2012: Estrela Decadente – Thiago Pethit

Por: Renan Pereira

Conhecido como um dos bons nomes da nova geração da MPB, o paulistano Thiago Pethit foi responsável por criar, através de seu ótimo álbum de estreia, “Belim, Texas”, de 2010, um dos trabalhos mais sensíveis dos últimos anos em nossa música. Introspectivo, incomum, com uma veia alternativa proeminente, onde suas texturas extrapolam as aceitações atuais e viajam em temas não-comerciais, perambulando entre a Europa da primeira metade do século passado e os contemporâneos sentimentos de um jovem fechado em seu quarto, o álbum nos apresentou um músico que, desprovido de grande técnica, utilizou de maneira exemplar suas maiores forças, ou seja, as letras e os sentimentos, para fabricar canções adoráveis.

Agora, embarcado na aventura que é agradar em um segundo álbum, Pethit nos apresenta “Estrela Decadente”. Eis um trabalho que surpreende, principalmente por modificar muito do que se conhecia da música do artista; outrora simplória, muitas vezes minimalista e detentora de um espírito folk, a sonoridade de Thiago Pethit agora tenta se aproximar do pop. Ainda há algumas fugas do óbvio, é verdade, pois o sentimento nostálgico, apesar de mudado, ainda se encontra presente, com novos passeios pela Fraça e pela América do passado… Mas entre guitarras pesadas e batidas modernas não há como não estranhar ao perceber como a música de Pethit bruscamente se modificou.

É louvável a atitude do músico em se renovar, partir para outros desafios. Afinal, seguir cegamente as mesmas tendências de “Berlim, Texas” seria praticamente uma auto-afirmação de incapacidade, e o que mais Pethit precisa neste momento é mostrar uma evolução. Mas nem sempre fazer diferente é uma aproximação do crescimento artístico.

O novo álbum não é ruim, mas é inseguro, inconsistente, passando longe da coesão sonora encontrada em “Berlim, Texas”. A primeira faixa, “Pas de Deux”, é uma canção interessante, com uma letra legal, mas com um instrumental que, apesar de válido, se mostra relativamente estranho; mantém as mesmas tendências teatrais de algumas canções do álbum anterior, mas flerta, em alguns momentos, com um som mais dançante, pra lá de comercial. Talvez seja na aventureira “Moon” em que as drásticas mudanças se tornam ainda mais perceptíveis; densa e super-produzida, em nada lembra as antigas canções gravadas por Pethit, se aproximando de forma intensificada ao pop, mas nem por isso deixando de ser uma das apostas mais competentes e ousadas do álbum. “Dandy Darling” é, porém, uma composição preguiçosa, que parece querer apagar a imagem de artista sofisticado que Pethit plantou nos últimos anos; com letra e melodia banais, é uma boa canção para uma propaganda de televisão, e nada mais do que isso.

A quarta faixa, “Perto do Fim”, é uma belíssima balada, contando com a participação de Mallu Magalhães; se trata de um momento melodicamente muito competente e de uma agradável simplicidade, sendo, assim, um dos poucos pontos calmos e singelos do álbum. Seguindo, temos “So Long, New Love”, com um bom instrumental mas com uma letra pouco criativa, e a sexta faixa, que dá título ao álbum, percorrendo um caminho obscuro onde as guitarras são uma viagem à década de setenta. Além disso, percebe-se um Thiago Pethit personalizado, caracterizado como um músico do glam, e visivelmente procurando se afastar dos demais músicos que com ele formam a chamada “boa e nova safra da música popular brasileira”; algo que pode ser muito perigoso, pois seu nome sempre esteve meio atrelado a artistas como Tiê e a banda Vanguart, que além de colaboradores, lhe são amigos pessoais.

Com harmonias vocais que podem muito bem ter sido inspiradas nos Beach Boys, “Haunted Love” não é uma das canções mais atraentes do catálogo de Thiago Pethit, mas mesmo assim é um dos momentos mais coesos do “Estrela Decadente”. Em “Devil in Me” temos o retorno de um espírito mais ligado ao folk, e se trata, claramente, de uma ótima canção, só que muito mal produzida. Aliás, não é só na oitava faixa em que a produção de Alexandre Kassin se mostra falha, tornando a sonoridade de Pethit, outrora tão concreta, agora tão escorregadia quanto vaselina. Não que ele seja um produtor medíocre, muito pelo contrário; mas suas ideias vanguardistas pouco combinaram com Thiago Pethit, um artista que tem na delicadeza uma de suas principais qualidades. Além disso, os elementos lo-fi, que tanto agradavam, em “Estrela Decadente” são inexistentes, e, no fim das contas, a voz de Pethit parece não ter se sentido muito à vontade com tamanha produção.

A faixa de encerramento é “Surabaya Johnny”, uma canção inteligente, divertida, com uma boa letra, mas cujo instrumental, apesar de ter boas intenções, novamente volta a pecar; repleta de um espírito teatral, e até mesmo circense, é a imagem de um artista que abandonou a singeleza de seu competente primeiro trabalho para tentar se tornar uma estrela, através de caminhos tortuosos que soam como verdadeiras luxúrias sonoras. Ele não deixou de ser um ótimo músico, um nome importante da nova geração, mas talvez precise reencontrar os sentimentos que deixou para trás.

“Estrela Decadente” era esperado como um dos melhores álbuns do ano, mas infelizmente não foi capaz de cumprir com as expectativas. Thiago Pethit até cresceu, mas sua evolução mostra-se forçada, artificial, deixando muito distantes os elementos brandos e singelos que fizeram de seu primeiro álbum um grande trabalho. Mas a audição de “Estrela Decadente” é válida, pois temos algumas composições interessantes de um artista que, apesar de mais comercial, ainda tem nas aventuras sonoras e cronológicas um grande ponto a seu favor.

NOTA: 6,2

Track List:

01. Pas de Deux [03:47]

02. Moon [03:38]

03. Dandy Darling [03:46]

04. Perto do Fim [03:25]

05. So Long, New Love [03:53]

06. Estrela Decadente [02:21]

07. Haunted Love [02:29]

08. Devil in Me [03:45]

09. Surabaya Johnny [04:44]

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