2012: Researching the Blues – Redd Kross

Por: Renan Pereira

Eis aqui uma banda experiente, que está na ativa desde o final dos anos setenta, mas que há muito tempo não lançava um novo álbum. Mas parece que a espera valeu a pena; “Researching the Blues”, primeiro trabalho do grupo desde “Show World”, de 1997, se destaca não somente como um retorno, mas também como um álbum emblemático, mostrando uma banda que, mesmo já bastante experiente, com mais de trinta anos de carreira, consegue fazer um som tão enérgico e sincero quanto o da sua juventude.

Formada pelos irmãos Jeff e Steven McDonald (naturais de Hawthorne, subúrbio de Los Angeles, e conterrâneos da família Wilson, dos Beach Boys), a banda iniciou-se influenciada pelo som que envolvia os clubes do cenário underground da época, como o The Roxy e o Whiskey-a-Go-Go, famosos por revelar inúmeras bandas californianas nos anos setenta e oitenta. Como o punk rock dominava a cena mundial no final da década de setenta, eis o gênero sob o qual o Redd Kross começou a formar seu som, que veio a evoluir, nos anos que seguiram, para propostas ora mais hardcore, ora mais pop.

Obcecados pela cultura pop, os irmãos McDonald tiveram a infelicidade de incluir, no primeiro álbum de estúdio da banda (“Born Innocent”, de 1982), uma canção de Charles Manson, o que gerou uma grande confusão; a banda sofreu um processo legal movido pela Cruz Vermelha (International Red Cross), e acabou tendo seu processo evolutivo abalado por polêmicas. Como resultado, os anos seguintes foram pouco produtivos, e somente em 1987, com o fortíssimo “Neurotica”, é que o grupo viu sua carreira tomar um rumo consistente.

Porém, a primeira década do novo século acabou sendo um período de hiato, e quem um dia conheceu o nome da banda ficou descrente em um retorno. Mas quando parecia que, de uma vez por todas, o Redd Kross havia encerrado suas atividades, infelizmente sem nunca ter chegado ao massivo sucesso, os irmãos McDonald retomam o projeto, começando a excursionar novamente sob o nome da banda a partir de 2006.

E finalmente, após mais uns aninhos de espera, é lançado “Researching the Blues”. Produto de toda bagagem adquirida pela banda durante todo esse tempo de carreira, o álbum acaba sendo um dos lançamentos mais deliciosos do rock nos últimos tempos, por misturar, em uma mesma sugestão sonora, energia e experiência. É como se ele dissesse para todo músico com mais de trinta anos de carreira continuar a ter o mesmo tesão com o qual a iniciou, sem precisar se afogar em rótulos ou tornar modesta sua outrora vívida proposta. Ouvir “Researching the Blues” é ter a felicidade de perceber que uma banda experiente, que há muito tempo nada lançava, embebedou-se na fonte da juventude, mantendo um espírito jovial capaz de dar inveja a muitas bandas novas por aí.

Para abrir o disco, temos a faixa-título, um convite para balançarmos a cabeça e batermos os pés; afinal, é um rock impecável, uma inundação hipnotizante de riffs, alocados em uma melódica e altamente dinâmica estrutura. “Stay Away From Downtown” é outro grande destaque, se caracterizando por ser uma canção pura e pulsante, de uma vivacidade impressionante, capaz de impressionar o mais cético dos ouvintes. Em uma época em que os lançamentos joviais se resumem à música adolescente comercial e superficial, nada melhor que um forte e alegre rock, embebido em guitarras energéticas e canções empolgantes, mostrando que ainda há espaço para o velho rock n’ roll soar jovem e atual.

Entre rifadas mais sujas acaba surgindo “Uglier”, mais uma faixa irretocável, que lembra bastante o trabalho feito pela banda no clássico esquecido “Neurotica”. As fortes harmonias vocais da bela balada “Dracula’s Daughters” são um convite à apreciação, bem como seu instrumental melódico, que leva o ouvinte a um passeio agradável em uma ensolarada e romântica tarde de primavera, ao invés de passar pela Transilvânia. “Meet Frankenstein” também não tem nada de assustadora, e praticamente transforma o monstro em um cachorrinho poodle; afinal, é uma balada bonita e agradável, no melhor estilo “Beatles pré-psicodélico”, uma composição que poderia muito bem ter sido assinada por Lennon e McCartney na primeira metade dos anos sessenta, gerando gritinhos e suspiros de fãs apaixonadas. “One of the Good Ones” também é outra baladinha agradável, mais um tema para passeio entre um caminho florido, porém menos intensa às anteriores; o arroto no final surge surpreendente, até porque, o que o Redd Kross quis em “Researching the Blues”, foi justamente impressionar com uma música pura, de grande naturalidade.

A sétima, “The Nu Temptations”, apesar de ser uma boa música, é construída basicamente pela inversão do riff da faixa título; não que isso seja um grande problema, mas em um disco onde a consistência das canções é atestada pelo dinamismo, tal construção soa estranha. A oitava, “Choose to Play”, é mais um maravilhoso rock com tendências pop, praticamente seguindo todos os pontos positivos já citados de “Researching the Blues”; sem dúvida, a atitude dos irmãos McDonald em retomar a banda se mostrou completamente acertada, pois, com este consistente álbum de retorno, o Redd Kross não soa apenas como um grupo que voltou, mas que também ganhou uma nova vida, renascendo novamente com um espírito jovem e energético – algo muito mais louvável que uma simples ressurreição.

A agradável “Winter Blues” é mais um ótimo afago aos ouvidos, uma penúltima faixa que mostra quão consistente e pulsante “Researching the Blues” é: ótimo do início ao fim. Com alguns experimentalismos em sua introdução, a última faixa, “Hazel Eyes”, em sua estrutura semi-acústica, é mais um chamado para uma audição deliciosa; dinâmica e instrumentalmente perfeita, contando com mais um espetáculo de riffs, fica difícil não se usar o jargão de que fecha o álbum com chave de ouro. Aliás, fazer uso de jargões para definir “Researching the Blues” pode ser um grande pecado… Que se deixe de lado o retorno da Fênix, para darmos maior atenção ao caso de Benjamin Button; como o personagem interpretado por Brad Pitt, parece que a banda Redd Kroos, quanto mais experiente, mais jovial fica.

Talvez o leitor nunca tenha escutado uma música dos antigos álbuns dos caras, mas do mesmo modo, agradeça o retorno (e o renascimento) do Redd Kross. Talvez “Researching the Blues” seja tão importante quanto a própria formação da banda, pois os irmãos McDonald (Jeff no vocal e Steven na guitarra) mostram-se em plena forma, com a energia dos vinte e a experiência e credibilidade dos cinquenta, e tal momento artístico da dupla não poderia, de jeito nenhum, passar em branco. Com “Researching the Blues”, pode-se dizer que uma banda formada nos anos setenta é uma das mais animadoras novidades do rock atual – algo que pode até soar estranho em um primeiro momento, mas não após se ouvir o álbum.

NOTA: 8,3

Track List:

01. Researching the Blues [03:54]

02. Stay Away From Downtown [03:40]

03. Uglier [03:54]

04. Dracula’s Daughters [03:08]

05. Meet Frankenstein [01:50]

06. One of the Good Ones [02:34]

07. The Nu Temptations [03:39]

08. Choose to Play [03:11]

09. Winter Blues [02:28]

10. Hazel Eyes [03:49]

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