1996: Sheryl Crow – Sheryl Crow

Por: Renan Pereira

Quando pensamos nas melhores artistas femininas da música dos anos noventa, é impossível não se recordar do nome de Sheryl Crow. Ela, que por já ter nascido experiente, lançando seu primeiro álbum quando já tinha trinta e um anos, depois de uma longa carreira como backing-vocal de artistas como Don Herley, Eric Clapton e Michael Jackson, já exalava segurança em suas primeiras canções. “Tuesday Night Music Club”, lançado em 1993, foi muito bem-recebido, tendo inclusive ganhado do Rock and Roll Hall of Fame uma honrosa posição 139 em sua lista de “200 álbuns definitivos”. Talvez uma escolha um pouco exagerada, pois seu álbum sucessor, que nem na lista está, é certamente o melhor trabalho já lançado por Crow.

E este é o seu álbum auto-denominado, de 1996. Não que as composições de Sheryl estivessem aqui em um nível superior, pois sua qualidade lírica aborda as mesmas temáticas e com o mesmo espírito de seu primeiro registro; não temos aqui também nenhum hit à altura de “All I Wanna Do”, apesar da musicalidade não ter se alterado. O que temos por aqui é, afinal, um disco mais ousado, mais completo, onde certos upgrades sonoros chegam a ser um contraponto às letras politicamente corretas de Crow; é bem perceptível a utilização de alguns elementos eletrônicos, com uma ligeira aproximação com o rock industrial, mostrando, assim, um produto bem característico de sua época. Sheryl Crow, enfim, adentrou na segunda metade da década de noventa seguindo amplamente as tendências.

Mas, como já dito, não foi por causa das tendências que ela se tornou uma artista diferente. Ela, basicamente, sempre foi uma tradicionalista, mesclando pop, rock, folk e country em um som bem seguro, sem grandes inovações (o que, de jeito algum, pode significar demérito). A grande graça ao ouvir as canções de Crow é perceber uma artista que, dentro de um cenário pop-rock noventista, tratou de utilizar seu talento para construir uma estrutura musical simples, mas bastante agradável. Se alguém espera por coisas novas ou genialidades, talvez Crow não seja, enfim, a melhor pedida. É simplesmente boa música, e não muito além disso.

Entretanto, uma boa quantidade de ruídos estranhos, percussões incomuns e demais elementos novos deu a Crow ares de artista moderna, antenada,  tanto que não é difícil encontrar, dentro do pop-rock atual, elementos que Crow utilizou há mais de quinze anos –  como se percebe na primeira faixa, “Maybe Angels”. “A Change Would Do You Good” é um dos máximos encontros da música tradicional, folk, com a música moderna, com seus efeitos eletrônicos e batidas de hip-hop; mostra com primor que, para se fazer música tradicional, não é preciso criar um amontoado de novas músicas antigas, e que o clássico nem sempre precisa cheirar a mofo. A terceira é a belíssima “Home”, uma balada tocante, guiada por um instrumental tímido, porém certeiro, arquitetado por ótimos riffs country.

Em “Sweet Rosalyn” temos uma sonoridade que, para aquela época, era pra lá de atual: uma combinação de riffs rápidos, porém não muito pesados, com batidinhas e efeitos modernos ao fundo; nada de muito incrível, mas capaz de construir mais uma ótima canção, talvez uma das melhores do disco, contendo um dinamismo interessante. “If It Makes You Happy” foi um grande sucesso na época, e é, certamente, uma das melhores canções já lançadas por Crow; construída sobre uma base sólida, com uma bela cadência rítmica, pode ser considerada como um grande retrato do rock de sua época: após a morte de Kurt Cobain, e dentro de uma onda cujo mandamento era diminuir o peso das guitarras (Bon Jovi que o diga), procurava-se aproveitar elementos da recém-finalizada “era grunge” e misturá-los em um pop-rock cuja ambição era diminuta. É claro que na música, como em quase tudo, um pouco de ambição é sempre bem-vinda, mas é necessário entender que, na época, o mundo estava cansado de rebeldias – em suma, Bill Clinton chegou e mandou todo mundo ficar no sofá. Sem maiores críticas históricas, o que se pode dizer de “Redemption Day” é que se trata, claramente, de mais um bom encontro de tradições e modernismos, mais uma forte canção de um forte registro.

