mas um fato relevante, que não deixa de passar desapercebido, é que apesar desse retorno a uma sonoridade mais direita, mais despreocupada, nunca o Green Day havia soado tão pop – “¡Uno!”, definitivamente, não é um “Dookie” do século XXI. Se em 1994 os mais puristas já acusavam o Green Day de se vender, de “trair o movimento punk”, com certeza, agora em 2012, o acusarão de estar se entregando ao pop. Talvez não seja para tanto, até porque nunca se deve levar muito em consideração a mente extremamente fechada dos puristas… Mas que há algumas canções com letras comerciais e melodias chicletes, não há como negar.

A primeira faixa, “Nuclear Family”, já é um recado definitivo aos ouvintes; eis aqui o Green Day de antigamente, com o som cru de outrora, tratando com a mesma instrumentação forte as competentes melodias de sempre, sendo, afinal, uma ótima canção de abertura, dando claros indícios de como “¡Uno!” se comportará. De bons riffs é feita “Stay the Night”, mais um pop-punk tradicional, com espírito noventista, porém sem ignorar o ano de seu lançamento: soa como uma espécie de power pop, com um refrão pra lá de medíocre, mas que felizmente, devido ao ótimo dinamismo instrumental da canção, não chega a ser um estrago. Realmente, se não podemos afirmar que o Green Day está em seu momento mais brilhante da carreira, pelo menos podemos ter a certeza que, instrumentalmente, eles estão caprichando como nunca; provas disso estão em “Carpe Diem”, a terceira e uma das melhores faixas do álbum.

“Let Yourself Go” é pesada, rápida e direta, Green Day em seu estado máximo, um perfeito encontro entre a sonoridade do “Dookie” e a bagagem adquirida pela banda através dos anos. Já, a quinta faixa, “Kill the DJ”, é uma das criações mais estranhas do Green Day em toda sua história, mas no bom sentido; se trata de um dance-punk, com um primoroso trabalho de baixo, que constrói uma canção para tocar em rádios e danceterias, e que não deixa, apesar disso, de ser um dos maiores êxitos do disco – é, afinal, o Green Day fazendo com primor algo totalmente diferente de tudo o que já fez, sem medo de experimentar novos sons. Já, “Fell for You”, é uma canção mais fraca, forçadamente pop, artificialmente comercial.

 A sétima, “Loss of Control”, é um novo abraço ao punk de antigamente, só que não muito relevante, se tratando de uma música pouco dinâmica. Aliás, se há alguma relevância em “Troublemaker”, ela só pode ser negativa; é, assim como “Kill the DJ”, uma canção dançante, mas errando tudo o que há de acertos na oitava faixa, sendo assim, de longe, a pior música do álbum. Enquanto isso, “Angel Blue” é uma canção forte, um rock de atitude, mostrando inclusive o quanto o Foo Fighters é uma importante inspiração na atualidade. Só que na canção seguinte, a fraca baladinha “Sweet 16”, o álbum volta a decair.

É assim, de erros e acertos, que “¡Uno!” é construído. Sem dúvida, um lançamento mais fraco em relação aos dois últimos registros da banda, mas que nem por isso deixa de ter méritos. É louvável a atitude do Green Day em procurar dinamizar sua discografia, procurando não cair na mesmice, fugindo das fórmulas que construíram “American Idiot” e “21th Century Breakdown”, e tentando sempre soar jovem. Passam-se os anos, as décadas, mas ainda não podemos ter o Green Day como uma banda velha, significando, assim, o acerto constante do grupo em fazer um som vívido. Assim é “Rusty James”: jovial, atraente, e apesar de ser uma canção mais calma, não deixa de apresentar a força e a atitude tradicionais do som do Green Day.

Só que, para atestar de uma vez a inconstância do álbum, temos a medíocre “Oh Love” como encerramento; é uma música melódica, mas que por ser extremamente simples, acaba se tornando altamente enjoativa. Mas, para nossa felicidade, tal mediocridade não é uma constante do álbum, que mesclando antigos ideais com fórmulas atuais, acaba por ser um registro válido na boa discografia do Green Day. “¡Uno!” pode não ser uma grande obra, um trabalho primoroso, e sequer é um álbum consistente, mas continua a provar que o Green Day não deseja cair no marasmo.

“¡Dos!” e “¡Tré!” serão lançados nos próximos meses, concluindo assim um dos mais ousados projetos da atualidade. Afinal, qual banda hoje em dia lança trilogias? Até por isso, estes álbuns podem vir, assim como o primeiro ato da série, a não mostrar o Green Day em sua fase mais gloriosa, e mesmo assim formarão um trabalho digno de elogios. Mas, se o Green Day decidir surpreender os ouvintes, lançando trabalhos diferentes, de qualidade mais constante, acredita-se que ninguém se entristecerá. É esperar para ver.

NOTA: 6,7

Track List: (todas as letras creditadas a Billie Joe Armstrong, e instrumentais creditados a Armstrong/Dirnt/Cool)

01. Nuclear Family [03:03]

02. Stay the Night [04:36]

03. Carpe Diem [03:25]

04. Let Yourself Go [02:25]

05. Kill the DJ [03:41]

06. Fell for You [03:08]

07. Loss of Control [03:07]

08. Troublemaker [02:45]

09. Angel Blue [02:46]

10. Sweet 16 [03:03]

11. Rusty James [04:09]

12. Oh Love [05:03]

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