2012: Tempest – Bob Dylan

Por: Renan Pereira

“Tempest” é, simplesmente, o trigésimo-quinto álbum de Bob Dylan, lançado cinquenta anos após seu álbum de estreia, em que ele, jovenzinho, com apenas 21 anos, fazia versões de lendários hinos da música folk norte-americana. Naquela época ele era apenas um garoto, engatinhando no cenário musical, e ninguém imaginava que tipo de artista ele poderia vir a ser. Hoje, é uma lenda, considerado um dos maiores gênios da história da música, um artista completo, de soberbo talento. Como cinco décadas se passaram, é normal que muita coisa tenha mudado; mas, felizmente, a genialidade de Bob Dylan só se solidificou, tanto que atualmente se torna possível ouvir o seu mais novo trabalho soando tão interessante quanto os seus lançamentos mais primorosos.

O novo álbum de Dylan é um belo trabalho não somente por ser um álbum de Dylan. Por mais que ele seja um gênio, um artista admirado por todas as pessoas de bom senso do mundo, se ele nos oferecesse um trabalho que se mostrasse como apenas mais um de sua carreira, aproveitadores e demais picaretas já diriam que ele está velho para a música, que o século XXI não é lugar para ele, e assim vai… Muitos artistas já sofreram desse mal, inclusive alguns que um dia já foram considerados incríveis. Mas talvez seja justamente isso que, na música, separa os homens dos deuses: enquanto bons músicos lançam bons trabalhos, mas que agregam à sua discografia apenas números, Bob Dylan trata de tornar cada álbum de seu imenso catálogo um registro único, rodeado por diferentes sentimentos. Sempre um novo álbum de Dylan é realmente “novo”.

“Tempest” segue a mesma linha sonora de seus últimos trabalhos inéditos, mesclando folk, blues e rock com maestria, só que com um tempero especial: é sombrio como nenhum álbum de Bob Dylan outrora foi. É como se ele, aos setenta anos, decidisse utilizar toda sua inteligência e a experiência adquirida para surpreender os ouvintes ao falar das mazelas humanas com uma alta dose trágica. Gênio como ele é, com suas letras incríveis, Dylan consegue fazer suas canções soarem altamente dinâmicas o tempo todo; o ouvinte deve estar atento e preparado, pois não são raras certas mudanças de humor dentro de um mesmo verso.

O vídeo da primeira faixa, “Duquesne Whistle”, é um grande exemplo disso; inicia-se divertido, cômico, e parece ir preparando o espectador para uma agradável comédia, quando, de repente, se torna um chocante e triste número dramático. A própria música assim também é, se inciando suave, com um instrumental agradável e dançante até um certo ponto, para ir se tornando uma proposta pesada, uma grande canção atestada pela dolorida letra de Dylan. Sua voz pode até estar prejudicada, demasiadamente rouca, mas ninguém melhor do que ele mesmo para interpretar suas canções, afinal, os mesmos sentimentos líricos estão em seu vocal.

“Soon After Midnight” é uma balada mais simples, que mostra um Bob Dylan mergulhado no blues; é uma música bonita, sem dúvida, um momento para uma agradável admiração, mas não está entre as canções mais fortes do álbum. Já, “Narrow Way” é um rock caprichado, um dos mais potentes de Dylan nos últimos tempos, em que a alta qualidade instrumental tem um bem-aventurado encontro com a já esperada qualidade lírica. Os calmos e belíssimos riffs de “Long and Wasted Years” são um convite à apreciação, fazendo uma ótima base para mais uma letra triste.

