1964: Where Did Our Love Go – The Supremes

Por: Renan Pereira

De tantos grupos e cantores talentosos que a Motown revelou ao mundo nos anos cinquenta e sessenta, The Supremes é um destaque indiscutível. O grupo vocal, classicamente formado por Diana Ross, Florence Ballard e Mary Wilson (que teve Betty McGlown e Barbara Martin no início, e depois tantas outras cantoras, por causa de uma intensa mudança de formações a partir do final dos anos sessenta), foi responsável por um dos sons mais apaixonantes da música negra americana, repleto de romantismo e sensualidade. Fortemente influenciado pela vertente doo-wop, o grupo, apesar de ser detentor de um soul clássico, em toda sua carreira flertou intensivamente com o pop; o que não é ruim de jeito nenhum, pois suas canções, além de comercialmente atraentes, são de um primor artístico invejável.

Foi com o álbum “Where Did Our Love Go”, de 1964, segundo do grupo e o primeiro de sua formação clássica (já sem Betty McGlown e Barbara Martin), que o The Supremes acabou se tornando um nome familiar ao público. Contendo singles fantásticos, como a faixa-título, “Baby Love” e “Come See About Me”, este é um disco que se caracteriza como um registro histórico, por ter sido de um estrondoso sucesso comercial e por ser uma das mais brilhantes produções já realizadas na soul music.

Mas, acima de tudo, temos belíssimas vozes. Diana Ross é, simplesmente, uma das mais aclamadas cantoras da história, um ícone da cultura norte-americana, detentora de uma voz fantástica e de um talento dinâmico e indiscutível; por mais que no The Supremes ela estivesse apenas começando sua bem-sucedida carreira, nela já era possível perceber uma capacidade absurdamente grande, fazendo-nos ver que, mesmo naquela época, o espírito da grande diva que já vendeu mais de cem milhões de discos já estava presente. Mary Wilson é o símbolo de The Supremes, a grande entusiasta do grupo, e a única que nele permaneceu desde a sua criação até o fim de suas atividades (mais precisamente, de 1959 a 1977); apesar de não ter tido uma carreira-solo posterior tão popular, seu nome ficou marcado para sempre como sinônimo do seu grupo. Já, Florence Ballard, com sua voz especialmente doce, era o pilar da estrutura mais sentimental do The Supremes; infelizmente, ela acabou falecendo muito nova, com apenas 32 anos, e este fato, tido como um dos maiores desastres da música, fez com que uma grande e duradoura carreira-solo fosse perdida.

Abrindo com sua faixa-título, “Where Did Our Love Go” inicia-se belo e agradável, com uma graciosidade que seria mantida por todo o álbum; apesar de não ser o intuito da canção (que foi a primeira do The Supremes a chegar ao topo das paradas), culturalmente acabou capturando o espírito político dos Estados Unidos daquela época, quando ainda estavam frescos certos fatos como o assassinato do presidente Kennedy, a guerra no Vietnã e a aprovação da Lei dos Direitos Civis. Aliás, mesmo cantando músicas de amor, o impacto cultural do The Supremes foi gigantesco; além de ter sido o único grupo da época, a incluir os Beatles, que teve a individualidade de cada um de seus integrantes captada pelo público, também marcou o surgimento de uma nova modalidade na música: a música feminina propriamente dita, cantando coisas de mulheres, para mulheres, e do jeito das mulheres, sem procurar se assemelhar aos grupos masculinos.

Após os grooves e versos apaixonantes da clássica primeira faixa, que iniciam o disco de forma arrebatadora, “Run, Run, Run” chega para manter o nível; apesar de ter sido um single de pouco sucesso, apresenta estruturas vocais e instrumentais fortíssimas, sendo inclusive bem mais alegre e dançante que a maioria das músicas do The Supremes. Se é pra falar de sucesso, então falemos de “Baby Love”, que é “somente” uma das músicas mais populares da história; produzida para se assemelhar a “Where Did Our Love Go”, é realmente semelhante à faixa-título, e cumpriu sua meta com louvor: tornou o The Supremes o primeiro ato da Motown a ter dois hits no topo da parada da Billboard. Mas não vá pensando o ouvinte que, por ter sacadas comerciais, o álbum é um simples caça-níquel; é, sobretudo, musicalmente talentoso… E palmas devem ser dadas a trabalhos que conseguem unir o sucesso comercial e a aclamação da crítica.

