1974: Kiss – Kiss

Por: Renan Pereira

Hoje em dia, muita coisa ruim pode ser falada da banda Kiss. Marqueteiros, exagerados, excessivamente extravagantes, não faltam adjetivos para desqualificar a banda, outrora a de maior sucesso nos Estados Unidos, e que atualmente sobrevive apenas devido a seus shows. É verdade que a banda tem seus defeitos, sendo principalmente, em alguns momentos, comercial demais; mas muitos esquecem que, acima de tudo, o Kiss é uma banda de rock, e antes de fazer marketing, eles fazem música.

Mas nem sempre a banda foi como é hoje. Se hoje se preocupam muito em vender, houve uma época em que os nova-iorquinos Gene Simmons e Paul Stanley eram, prioritariamente, compositores de rock. Eles montaram a banda em 1973, junto com o guitarrista Ace Frehley e o baterista Peter Criss, também de Nova York, e construíram uma sonoridade inspirada principalmente em Rolling Stones, New York Dolls, Black Sabbath e Led Zeppelin – que, aliada ao visual inspirado no glam, com suas tão famosas maquiagens – se tornou marca característica da banda. Assim, com uma sonoridade animadora e competente, e se mostrando especialmente carismática, a banda Kiss foi se tornando, ao passar dos anos, um dos pilares do rock americano.

Ao ouvir o disco de estreia da banda, o que se percebe é um rock de grande qualidade, simples e conciso. Ele mostra uma banda que, conhecendo suas limitações, procurou se aventurar por uma musicalidade sólida, com letras bem características do gênero, falando muito sobre mulheres e bebida, e com instrumentações firmes, bem elaboradas, que não deixam dúvidas quanto à competência dos músicos.

Por mais que não seja um dos mais famosos registros do grupo, o álbum “Kiss” é um dos seus melhores, por ser consciente, sem soar artificialmente pesado ou comercial, e por trazer algumas das melhores músicas da banda. Uma destas é a faixa de abertura, a clássica “Strutter”, que define muito bem o tom do disco; é um hard rock simples, construído com riffs admiravelmente competentes e marcantes, linhas certeiras de baixo e bateria e um solo de consciência absurda, que se encaixa perfeitamente à canção, sem ser tímido ou extravagante demais. Já “Nothin’ to Lose” não é uma grande canção; farofeira, ela tenta ser uma reedição do dançante rock dos anos cinquenta, contando até com o acompanhamento de um piano – no fim, nem a sonoridade, e nem a letra, que fala de sexo, acabam convencendo, mas acaba por ser, felizmente, um raro momento fraco de um álbum forte.

“Firehouse” é outra canção clássica, uma obra-prima de Stanley; com riffs matadores, que passeiam entre o divertimento dos Stones e a seriedade do Led Zeppelin, e com harmonias vocais que mostram que o compositor (apesar de ser mais conhecido como um guitarrista talentoso) também é um ótimo cantor, a faixa se destaca como um dos grandes pontos positivos do álbum, e, como não poderia deixar de ser, também é uma pedida certa nos shows da banda. Ace Frehley compôs a quarta faixa, a impecável “Cold Gin”, outra canção instrumentalmente brilhante, contendo riffs memoráveis que não ficam devendo nada a Angus Young e Keith Richards em seus momentos mais marcantes. Enquanto isso, a importância de “Let Me Know” existe por ter sido esta a primeira música que Simmons tocou para Stanley, quando se conheceram, em 1971; foi uma canção importante para construir o que viria a ser o Kiss, mas, apesar de ser muito boa, não chega a ser um clássico, e nem um dos grandes destaques do álbum.

“Kissin’ Time” foi incluída no álbum a pedido da gravadora; a canção é um cover de Bobby Rydell, e apesar de não ter sido, na época, muito apreciada pelos membros da banda, que inclusive chegaram a discordar de sua presença no disco, é uma música razoável, bem arranjada pelo Kiss, que a aloca em sua sonoridade característica. Já “Deuce” passa milhas à frente do razoável, sendo simplesmente um dos grandes clássicos da banda, construído sob riffs excitantes e um solo arrebatador. Há quem goste da instrumental “Love Theme From Kiss”, mas é aparentemente muito mais uma encheção de linguiça do que uma faixa de real relevância no álbum.

A ótima “100,000 Years” é uma inusual composição de Simmons e Stanley, falando sobre ficção científica; contendo fantásticas linhas de baixo e bateria, a canção, além de trazer os já tradicionais e competentes riffs de Stanley, também é ritmicamente muito forte, tendo, como outra curiosidade, um raro solo de Frehley. O álbum passa rápido, e a décima faixa, “Black Diamond”, também é a última; se trata de mais uma música competente, com um início melódico, acústico e com os vocais de Stanley, mas que logo cresce para se tornar mais uma canção pesada, na rouca voz de Peter Criss – é destacável mais uma vez o competente baixo de Simmons e os riffs matadores da guitarra de Stanley. No final, temos Paul Stanley atirando pesados riffs de forma misteriosa, se comportando como em um bombardeio aéreo, através do efeito de diminuição contínua de velocidade.

Alguns podem julgar o Kiss pelos defeitos que a banda adquiriu durante os anos, mais precisamente dos anos oitenta para cá, ou também por alguns trabalhos descartáveis que a banda tem feito nos últimos tempos. Mas muitos se esquecem, porém, que houve uma época em que a banda se preocupava apenas em fazer seu rock, deixando de lado maiores frescuras; nessa época, Gene Simmons se destacava como um ótimo baixista, e Paul Stanley era um elogiado talento tanto na guitarra quanto no vocal – eles faziam uma das duplas mais famosas e produtivas do rock, e se apresentavam como os dois grandes caras do Kiss, apesar de Frehley e Criss serem também bons instrumentistas.

Em seu primeiro álbum, o Kiss apresentou ao mundo não apenas uma banda mascarada, mas também uma boa banda de rock fazendo música de qualidade. Pode não ser um trabalho perfeito, decaindo em alguns pontos, mas contém canções que estão entre os maiores clássicos da banda, se caracterizando como gravações impecáveis e espirituosas. E foi com esse rock espirituoso que o Kiss construiu seu primeiro álbum, um disco ótimo, competente, conciso e musicalmente consciente. É, enfim, um álbum de um tempo que o Kiss era uma banda diferente, mais sincera, e conseguia seguir um bom ideal sonoro.

NOTA: 8,3

Track List:

01. Strutter (Stanley/Simmons) [03:12]

02. Nothin’ to Lose (Simmons) [03:26]

03. Firehouse (Stanley) [03:18]

04. Cold Gin (Frehley) [04:22]

05. Let Me Know (Stanley) [02:59]

06. Kissin’ Time (Mann/Lowe) [03:53]

07. Deuce (Simmons) [03:05]

08. Love Theme From Kiss (Frehley/Stanley/Simmons/Criss) [02:24]

09. 100,000 Years (Stanley/Simmons) [03:23]

10. Black Diamond (Stanley) [05:13]

Download

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s