1976: Arrival – ABBA

Por: Renan Pereira

Por mais que o grupo sueco ABBA, maior fenômeno pop dos anos 70, seja mais reconhecido por seus hits poderosos, que se impregnaram na cultura popular, não há como negar que bons álbuns foram lançados. Nenhum tão espetacular, é verdade, mas quase todos mantendo uma boa consistência, com um som característico de melodias potentes e cativantes, em que os efeitos de teclado de Benny Andersson e os belos vocais femininos de Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad são um chamativo em especial.

Em 1976, quando lançou “Arrival”, o ABBA era um sucesso visivelmente emergente. No ano anterior, canções como “I Do, I Do, I Do, I Do, I Do”, “SOS” e, principalmente, “Mamma Mia”, já haviam tocado imensamente em rádios por todo o mundo. Mas foi com o mega hit “Fernando”, lançado em março de 1976, que o grupo começou a se tornar uma lenda; a música, lançada como single, vendeu sozinha mais de seis milhões de cópias.

E “Arrival” veio para, de uma vez por todas, tornar o ABBA um grupo de sucesso indiscutível. Considerado por muitos como o melhor álbum de estúdio dos suecos, ele é formado por aquela sonoridade já conhecida da banda, misturando disco, dance e pop rock, só que com o diferencial de ser consciente do início ao fim – é como se a qualidade de “Mamma Mia” fosse estendida para um álbum inteiro, e a banda se mostrasse competente e segura como nunca. Tanto que, apesar de conter uma das músicas mais famosas do seu catálogo, “Arrival” não se tornou tímido, sem ficar escondido atrás de seu maior single, a luxuosa “Dancing Queen”.

Talvez nunca as composições da dupla Andersson-Ulvaeus estiveram tão diversificadas e surpreendentemente dinâmicas quanto neste disco. Tanto que a primeira faixa, a divertida “When I Kissed the Teacher”, permeada pelos riffs acústicos de Björn Ulvaeus, cujo instrumental não foge muito da simples combinação de guitarra, baixo, bateria e teclados, é que abre alas para “Danicing Queen”, praticamente a magnificência em forma de música.

Talvez o sucesso da segunda faixa, único single do ABBA que alcançou o topo da parada da Billboard, tenha até superado as expectativas – mas não dá pra dizer que não foi merecido. Dentre os grandes hits do grupo, “Dancing Queen” é o que teve a construção mais complexa, tanto que, no ano que antecedeu o lançamento de “Arrival”, não passava de uma aposta sonora em busca de palavras para formar uma letra; após várias versões, inúmeros takes, a música como hoje conhecemos veio à tona, brilhantemente construída, repleta de sensualidade e de uma tímida luxúria, cuja sensacional melodia é perfeitamente trabalhada pelo instrumental. Apesar de ser uma canção pop, e o gênero ser, na maioria das vezes, sinônimo de simplicidade, “Dancing Queen” pareceu fugir do rótulo, muito também em razão do fantástico casamento entre as belas harmonias vocais e os luxuosos efeitos sintéticos.

A romântica “My Love, My Life” é uma linda balada, de onde podem ser ouvidos, através de mais um grande trabalho de sintetizador, alguns elementos eruditos; se trata de uma canção simples, pop rock, com uma sonoridade mais para segura do que aventureira. Se há alguns momentos em que o álbum decai de sua alta qualidade, estes estão presentes nos dois minutos e cinquenta segundos de “Dum Dum Diddle”, que não é uma música das melhores, mas, mesmo assim, não deixa de ser uma válida e divertida audição. Já a quinta das dez faixas do “Arrival” é uma das mais belas composições do disco; se trata de “Knowing Me, Knowing You”, um número melodramático, um single que escapa um pouco do que o grupo fazia naquela época, fugindo dos momentos alegres e adocicados para se aventurar em tristezas e amarguras.

Os grandes destaques da obscura “Money, Money, Money” ficam para os próprios compositores da faixa; o trabalho de teclado de Benny Andersson é altamente criativo, e os riffs da guitarra de Björn Ulvaeus alocam a canção em um cenário hipnotizante. A dançante e altamente melódica “That’s Me” é mais um luxuoso e bonito momento do álbum, enquanto “Why Did It Have to Be Me?” é o mais roqueiro, devido ao maior destaque dado à guitarra de Ulvaeus.

A penúltima faixa, “Tiger”, é uma perfeita mostra que não só de seus singles vivia a pungente sonoridade do ABBA; a canção é uma das mais complexas e mais trabalhadas do grupo, com uma estrutura bastante dinâmica, repleta de quebras e variações de ritmo, em que a força dos riffs de guitarra está especialmente elevada. Para fechar, temos a faixa-título, um magnífico número para o encerramento; considerada uma obra-prima de Benny Andersson, é uma canção construída praticamente toda em sintetizadores (perfeitamente executados, por sinal), fazendo menção a um som mais folclórico, de raiz.

Apesar de ter apenas dez faixas, “Arrival” acaba se caracterizando como um álbum grandioso, um lançamento imponente de um ABBA que estava se tornando um fenômeno musical. Há gente que torce o olho para grandes sucessos, autores de grandes hits, mas mesmo a estas pessoas o grupo sueco deve ser uma unanimidade; afinal, dentro da música pop, foi um dos poucos projetos que conseguiu aliar, em um mesmo instante, o sucesso de público e a qualidade musical. E bem assim é o “Arrival”, capaz de vender horrores e de agradar os mais críticos ouvidos.

O ABBA se tornou um dos maiores e mais bem-sucedidos grupos da história não somente pelo sucesso de suas canções; se tornou um fenômeno porque era um grupo autêntico e adorável, em que a consciência musical e a ânsia de gravar boas canções estavam aliadas ao desejo de se ter sucesso. O ABBA foi a febre que foi porque, além de ser um grande grupo, cativava as pessoas… E essa cativação elevava seu som a uma das mais agradáveis e mágicas audições de sua época.

NOTA: 8,7

Track List:

01. When I Kissed the Teacher (Andersson/Ulvaeus) [03:00]

02. Dancing Queen (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [03:50]

03. My Love, My Life (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [03:52]

04. Dum Dum Diddle (Andersson/Ulvaeus) [02:50]

05. Knowing Me, Knowing You (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [04:02]

06. Money, Money, Money (Andersson/Ulvaeus) [03:05]

07. That’s Me (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [03:15]

08. Why Did It Have to Be Me? (Andersson/Ulvaeus) [03:20]

09. Tiger (Andersson/Ulvaeus) [02:55]

10. Arrival (Andersson/Ulvaeus) [03:00]

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