“When the Lovelight Starts Shining Through His Eyes” é uma canção refinada, chique, e eis aí mais um êxito do The Supremes: o grupo mudou totalmente a ideia de que negros não poderiam ter classe; e justamente por ser assim, acabou se tornando o primeiro grupo de música negra norte-americana a fazer um massivo sucesso também com o público branco. “Come See About Me” é mais um clássico, mais uma canção a alcançar o número um da Billboard; apesar de ser mais simples, mantém aquele espírito resplandecente das demais faixas. “Long Gone Lover” é mais fraquinha, pecando por ser excessivamente repetitiva – mas é um dos poucos momentos em que o álbum decai do mais alto nível.

A sétima, “I’m Giving You Your Freedom”, contém estrutura musical diferente, semi-acústica, e se caracteriza por ser uma canção melódica, mais puxada ao rock da Invasão Britânica, atestando também quão dinâmicas as garotas do The Supremes podiam ser. “A Breathtaking Guy” e “He Means The World to Me” são momentos raros no álbum, por serem, assim como as faixas 6 e 11, as únicas não escritas pelo histórico trio Holland-Dozier-Holland, considerado um dos mais competentes grupos de compositores dos anos sessenta e setenta. A décima, “Standing at the Crossroads of Love”, é mais uma daquelas imperdíveis audições, melódica e romântica como só ela; é, afinal, mais uma bela canção deste belo álbum.

“Your Kiss of Fire” é, assim como seu título pode demonstrar, uma canção mais para sensual; mas, talvez até por não ser de autoria do trio Holland-Dozier-Holland, não consegue captar de maneira efetiva a qualidade do The Supremes, e por isso acaba ficando meio deslocada no álbum (não deixando de ser, porém, uma boa música). Já, a pomposa “Ask Any Girl” dá ao álbum o final que ele merecia; luxuosa, brilhantemente produzida e, principalmente, mergulhando sem moderação nas belas vozes das integrantes – algo que o disco “Where Did Our Love Go” faz, competentemente, em quase toda sua totalidade.

O álbum poderia ser apenas mais um ótimo produto da Motown, entre tantos lançados pela gravadora naqueles tempos, e só isso já o faria grande. Afinal, foi a Motown que elevou a música negra dos Estados Unidos a um maior patamar, tornando-a não apenas um produto genuinamente norte-americano, mas um gênero musical influente em todo Ocidente. Mas, foi com o álbum “Where Did Our Love Go” e seus singles poderosos que a música negra alcançou, enfim, o mainstream. Com simpatia, doçura, elegância e muito talento, Diana Ross, Mary Wilson e Florence Ballard conseguiram agradar ao público negro e ao branco – algo que, naquela época, era um feito visto como praticamente impossível.

“Where Did Our Love Go” é um álbum simples, falando de amor e suas consequências, e aí está seu grande êxito: ser extremamente apaixonante, de um romantismo cativante, capaz de amolecer o mais empedrado dos corações. Afinal, como não se encantar ao ouvir a formação clássica do The Supremes? Pode não ser uma das mais brilhantes e geniais audições, mas, certamente, é uma das mais arrebatadoras.

NOTA: 9,3

Track List:

01. Where Did Our Love Go (Holland-Dozier-Holland) [02:33]

02. Run, Run, Run (Holland-Dozier-Holland) [02:16]

03. Baby Love (Holland-Dozier-Holland) [02:37]

04. When the Lovelight Starts Shining Through His Eyes (Holland-Dozier-Holland) [03:05]

05. Come See About Me (Holland-Dozier-Holland) [02:44]

06. Long Gone Lover (Robinson) [02:25]

07. I’m Giving You Your Freedom (Holland-Dozier-Holland) [02:39]

08. A Breathtaking Guy (Robinson) [02:24]

09. He Means The World to Me (Whitfield) [01:59]

10. Standing at the Crossroads of Love (Holland-Dozier-Holland) [02:28]

11. Your Kiss of Fire (Gordy Jr./Fuqua) [02:47]

12. Ask Any Girl (Holland-Dozier-Holland) [03:00]

Download

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s