2001: Bloco do Eu Sozinho – Los Hermanos

Por: Renan Pereira

Qual é o valor de um ideal? Quanto vale apostar no que você acredita? Geralmente, os sonhos e as ambições são uma constante na vida do ser humano, e é normal que, todo nós, gastemos uma boa parte da nossa vida (senão ela em quase sua totalidade) perseguindo a realização dos nossos desejos. Muitas vezes demora, quase sempre é difícil, mas independente do que possa acontecer, estamos sempre procurando alcançar o que queremos.

Pode ser muito alegórico mencionar aspectos tão filosóficos da vida quando se fala de um álbum de música, mas no caso da banda Los Hermanos e de seu “Bloco do Eu Sozinho”, é o que há para procurar entender o que os caras verdadeiramente queriam no disco. Pouca gente, nos meses que antecederam o lançamento do álbum, realmente entendeu a atitude do Los Hermanos, de se isolar em um sítio ao invés de colher os frutos que cresceram através do imenso sucesso que a banda havia feito nos dois anos anteriores.

O público e a crítica achavam estranho o Los Hermanos desdenhando de “Anna Julia”, afinal, havia se tornado um single de poder absurdo, e praticamente elevou sozinho o nome da banda, na época estreante, ao mainstream. Mas, para os mais atenciosos, já era possível ver uma banda incomodada, que não estava lá muito à vontade com o êxito comercial alcançado pela canção. Até porque o Los Hermanos de “Anna Julia” não era o Los Hermanos de verdade, que gravou seu álbum de estreia procurando fugir da convencionalidade sonora – e de convencional, “Anna Julia” havia muito. Não que seja uma música ruim, muito pelo contrário; se foi elogiada e até regravada por George Harrison, não há o que se discutir sobre sua qualidade… Mas era uma faixa comercial gravada e lançada por insistência apenas da gravadora, e por isso não muito querida pelos membros da banda.

Por isso, procurando fugir da tensão causada pela exigência de novos hits por parte da gravadora, os caras arrumaram suas malinhas e foram se refugiar em uma chácara na região serrana do Rio. Lá eles poderiam ser o Los Hermanos de verdade. Em suma, deixaram fama e dinheiro de lado para investir em um ideal maior – pois, para a banda, seu ideal sonoro valia muito mais do que as verdinhas que mais um massivo sucesso poderia lhe dar.

Lá começaram a compor de maneira despretensiosa, e após algum tempo, “Bloco do Eu Sozinho” já estava pronto. Porém, quando entregue à gravadora pela primeira vez, acabou sendo rejeitado: a sonoridade não era nada comercial, não haviam hits em potencial, e sua produção havia sido considerada amadora. Com isso, foi entregue ao produtor Marcelo Sussekind para ser remasterizado – mas ele, agradado pela versão original do disco, viria a alterar quase nada. No fim, o álbum foi lançado, mas boicotado pela gravadora, que pouco trabalhou para sua promoção.

Em suma, o desejo da Abril Music em transformar o Los Hermanos em uma rentável banda de pop rock havia sido derrotado pelo ideal da banda, e eis aí o primeiro grande êxito do “Bloco do Eu Sozinho”. Porém, muito mais do que mostrar novamente uma musicalidade pouco óbvia, o álbum mostrou uma banda que evoluiu imensamente; da sonoridade tensa e às vezes confusa do primeiro disco pouco havia sobrado, se ouvindo agora uma banda muito mais madura, muito mais criativa e muito mais consciente do que fazer. A primeira faixa, a ótima “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, já é uma grande prova disso; com uma excelente letra, a canção, com um espírito melancólico e bem alternativo, mergulha em um primoroso instrumental, mesclando sons de carnaval, indie rock e o grunge dos anos noventa (mistura essa que se pode ser ouvida em muitos momentos do disco).

“A Flor”, segunda faixa, acolhe uma densidade sonora inteligente que, aliada a uma fantástica letra, constrói mais uma grande faixa deste clássico álbum; aliás, falando em letra, temos em “Bloco do Eu Sozinho” uma maior participação de Rodrigo Amarante, que praticamente divide em meio-a-meio a composição do disco com Marcelo Camelo. “Retrato Pra Iaiá” mistura tropicalismo e indie rock, e contém um clima veranil, ensolarado, que serve de base para mais uma grande letra – qualidade composicional esta que é mantida no mais alto nível durante quase todos os versos do álbum. Com uma sonoridade incomum e muito criativa, “Assim Será” é repleta de flertes entre Radiohead e MPB.