Pode-se dizer que “Pay in Blood” é uma das canções mais surpreendentes dos últimos trabalhos de Dylan; raivosa, obscura, com uma letra espetacular, nos mostra um Dylan que, liricamente vestido para matar, nos faz pensar quanto uma vingança pode valer. É fato a desenvoltura que Bob Dylan tem para tratar dos diferentes sentimentos que atingem a sociedade, mas provavelmente ele nunca esteve tão amargo; em “Tempest”, o amor nunca é simples, nunca é feliz, e sempre está acompanhado de algo antagônico – tanto que a morte está presente em várias canções. O instrumental de “Scarlet Town” é uma fórmula pronta, é verdade, mas como não utilizar elementos antigos em música folk? É, de fato, e apesar dos pesares, uma instrumentação sensacional, uma coisa linda de se ouvir, e se qualquer letra já a faria uma grande canção, quando temos aquele Dylan contador de histórias, com sua postura andarilha praticamente profética, o que se ouve é um verdadeiro hino. “Early Roman Kings” é um blues clássico, bonito e sincero, e se não está entre as melhores do disco, não deixa de ser uma boa audição.

Há quem possa considerar as músicas mais longas de “Tempest” ligeiramente arrastadas, mas para quem é um verdadeiro fã de Bob Dylan, elas são um prato cheio; afinal, se temos um grande letrista, como não se encantar com suas mais longas e complexas histórias? Uma desta é a fantástica “Tin Angel”, que pode ser muito bem considerada a obra-prima do disco; complexa, trágica e triste, é uma canção duradoura, com mais de nove minutos, contando a epopeia de um triângulo amoroso de forma magistral.

Mais duradoura ainda é a nona faixa, que empresta seu título ao álbum, tendo quase catorze minutos de duração, na qual Dylan nos conta a já bastante conhecida história do grande navio Titanic e de sua última viagem. O ouvinte pode até esperar um “mais do mesmo”, afinal já há o filme de James Cameron para tal fim, mas mesmo fatos já debulhados se tornam novas histórias nos versos de um grande poeta; a visão de Dylan nos traz novas imagens, e sua letra parece refletir sobre os caminhos da humanidade enquanto os abastados senhores desabam do luxuoso e gigantesco navio em naufrágio.

Para finalizar “Tempest”, Dylan recorda e canta John Lennon, que mais do que um gênio do rock, lhe era um amigo próximo. É, enfim, um final bonito, sincero e emocionante, tudo o que poderia se esperar de um álbum altamente emotivo. “Tempest” pode até desagradar a alguns, com suas canções longas e com seu vocal tecnicamente ruim, mas Bob Dylan está mais do que certo ao mandar para ao inferno quem está criticando negativamente seu trabalho… Ora bolas, é um trabalho de um grande artista, um gênio da nossa música, e a quem, muitas vezes, se deixa de venerar. Por mais que ele esteja velho, que sua voz esteja ruim, ele ainda é capaz de construir canções primorosas, do mais alto nível, demonstrando que ainda permanece no supra-sumo dos compositores. Ele foi, é, e provavelmente sempre será, um dos pilares da música mundial, um nome a ser seguido.

Ouvir Bob Dylan e sua voz rouca a nos contar deliciosas histórias, é como estar, em uma noite chuvosa, e em uma velha casa, à luz de velas, a ouvir antigas histórias do nosso avô. Naquele lugar, e naquela hora, não há sinal de internet, de celular, e os móveis cheiram a mofo, envelhecidos pelo tempo cruel… A voz do ancião também não é mais tão límpida, e suas memórias podem até falhar às vezes, e mesmo assim, nossos ouvidos se atentam e nossos olhos sequer piscam.

NOTA: 8,6

Track List: (todas as faixas compostas apenas por Bob Dylan, exceto a 1)

01. Duquesne Whistle (Bob Dylan/Robert Hunter) [05:43]

02. Soon After Midnight [03:27]

03. Narrow Way [07:28]

04. Long and Wasted Years [03:46]

05. Pay in Blood [05:09]

06. Scarlet Town [07:17]

07. Early Roman Kings [05:16]

08. Tin Angel [09:05]

09. Tempest [13:54]

11. Roll on John [07:25]

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