“Hard to Make a Stand” causou polêmica na época, por tratar de aborto; mas é, acima de tudo, mais uma ótima música, semeada por um instrumental perfeitamente produzido. A oitava, “Everyday Is a Winding Road”, é rodeada por percussões tropicais, e se trata de um dos números mais pop apresentados por Crow em seu segundo álbum (tanto que, três anos depois, viria a receber uma regravação de Prince). Com mais alguns sons diferentes, “Love Is a Good Thing” continua a mostrar uma Sheryl Crow perfeitamente alocada em sua época, mesclando rock e country com música pop. Aliás, como alguns artistas acabam marcando alguma época, podemos dizer que Crow está para os anos noventa assim como os anos noventa estão para ela, guardando, é claro, certas proporções necessárias.

A décima faixa é “Oh Marie”, canção de bela melodia, com um instrumental semi-acústico bastante agradável (um dos melhores do disco) e uma letra interessante. A seguinte, “Superstar”, é igualmente boa, mas bem diferente; após um número calmo, ela trata de nos apresentar uma verdadeira obsessão à cultura pop – e aí está a artista completa em seu grande momento. Por mais que as canções de Crow tenham uma personalidade própria, e de bem fácil identificação, se engana quem pensa que as composições são todas iguais; por mesclar o antigo e o novo, ela sempre foi capaz de falar em diferentes tons de diferentes coisas, levando um pouco da tradição para os dias então atuais. Com excelência, a fantástica “The Book” e a apoteótica “Ordinary Morning” seguem a mesma ideia e fecham o álbum, surpreendendo o ouvinte que não esperava muito mais de Crow; elas são, afinal, duas grandes obras-primas desta grande artista, perfazendo um desfecho sensacional para seu melhor álbum.

Como produtos em uma prateleira de uma loja de departamentos, Sheryl Crow e seu álbum auto-intitulado tentam buscar a atenção dos clientes a todo momento, seja por belas ou modernas instrumentações. E o disco “Sheryl Crow” surge como um produto renovado, evoluído, que deixou “Tuesday Night Music Club” com ares de ultrapassado e abraçou sem parcimônia o presente e o futuro. Este é, enfim, um dos melhores trabalhos da década de noventa, um clássico do pop-rock, recheado por belas canções e uma produção impecável, nada menos do que perfeita. Podem até falar que, durante sua carreira, Crow mostrou-se inconstante, musicalmente escorregadia, e isso até pode ser verdade… Mas nada de maiores críticas ao seu segundo álbum, pois é um registro altamente consistente, fortíssimo do início ao fim, um produto de grife que, mesmo com o passar dos anos, continua altamente valorizado.

Por ser um retrato dos anos noventa, não pode mais ser dito que “Sheryl Crow” é um disco atual, mas talvez nem o mais exigente dos clientes está levando isso em consideração. É um caprichado trabalho de uma artista talentosa, repleto de boas canções, e isso já basta para ser uma recompensadora audição.

NOTA: 9,0

Track List:

01. Maybe Angels (Crow/Bottrell) [04:26]

02. A Change Would Do You Good (Crow/MacLeod/Trott) [03:50]

03. Home (Crow) [04:51]

04. Sweet Rosalyn (Crow/Trott) [03:58]

05. If It Makes You Happy (Crow/Trott) [05:23]

06. Redemption Day (Crow) [04:27]

07. Hard to Make a Stand (Bottrell/Bryan/Crow/Wolfe) [03:07]

08. Everyday Is a Winding Road (Crow/MacLeod/Trott) [04:16]

09. Love Is a Good Thing (Crow/Wadhams) [04:43]

10. Oh Marie (Bottrell/Crow/Trott) [03:30]

11. Superstar (Crow/Trott) [04:58]

12. The Book (Crow/Trott) [04:34]

13. Ordinary Morning (Crow) [03:55]

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