1966: Face to Face – The Kinks

Por: Renan Pereira

Uma das grandes bandas dos anos sessenta, hoje em dia o The Kinks é um grupo subestimado, esquecido por muitos críticos modernos. Mas basta uma ligeira olhada no que se fez naquela década para ver quão importante a banda foi para a evolução sofrida pela música popular. Não esteve entre as mais famosas, pois seu apelo popular passou longe ao de outras bandas da época, como Beatles, Stones e The Who; não esteve também entre as mais revolucionárias, pois não contava com as mentes psicodélicas de um Syd Barrett ou de um Jimi Hendrix. Esteve entre as mais importantes porque foi uma das bandas musicalmente mais lúcidas e liricamente mais inteligentes. A coesão de seus trabalhos e o exímio talento composicional de Ray Davies estão entre o que de mais interessante já se produziu no rock.

Por mais que tenha sido lançado no ano que marcou a ascensão do psicodelismo, e que tenha uma capa com temas psicodélicos, não se trata de um álbum de rock psicodélico. O som de “Face to Face” pende muito mais para uma evolução do pop-rock da Invasão Britânica, da qual, aliás, o The Kinks também fez parte, principalmente com o hit “You Really Got Me”, clássico do rock que viria a ser regravado pelo Van Halen; uma canção com uma sonoridade pesada e crua que o The Kinks, em 1966, já havia abandonado.

Tal mudança na sonoridade do The Kinks acabou impulsionando o som da banda para um nível mais alto de qualidade, principalmente por facilitar a evidenciação do exímio talento de Ray Davies (vocalista e compositor principal da banda) em criar ótimas letras, repletas de uma inteligente e crítica ironia que vieram a se tornar sua marca registrada. Seu irmão, o guitarrista Dave Davies, já era reconhecidamente um grande guitarrista, dono de uma incrível facilidade para criar ótimos riffs; a mudança para um som menos pesado, mais voltado ao pop-rock, felizmente acabou por não interferir neste talento.

Muitos hoje em dia consideram o “Face to Face” como um dos primeiros álbuns conceituais do rock, pois ele, em sua totalidade, aborda um tema comum: a observação social. Com seu olhar crítico, Ray Davies mergulha na cultura britânica da época, brincando com as futilidades e desencontros da sociedade sessentista, criando então um espaço para uma audição inteligente. Como resultado, temos um álbum de grande coesão, em que as canções, apesar de mostrarem um rock altamente dinâmico, estão todas amarradas entre si.

A primeira faixa do álbum é “Party Line”, falando sobre telefone e uma linha ocupada, sendo, ironicamente, a canção mais fraquinha do álbum; não que seja uma música ruim, muito longe disso, mas não tem a mesma força das demais. “Rosie Won’t You Please Come Home” tem um instrumental seguro, muito competente, em que ouvimos, além dos ótimos riffs de Dave Davies, o som de um cravo, instrumento bem usual nos trabalhos do The Kinks; o tema da canção também é bem interessante, falando sobre uma moça que resolveu abandonar a família a fim de enriquecer. A terceira é a fantástica “Dandy”, simplesmente uma das melhores canções já gravadas pela banda.

Por trás da melódica “Too Much on My Mind” há uma pessoa atormentada, atordoada pelos pensamentos e à beira da demência; é uma boa mostra de como o The Kinks tinha a total capacidade de brincar com certas combinações, alocando, neste caso, uma letra pesada em um instrumental tranquilo. Realmente, a construção das canções do “Face to Face” é exímia, uma aula de como se compor; a combinação lírica e instrumental de “Session Man” é fantástica, uma união perfeita para uma canção que fala de um músico extremamente técnico, só que “não é pago para pensar, apenas para tocar”.

