1980: Boy – U2

Por: Renan Pereira

Hoje em dia seria praticamente impossível imaginar o U2 e seus membros no anonimato, até porque se trata de um dos grupos musicais mais bem-sucedidos da história. Mas houve uma época, apesar de ser estranho pensar, em que os caras não passavam de adolescentes sem fama, podendo andar pelas ruas de Dublin sem chamar grande atenção dos demais. Naquele tempo, eles não tinham muito mais do que o sonho de tocar, até porque seu conhecimento musical era ínfimo… Mas se bandas como The Sex Pistols haviam chegado ao mainstream sem apresentar grande técnica, por que quatro jovens irlandeses também não conseguiriam?

E foi justamente influenciado por bandas emergentes do cenário punk, como The Clash, The Jam e The Buzzcocks, que o U2 inciou sua história. Paul Hewson, o vocalista dedicado, foi se tornando o hoje famosíssimo Bono, David Evans foi se aprimorando para se tornar o elogiadíssimo guitarrista The Edge, e juntos com Larry Mullen Jr. e Adam Clayton davam à luz, sem saber, uma das maiores bandas da história.

A ascensão pode ser dita como rápida, pois em quatro anos, quatro adolescentes sonhadores e sem muito conhecimento haviam se transformado em integrantes de uma banda sólida, um quarteto entrosado, pronto para lançar seus primeiros trabalhos, iniciando assim sua caminhada para o sucesso. O EP “Three”, de 1979, bem como alguns shows realizados pela banda em Londres, no mesmo ano, ajudaram a banda a ter uma razoável aceitação inicial, e tornando necessária a gravação de um primeiro LP.

Este, perfeitamente denominado “Boy”, por demonstrar de forma impecável os pensamentos e anseios do grupo em seus primeiros anos (ou seja, a “infância” da banda), pode não ser uma das melhores estreias de todos os tempos, mas é, sem dúvida, um ótimo cartão de visitas. Mostra que o U2, mesmo em um momento inicial e estando relativamente longe dos holofotes, tinha capacidade de construir algo relevante, forte e sincero, que de imaturidade adolescente não tinha mais nada. Afinal, por mais que as letras de Bono não estivessem tão afiadas como normalmente conhecemos, o U2 já era uma banda séria, instigante, e visivelmente mais inteligente e politizada do que quase a totalidade das bandas de rock da época.

“Boy”, assim como seu título pode querer transparecer, se caracteriza por ser um trabalho jovial, com temas que passeiam entre os sonhos e as frustrações da juventude. Muitos trabalhos já bateram nesta mesma tecla, e mesmo naquela época fazer músicas com esse tema já era algo clichê; mas a seriedade e lucidez com as quais o iniciante U2 o abordou fez com que seu álbum de estreia se destacasse entre os outros, passando longe do marasmo e do senso-comum.

Como primeira faixa, simplesmente temos já de cara um dos singles mais poderosos da banda em toda sua história; a ótima “I Will Follow” viria a definir a estrutura musical por qual o U2 trabalharia em quase todo o restante da sua carreira, com o inconfundível som da guitarra de The Edge a seduzir nossos ouvidos irresistivelmente. Em “Twilight” o show de The Edge continua, em uma canção de instrumental denso e pulsante, convidativo a uma viagem dinâmica e hipnotizante, cujos riffs de guitarra, em contrapartida à letra simples e repetitiva, parecem querer se superar a cada nota tocada.

“An Cat Dubh” e “Into the Heart”, a terceira e a quarta faixa, respectivamente, fazem parte da mesma estrutura musical, densa e misteriosa. A primeira, cujo título significa “gato preto” na língua nativa irlandesa, é composta de uma letra metafórica, tratando de sexo, onde o gato mata o pássaro para, em seguida, dormir ao lado dele. De uma instrumentação enevoada surge “Into the Heart”, mais introspectiva, mais pulsante, mais emotiva, tornando a sequência deliciosamente mística. Já a dançante e direta “Out of Control” mostra uma face mais crua do som dos primeiros tempos do U2, até por ser uma regravação do primeiro EP da banda.

“Stories for Boys” adentra em uma temática bem adolescente, citando até álbuns de fotografias e histórias em quadrinhos; apesar dos vibrantes e inconfundíveis riffs de The Edge estarem presentes, o instrumental como um todo, infelizmente, se comporta de forma tão preguiçosa e repetitiva quanto a letra. Já a enigmática “The Ocean”, apesar de ser bem mais curta (sendo inclusive a faixa de menor duração do álbum, com menos de dois minutos), é bem melhor, mais “aventureira”, procurando alocar o ouvinte dentro de sua proposta de ambiente sonoro, e mostrando que a simplicidade do instrumental do U2 era – e aliás, sempre foi – bem relativa; afinal, aqui ela dá espaços para novas experimentações, seguindo as tendências do new wave.

A balada “A Day Without Me” é tristonha apenas na letra, pois seu vívido instrumental é impecável, uma verdadeira aula de como se inspirar no antigo punk com um olhar voltado para o futuro. A nona, “Another Time, Another Place”, altamente introspectiva, contém uma das melhores letras do álbum (o que não é lá grande coisa, pois o talento composicional de Bono viria a viver dias bem mais brilhantes) e mais um instrumental consistente, onde a guitarra de The Edge continua a imprimir sua marca. Outra instrumentalmente impecável, embebida por hilariantes riffs de guitarra, mas liricamente confusa, com uma letra meio sem pé nem cabeça, é a acalorada “The Electric Co.”, a décima-primeira faixa do álbum.

O U2 do “Boy” não é a mesma banda impecável de lançamentos posteriores, mas é o U2 iniciante que, vendo as oportunidades surgirem, procurava crescer e se superar, tratando de esquecer as fórmulas fáceis e as receitas prontas, para criar uma sonoridade própria e marcante. A última faixa, “Shadows and Tall Trees” é um ótimo exemplo, onde dentro de uma proposta obscura, envolvida em reflexões e mudanças, procura se passar em um terreno novo, às vezes até misterioso, mas percorrido para construir novos caminhos; até porque, como todo mundo há de concordar, de nada adiantava a quatro irlandeses seguir as estradas já batidas pelos pés de tantos outros artistas – se assim fosse, seriam apenas mais um grupo, e não o grandioso e magnificamente bem-sucedido U2  que hoje conhecemos.

Com instrumentações fantásticas, e letras meio sem objetivo (que realmente pecam), o U2 começou sua longa e belíssima carreira no mundo da música, já mostrando que muito prometia. “Boy” pode não ser a estreia perfeita, pode não ser um disco espetacular, mas é um bonito debut, onde os pontos positivos se mostram gritantemente superiores aos negativos. É um trabalho que, no fim das contas, acaba convencendo; reflexivo, inteligente, e de uma sonoridade pulsante e dinâmica, é um apreciável álbum histórico, que mostrou ao mundo uma banda que viria a entrar para a história. É como se o olhar assustado e penetrante do garoto da capa tenha se tornado uma expressão de confiança, e seus sonhos tenham se tornado a mais pura realidade.

NOTA: 8,0

Track List: (letras compostas por Bono e instrumentais por U2)

01. I Will Follow [03:36]

02. Twilight [04:22]

03. An Cat Dubh [04:47]

04. Into the Heart [03:28]

05. Out of Control [04:13]

06. Stories for Boys [03:02]

07. The Ocean [01:34]

08. A Day Without Me [03:14]

09. Another Time, Another Place [04:34]

10. The Electric Co. [04:48]

11. Shadows and Tall Trees [04:36]

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