O jogo de palavras contido na incrível letra da quinta faixa é um grande ponto positivo, mas é a sujeira das guitarras da pesada “Casa Pré-Fabricada” que chega a ser surpreendente para uma banda brasileira daquela época. Inovando, o Los Hermanos não apenas levou o rock nacional a um novo caminho, mas veio a influenciar uma geração inteira de músicos e bandas, que viriam a seguir, do início deste século aos tempos atuais, e quase cegamente, os passos de Camelo e Amarante. Em um álbum em que a obviedade é deixada de lado, “Cadê Teu Suín-?” é, sem dúvida, um dos momentos mais instigantes; com instrumental e letra bem incomuns, a música continua a atestar quão criativa a banda poderia ser, sendo mais um surpreendente momento para uma inteligente apreciação. A sétima é o single “Sentimental”, uma música de beleza indiscutível, uma grande obra de Amarante, embebida em dinamismos instrumentais bem característicos do rock alternativo da década de noventa.

A oitava é “Cher Antoine”, música com letra metade em francês e metade em português; dinâmica como ela só, inicia-se apostando em elementos musicais de cabaré, com guitarras tímidas, para depois terminar soando praticamente como um funk dos anos setenta. “Deixa Estar” é mais um belo espetáculo sonoro, construído por ótimos riffs, um ritmo cativante, e uma riqueza de elementos que é uma beleza, além de, é claro, mais uma letra competente. Assim também é a décima, “Mais Uma Canção”, que mergulha no som das bandinhas que tocavam nas praças há muito tempo atrás, alegrando as tardes de domingo enquanto as crianças brincavam no carrossel; com um instrumental riquíssimo, se caracteriza por ser uma canção singela, em que podemos ouvir até mesmo instrumentos de sopro, em um cenário onde tudo é alocado em uma bela melodia.

“Fingi na Hora Rir” faz mais uma visita ao rock alternativo dos anos noventa, e sem deixar de lado o dinamismo característico das faixas do “Bloco do Eu Sozinho”, um álbum de uma riqueza sonora inegável. Somos emergidos em riffs misteriosos na melancólica e doída “Veja Bem Meu Bem”, que canta como é a vida na companhia da solidão e da saudade, enquanto “Tão Sozinho”, apesar de também falar sobre dores da alma, é pesada e suja como ela só – um momento comparável às canções mais raivosas de Kurt Cobain.

“Adeus Você” é um título perfeito para uma última faixa, e esta, que faz “Bloco do Eu Sozinho” se encerrar com a mesma altíssima qualidade com que se iniciou, é uma prova final do brilhantismo alcançado pelo Los Hermanos em seu segundo álbum; viajando entre elementos do indie, tropicalismo e arranjo de cordas, é uma luxuosa e intrigante apoteose.

Pode não ser o melhor e mais importante de todos os tempos, mas “Bloco do Eu Sozinho” é, até agora, o melhor e mais importante álbum de música brasileira deste século. Um trabalho brilhante, denso e complexo, abordando diferentes nuances e inspirações, que foge do óbvio em quase toda sua totalidade, apresentando-nos canções liricamente poderosas e instrumentalmente surpreendentes, “Bloco do Eu Sozinho” mostrou quão gigantescamente recompensadora pode ser a manutenção dos ideais e a luta pelo que se acredita. Ótimo para os ouvintes, que mesmo uma década após o lançamento do álbum, podem apreciar este grande registro de um Los Hermanos puro, sincero e vívido.

NOTA: 9,4

Track List:

01. Todo Carnaval Tem Seu Fim (Camelo) [04:23]

02. A Flor (Camelo/Amarante) [03:27]

03. Retrato Pra Iaiá (Camelo/Amarante) [03:57]

04. Assim Será (Camelo) [03:36]

05. Casa Pré-Fabricada (Camelo) [02:55]

06. Cadê Teu Suín-? (Camelo) [02:35]

07. Sentimental (Amarante) [05:09]

08. Cher Antoine (Amarante) [02:29]

09. Deixa Estar (Camelo) [03:30]

10. Mais Uma Canção (Camelo/Amarante) [04:11]

11. Fingi na Hora Rir (Camelo) [04:10]

12. Veja Bem Meu Bem (Camelo) [04:40]

13. Tão Sozinho (Camelo) [01:19]

14. Adeus Você (Camelo) [02:58]

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