À princípio, a ideia de Ray Davies era a inclusão de efeitos sonoros sintéticos em todas as canções do álbum; porém a gravadora se mostrou contrária a tal ideia, e poucas canções tiveram tais enfeites. Uma delas é “Rainy Day in June”, uma das mais complexas e brilhantes composições da banda; nela, através de um dinâmico e impecável instrumental, se olha para a chuva e se mergulha no interior dos sentimentos das pessoas e do mundo, atrelando a escuridão trazida pelas nuvens a um sentimento melancólico. De uma canção intitulada “A House in the Country”, só se pode esperar uma música melódica e bucólica; mas é aí que somos surpreendidos novamente, pois se trata de um dos números mais pesados do álbum. Aliás, pregar peças no ouvinte sempre foi uma especialidade de Ray Davies, um dos mais inteligentes compositores da história do rock.

Continuando com o seu olhar social, “Face to Face” fala, em “Holiday in Waikiki”, sobre um garoto inglês que ganhou num concurso uma viagem para o Hawaii, e em “Most Exclusive Residence for Sale”, quem diria, sobre problemas imobiliários – principais causadores da última crise financeira dos EUA, e uma mazela que já era enfrentada, nos anos sessenta, por britânicos da classe média incapazes de manter seu status social. E não é que sobrou até para os adolescentes? Em “Fancy”, através de uma pequena letra, com apenas duas estrofes, e de um instrumental fantástico, que contém uma magnífica execução de cítara, mostra-se que muitos dos pensamentos dos jovens ingleses da época (que hoje já devem ser avós) não passavam de fantasia.

A qualidade tanto instrumental quanto lírica de “Little Miss Queen of Darkness” é um convite à apreciação; a canção, construída acusticamente, não é apenas um espetáculo de acordes, mas também uma inteligente análise de uma garota dançando à noite em uma discoteca. “You’re Lookin’ Fine” é uma das poucas canções não-impecáveis do álbum; contém um ótimo instrumental, mas uma letra não tão ótima assim, demasiadamente repetitiva. Mas isso não chega a ser um pecado, pois acaba abrindo alas para a incrível “Sunny Afternoon”, mais um espetáculo lírico e instrumental, que assim como “Taxman”, dos Beatles, critica os altos níveis de tributação da Grã-Bretanha sessentista; uma grande referência da alta carga irônica utilizada pelo The Kinks é ver a banda, no vídeo promocional desta canção, tocando em um ambiente frio, totalmente nevado.

Para finalizar, temos uma grande contemplação do ótimo trabalho de Dave Davies, com riffs fantásticos, encerrando o “Face to Face” de um modo certeiro. Por falar em certeiro, talvez este seja o grande adjetivo para o álbum, que em toda sua duração aposta firmemente em letras inteligentes, críticas, amparadas por instrumentais de uma solidez invejável. “Face to Face” pode não ser um dos trabalhos mais geniais do rock sessentista, mas mesmo sem grandes revoluções sonoras se encontra entre os mais brilhantes trabalhos da década – por ser, afinal, absurdamente consistente.

É um prazer poder contemplar as letras de Ray Davies, repletas de uma deliciosa ironia, capaz de pegar qualquer ouvinte de calças curtas. Ao ouvir The Kinks, nunca tente imaginar o que virá pela frente, até porque há uma grande insistência em surpreender… Por mais que você conheça a banda e esteja preparado, você pensa em água, e a banda te dá vinho. Um vinho agradável, doce, mas com o qual se deve tomar um pequeno cuidado; provavelmente, contém um suave veneno.

NOTA: 9,4

Track List: (todas as faixas creditadas a Ray Davies)

01. Party Line [02:35]

02. Rosie Won’t You Please Come Home [02:34]

03. Dandy [02:12]

04. Too Much on My Mind [02:28]

05. Session Man [02:14]

06. Rainy Day in June [03:10]

07. A House in the Country [03:03]

08. Holiday in Waikiki [02:52]

09. Most Exclusive Residence for Sale [02:48]

10. Fancy [02:30]

11. Little Miss Queen of Darkness [03:16]

12. You’re Lookin’ Fine [02:46]

13. Sunny Afternoon [03:36]

14. I’ll Remember [02:27]

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