1994: Dookie – Green Day

Por: Renan Pereira

Muitos dizem que o Green Day deixou o punk mais pop, mas é inegável que os caras deram um novo fôlego ao gênero. A banda, que teve seus primeiros suspiros lá no final da década de oitenta, iniciou-se sem grande pretensões, sendo apenas uma banda de punk rock formada por três amigos, sem dinheiro e sem grandes expectativas. Naquela época, o punk já havia caído em decadência, e as bandas que continuavam a fazer um som parecido àquele que se tornou fenômeno na década anterior produziam uma música que, cronologicamente deslocada, era apenas uma sombra do punk feito antigamente. Assim, juntando-se os fatores, temos uma banda que tinha tudo pra dar errado – mas que, talvez até por isso, tenha dado certo.

O que fez o Green Day se tornar uma banda relevante, não apenas no então decadente cenário punk, mas em toda música em geral, foi justamente trazer uma concepção diferente ao antigo gênero. Realmente, de nada adiantava continuar a fazer o mesmo som que marcou o final da década de setenta, pois, por mais que tivesse entrado para a história, não chamava mais a atenção do público dez anos após seu pico de sucesso. Houve gente dizendo que a banda estava se vendendo, que não estava mais respeitando suas origens, mas devemos ter sempre em mente que a música é uma arte viva, mutável, e que a evolução é sempre bem-vinda, principalmente quando é feita para uma melhor adequação a uma época.

E foi com esse punk punk rock renovado, o punk dos anos noventa, que o Green Day entrou para o mainstream. O segundo álbum da banda, o competente “Kerplunk”, de 1992, já havia feito um moderado sucesso, apresentando muito bem a sonoridade vívida do grupo californiano; mas foi com o eletrizante “Dookie” que a banda realmente se consagrou, com suas faixas poderosas e sua atitude inegável.

A primeira faixa, a ótima “Burnout”, já vai apresentando ao ouvinte o que ele ouvirá no álbum; um punk rock fortíssimo, explosivo, direto e eletrizante, simples e melodicamente competente, com performances instrumentais impecáveis. A segunda, “Having a Blast”, explora os mesmos elementos da faixa anterior, e apesar de ser ideologicamente parecida (assim como todas as faixas do álbum), tem méritos em não soar repetitiva. Aliás, uma das grandes qualidades do “Dookie” é, realmente, ter uma grande interligação entre as faixas, mas, ao mesmo tempo, soar dinâmico. “Chump” é mais um punk rock eletrizante, direto, igualmente ótimo às faixas anteriores.

“Dookie” pode ser um álbum construído por uma sonoridade simples, com temas pouco variados (basicamente, experiências próprias dos membros da banda, falando sobre sexo, drogas, mulheres e ataques de ansiedade), mas mesmo assim é musicalmente rico. Por quê? É, sobretudo, naturalmente vívido, sincero, mostrando uma banda que, consciente de suas limitações técnicas, trabalhou de forma exemplar suas maiores qualidades para construir um disco de altíssima consistência; todas as faixas são competentes, positivamente poderosas, detentoras de um punk melódico que foi capaz de conquistar público e crítica.

A clássica e politicamente incorreta “Longview”, cujo instrumental foi construído sob influências de LSD, é especialmente pesada, irônica, servindo como um grito para uma geração cansada das convenções e das melancolias daquele início de década. “Dookie” contém muitas das canções mais conhecidas da banda, e “Welcome to Paradise” é uma delas; apesar de ser uma regravação de uma faixa do “Kerplunk”, apenas com algumas alterações no instrumental, a versão do “Dookie” acabou se tornando um dos hinos da banda, com destaque principal para o dinamismo instrumental. “Pulling Teeth” talvez só esteja no álbum para torná-lo imperfeito em algum ponto, apesar de não ser uma música ruim; o problema é que, rodeada por músicas poderosas, acaba não tendo um grande destaque, se caracterizando como uma faixa apenas razoável dentro de um fortíssimo álbum.

