2012: Hot Cakes – The Darkness

Por: Renan Pereira

Após marcar época com seu álbum de estreia, “Permission to Land”, de 2003, finalmente temos de volta o The Darkness com sua formação original; o baixista Frankie Pollain reocupa seu espaço na banda, que anteriormente era de Richie Edwards. Sem Pollain, “One Way Ticket to Hell… and Back” havia sido lançado, em 2005, e sem agradar tanto quanto o primeiro álbum da banda – afinal, apesar de não ser um disco ruim, mostrou um The Darkness relativamente confuso depois do sucesso. Agora, em uma nova década, temos um recomeço, uma tentativa de reencontro com a antiga sonoridade.

“Hot Cakes”, um álbum com um pegada mais simples que seu antecessor, foi gravado quase totalmente na casa do guitarrista Dan Hawkins, procurando retomar o caminho sonoro iniciado pela banda em “Permission to Land”. Este, considerado como o único êxito do glam rock na primeira década do século XXI, mostrou que, mesmo depois do grunge e do indie, o velho rock oitentista ainda poderia ter seu espaço no cenário musical, desvendando-se muito mais jovem e revigorado do que se poderia imaginar. Porém, querer retomar o passado é uma tática perigosa; muitos artistas já se queimaram nesta estratégia, quando tomaram um novo caminho, não agradaram, e tentaram desesperadamente (e com o rabinho entre as pernas), voltar a utilizar as antigas ideias.

Felizmente, “Hot Cakes” não chega a queimar o nome do The Darkness – mas, infelizmente, mostra-se apenas uma sombra do que “Permission to Land” foi. Afinal, não temos mais aquele som natural, despreocupado e jovial que marcou os primeiros anos da banda, e quando o assunto é forçar a barra, supera até mesmo o exagerado “One Way Ticket to Hell… and Back”. Artificialmente, o “Hot Cakes” tenta jogar na cara do ouvinte tudo que já foi ouvido do The Darkness, a adicionar apenas algumas abordagens mais comerciais.

Em contrapartida, temos instrumentais legais. Os riffs continuam divertidos e agradáveis como sempre foram, fazendo uma viagem excitante pelo rock “farofeiro” dos anos oitenta. O vocal característico de Justin Hawkins também está lá para quem quiser ouvir, sendo exatamente o mesmo dos outros trabalhos. Isso pode ser percebido logo na primeira faixa, a boa e atraente “Every Inch of You”, que seria totalmente positiva a não ser pelo desagradável e forçado “suck my cock” gritado pelo vocalista.

Pode até ser um equívoco julgar o The Darkness pelos exageros, afinal, se trata de uma banda de glam rock. Mas quando o exagero está na falta de coragem de se fazer uma aventurazinha qualquer, repetindo sempre as mesmas fórmulas prontas, é possível dizer que o The Darkness estacionou. O single “Nothin’s Gonna Stop Us”, comercial como ele só, é de uma obviedade total, com um refrão pobre e repetitivo, que teima em irritar os ouvidos durante quase toda a canção; é, de longe, a pior faixa do álbum. Já “With a Woman” tem um instrumental bem interessante, que está entre Motörhead e Van Halen (e aí está o grande positivo da canção, pois os riffs são realmente matadores); mas há de se dizer que, infelizmente, o vocal não se encaixa muito bem na música: é como se aquela figura máscula do Lemmy desse lugar ao Adam Lambert.

Quando “Hot Cakes” apresenta algo de diferente, alguma novidade no som do The Darkness, é uma amarga aproximação ao pop atual. Assim é “Keep Me Hangin’ On”, um rock pra lá de comercial, que apenas coloca guitarras na banalidade que permeia a música dos pop stars contemporâneos. “Living Each Day Blind” é mais calminha, semi-acústica, mas também não escapa da irregularidade; enquanto, em alguns momentos, as guitarras parecem querer transformá-la em uma boa power-ballad, noutros apenas seguem o caminho óbvio das baladinhas românticas comerciais. Felizmente há “Everybody Have a Good Time”, com sua inundação de ótimos riffs ao melhor estilo AC/DC; a música pode até não ser o The Darkness em um de seus momentos mais sinceros, mas é inegável que se trata de um  bom hard rock, puro e agradável.

