2012: Tudo Tanto – Tulipa Ruiz

Por: Renan Pereira

Tulipa Ruiz é uma artista incrível. Após ter lançado o seu primeiro trabalho de estúdio, o clássico “Efêmera”, de 2010 (que certamente figura entre os melhores álbuns da música popular brasileira das três últimas décadas), e de uma aclamada turnê, elogiadíssima por público e crítica, eis que ela nos brinda com mais uma grande obra. “Tudo Tanto” é o álbum da afirmação da artista, criada em Minas Gerais mas moradora da capital paulista, filha do guitarrista Luiz Chagas e ex-estudante de comunicação na PUC-SP.

Prata da casa no SESC Pompéia, Tulipa começou a encantar o público com seus shows, em performances brilhantes de energia, simpatia e talento. À medida em que foi se tornando conhecida, viu-se a necessidade de um lançamento em estúdio, surgindo então o surpreendente “Efêmera”. Acabou que o disco não foi somente o seu primeiro álbum, mas sim um clássico imediato da MPB, repleto de grandes composições, performances vocais brilhantes, instrumentações certeiras e, principalmente, sentimentos… Tudo isso compondo um álbum de uma graciosidade vívida, que encantou os ouvintes e ajudou, juntamente a outros trabalhos de novos e talentosos artistas, a dar um novo fôlego à MPB, tão carente de novos nomes e de novas tendências.

Mas eis que, após a aclamação de “Efêmera”, criou-se uma expectativa gigante, criando-se até mesmo uma certa pressão sobre a cantora para um próximo lançamento. Então, após curtir uma bem-sucedida turnê, seu segundo álbum começou a ecoar depois do lançamento dos singles “É” e “Dois Cafés”, esse último com a participação de Lulu Santos. Esses são singles que mostram uma  aproximação maior da música de Tulipa com o pop, mas que, na verdade, pouco mostram de “Tudo Tanto”, por este se tratar de um álbum complexo que explora diferentes nuances.

O primeiro single, “É”, abre-alas em “Tudo Tanto”, dando destaque, como era de se esperar, para a adorável voz de Tulipa; através da apaixonada letra e da bela interpretação da cantora, uma dinâmica instrumentação trabalha uma competente melodia com maestria, servindo como uma grande base para a cantora brilhar. A segunda é “Ok”, basicamente seguindo os rumos do álbum anterior; o que é grande coisa, visto a adorabilidade tanto de “Efêmera” quanto desta faixa, uma grande e agradável mistura de antigas e novas tendências da música.

Falando em tendências, elementos do rock setentista são constantes no álbum, o que mostra um Luiz Chagas mais solto, mais se aventurando do que simplesmente acompanhando as melodias de Tulipa; isso é visto claramente na poderosa “Quando Eu Achar”, uma canção que lida com ares mais enevoados, elevando a musicalidade da cantora para um novo patamar. Se em “Efêmera” temos graciosidade praticamente do início ao fim, “Tudo Tanto” procura passear por letras e instrumentais mais pesados, mostrando que Tulipa Ruiz é uma artista ainda mais dinâmica do que todos pensavam. Provas disso existem em “Like This”, uma música totalmente diferente de qualquer momento de “Efêmera”; com uma letra forte, e rodeada por instrumental denso (onde os riffs de guitarra causam praticamente uma inundação), comete alguns exageros, mas diz pra todo mundo quão artisticamente madura Tulipa é – uma maturidade conquistada logo no segundo álbum. Afinal, o que temos aqui não é mais uma moça começando uma carreira, mas uma mulher em processo de consagração e pronta para novos desafios.

“Desinibida” é encantadora, extremamente agradável, e só ajuda a elevar a qualidade do álbum, que se mostra altamente dinâmico e maduro; a produção muito caprichada também deve receber uma menção especial, por conseguir ambientar o álbum em um espaço complexo e mutante, ora sujo, ora luxuoso, dividindo momentos pretensiosos com outros simplórios, e tudo em natural sintonia. “Script” é outra canção cuja audição é imperdível; com mais uma letra certeira, inclusive utilizando metáforas, é mais um momento para admirarmos o talento dessa mulher, que cada vez mais se destaca como a melhor cantora de sua geração.

A parceria de Tulipa com Lulu Santos é, definitivamente, uma delícia; a ótima “Dois Cafés” é fruto deste venturoso casamento musical, com vocais que se completam e mais uma letra virtuosa, construindo uma música que, além de ter potencial comercial, continua a atestar a consistência de “Tudo Tanto”. A oitava, “Expectativa”, é praticamente um desabafo de Tulipa sobre tudo o que se falou, se escreveu ou se pensou sobre seu segundo álbum de estúdio; álbum este que, felizmente, só vem a superar as expectativas, até pela vontade da cantora em se superar, em buscar novos rumos, procurando fazer diferente. Ela deixa de lado a ideia de se fazer o simples e o fácil, ou seja, de simplesmente manter o que de ótimo já havia sido feito em “Efêmera”, para se aventurar e adicionar novas qualidades à sua carreira.

“Bom”, com sua proeminente linha de baixo, começa prometendo pouco, mas cresce imensamente em meio aos arranjos de cordas e aos francos versos de Tulipa, que sempre, com muita competência, utiliza seu talento lírico para grande tiradas (caraterizando-se assim, além de grande cantora, como uma ótima letrista). A décima, “Víbora”, é provavelmente o ponto mais brilhante do álbum; contando com a participação de Criolo, a música praticamente nos faz esquecer aquela Tulipa meiga e bem-humorada de outras jornadas, com uma letra direta, com ares vingativos, que auxiliada pelo instrumental denso e tenso, faz desta canção uma faixa de completa intensidade e complexidade, contando com a mais impressionante performance vocal já feita por Tulipa Ruiz.

A última é “Cada Voz”, música que pode servir para dar uma ideia do que é “Tudo Tanto”; é “Efêmera” descolorido, alocado em um ambiente mais complexo, onde a alegria e o bom humor muitas vezes dão lugar a um sentimento mais melancólico… mais corriqueiro, mais verdadeiro, e acima de tudo, menos óbvio. “Tudo Tanto” pode não ser tão adorável quanto o primeiro álbum de Tulipa, mas é o toque de maturidade que a cantora necessitava para manter sua carreira no mais alto nível. É, enfim, um trabalho que prova que Tulipa Ruiz não é apenas mais um nome que surgiu, mas um nome que veio para ficar. Que os outros bons e novos nomes da MPB sigam os caminhos de sua estrela maior.

NOTA: 9,0

Track List:

01. É (Tulipa Ruiz) [03:27]

02. Ok (Tulipa Ruiz/Gustavo Ruiz) [04:13]

03. Quando Eu Achar (Tulipa Ruiz/Gustavo Ruiz) [04:19]

04. Like This (Tulipa Ruiz/Ilhan Ersahin) [04:24]

05. Desinibida (Tulipa Ruiz/Tomás Cunha Ferreira) [04:17]

06. Script (Tulipa Ruiz/Gustavo Ruiz) [03:14]

07. Dois Cafés (Tulipa Ruiz/Gustavo Ruiz) [03:23]

08. Expectativa (Tulipa Ruiz/Gustavo Ruiz) [03:35]

09. Bom (Tulipa Ruiz/Gustavo Ruiz) [03:13]

10. Víbora (Tulipa Ruiz/Criolo/Caio Lopes/Luiz Chagas/Gustavo Ruiz) [05:45]

11. Cada Voz (Tulipa Ruiz) [04:24]

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