Poucos singles já se mostraram tão poderosos quanto a sétima faixa do álbum, a famigerada “Basket Case”; é uma música ótima, considerada por alguns, até mesmo, como uma das melhores de todos os tempos no punk rock, mas talvez o massivo sucesso tenha a desqualificado para muitos olhos – foi, durante muito tempo, queridinha de emissoras de rádio e televisão, principalmente quando se fala de MTV. A oitava, “She”, também foi um single de sucesso, caracterizando-se como “apenas” mais uma; ou seja, mais uma eletrizante, espirituosa e vívida faixa do impressionante “Dookie”. “Sassafras Roots” é mais um punk impecável, e que, curiosamente, fala da mesma mulher da faixa anterior (uma ex-namorada de Billie Joe Armstrong). A décima é a altamente radiofônica “When I Come Around”, construída com criativos e dançantes riffs, alocados em uma estrutura bastante segura e competente.

O álbum passa muito rápido, praticamente voando, até por ser formado, realmente, por faixas de curta duração; mas as três próximas músicas são ainda as mais curtas do disco. “Coming Clean” tem, assim como todas as músicas do álbum, um espírito todo jovial, falando sobre dilemas adolescentes; o instrumental também não foge muito das demais, apresentando aquela união da força do punk com o acréscimo de melodias impregnantes. A penúltima é “Emenius Sleepus”, única canção do álbum com letra composta pelo baixista Mike Dirnt, sendo, assim como “In the End”, mais um punk convincente, fazendo o disco continuar o seu consistente caminho.

“F.O.D.” (sigla que quer significar “Fuck Off and Die”) inicia-se calma, acústica e melódica; mas o título acaba não sendo uma enganação, pois o instrumental cresce de forma inesperada e violenta, e vários “elogios” a uma terceira pessoa podem ser ouvidos – eis o espírito punk, por mais que seja o punk noventista do Green Day. Ainda há, depois de alguns instantes de silêncio, a faixa escondida “All by Myself”, escrita pelo baterista Tré Cool; pouco relevante, se destaca por ter uma saudável e bem-humorada paródia de artistas folk.

Irreverente, pesado, melódico e arrebatador, “Dookie” se tornou marca de uma época, tendo uma grande importância histórica por ter renovado o punk rock. A partir de seu sucesso, o mundo viu surgir uma nova geração de bandas punk, levando as marcas e os ideais do Green Day em sua música. Mas, se fosse apenas historicamente relevante, o álbum não seria uma audição tão excitante; mesmo hoje em dia, quase vinte anos após seu lançamento, “Dookie” é um álbum atraente, resplandecente… Tanto que, mesmo atualmente, é difícil olhar para Billie Joe Armstrong sem ver um jovem de, no máximo, uns vinte anos; talvez ele tenha, realmente, encontrado a fonte da juventude: cantar sobre drogas e masturbação em uma banda de punk rock.

Do início da primeira faixa aos acordes finais, o álbum apresenta um grande conjunto, extremamente consistente, composto por músicas de força e atitude. É verdade que o som do Green Day passa longe da genialidade, mas provavelmente este nem seja o ideal sonoro da banda, ainda mais naqueles tempos, muito anteriores ao “American Idiot”. O que a banda procurou fazer foi um som sincero, explosivo e animador, capaz de dar um novo rumo não apenas a sua carreira, mas também a várias outras bandas que voltaram a ter no punk rock um forte alicerce. “Dookie” é, enfim, um trabalho simples e arrebatador, que conquistou o mundo, elevou o Green Day ao mainstream e marcou uma época.

NOTA: 9,0

Track List: (todas as letras creditadas a Billie Joe Armstrong, exceto onde indicado, e instrumentais creditados a Green Day)

01. Burnout [02:07]

02. Having a Blast [02:44]

03. Chump [02:45]

04. Longview [03:59]

05. Welcome to Paradise [03:44]

06. Pulling Teeth [02:31]

07. Basket Case [03:01]

08. She [02:14]

09. Sassafras Roots [02:47]

10. When I Come Around [02:48]

11. Coming Clean [01:34]

12. Emenius Sleepus (Mike Dirnt) [01:43]

13. In the End [01:46]

14. F.O.D. | All by Myself (Tré Cool) [05:46]

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