A sétima, “She Just a Girl, Eddie”, fala abertamente sobre uma ex-namorada do baterista Ed Graham, e se trata de um momento que o próprio integrante considerou embaraçoso; sendo uma brincadeira, uma divertida zoação entre os músicos, recupera um pouco a alegria e a naturalidade que construíram o primeiro álbum da banda; é uma música competente e espirituosa, que mostra o The Darkness em um momento bem característico. “Forbidden Love” inicia-se lidando com elementos misteriosos, que muito prometem, para depois se tornar um power-pop banal; apesar da força das guitarras estar presente, se trata de uma canção parecida a tantas outras já lançadas como single, feitas apenas para vender. A nona, “Concrete”, volta a apresentar um momento mais consistente, escancarando mais uma vez a inspiração que Angus Young deu às guitarras do The Darkness.

Pode até parecer estranho, mas o momento mais brilhante do “Hot Cakes” é um cover – mas, de qualquer modo, não se trata de uma regravação qualquer; “Street Spirit (Fade Out)”, do Radiohead, é um dos grandes clássicos do rock alternativo, uma seminal faixa do grandioso “The Bends”, que o The Darkness, através de uma fantástica linha vocal desenvolvida por Justin Hawkins, e de riffs poderosos e hilariantes, transformou na melhor canção jamais gravada do Iron Maiden. A faixa final, “Love Is Not the Answer”, não é uma música ruim, mas soa como se o The Darkness quisesse ser o The Knack do século XXI – e, no fim das contas, são esses momentos comerciais e pouco sinceros que tornam o “Hot Cakes” um registro irregular.

Se o The Darkness quis voltar a ser a mesma banda do “Permission to Land”, infelizmente faltou o principal de tudo; sem ter os sentimentos daquela época, a banda nunca será a mesma daquela época. Em 2003, o que se via era um The Darkness pulsante, alegre, extrovertido e, principalmente, sincero, que não via problemas em se utilizar de ideais sonoros antigos para construir um som renovado. Já, em 2012, o que se percebe é uma banda parada em frente a uma encruzilhada, ainda sem saber que caminho seguir; às vezes pende para um som mais comercial, mais chamativo ao público e mais fácil para se reconquistar o sucesso, enquanto em outros momentos parece querer retomar o som espirituoso e vívido de outrora.

A volta do The Darkness deve ser comemorada, pois se trata de uma banda ainda bem diferente no cenário (e, obviamente, o rock sempre precisou de diferentes vertentes e diferentes estilos para ser grande). Mas “Hot Cakes” perdeu um pouco o espírito, e nos faz ouvir um banda que, em seu retorno, cai em banalidades que, em outros tempos, seriam inimagináveis; há faixas preguiçosas, que pouco acrescentam à carreira da banda (que até podem soar divertidas, mas que, acima de tudo, foram feitas apenas para ser de mais fácil aceitação, fazendo com que o rock do The Darkness decaísse a um som mais comercial).

Mas, mesmo assim, o álbum não é de todo ruim. O cover de “Street Spirit (Fade Out)” é fantástico, e há em alguns instantes um hard rock forte e convincente, que valem a pena ser ouvidos. No fim, os pontos fortes e fracos não chegam a fazer do “Hot Cakes” um lançamento de baixíssima qualidade; é, simplesmente, um álbum inconsistente.

NOTA: 5,8

Track List:

01. Every Inch of You (J. Hawkins/D. Hawkins) [03:04]

02. Nothin’s Gonna Stop Us (J. Hawkins/D. Hawkins/McDougall) [02:45]

03. With a Woman (J. Hawkins/D. Hawkins/Poullain) [03:41]

04. Keep Me Hangin’ On (J. Hawkins/D. Hawkins) [03:00]

05. Living Each Day Blind (J. Hawkins/D. Hawkins) [05:06]

06. Everybody Have a Good Time (J. Hawkins/D. Hawkins) [04:48]

07. She Just a Girl, Eddie (J. Hawkins/D. Hawkins) [03:46]

08. Forbidden Love (J. Hawkins/D. Hawkins/Poullain) [03:49]

09. Concrete (J. Hawkins/D. Hawkins/Poullain) [03:49]

10. Street Spirit (Fade Out) (Radiohaed) [03:07]

11. Love Is Not the Answer (J. Hawkins/D. Hawkins) [03:41]

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