2012: Channel Orange – Frank Ocean

Por: Renan Pereira

E eis que, de repente, surge um grande álbum, e de onde você menos espera. Um cara recém chegado, sem muita fama, chamado Frank Ocean, nos mostrou que a música atual, apesar de seus grandes defeitos, ainda pode nos pregar surpresas positivas. Mas o melhor de tudo é que o cara não precisou viajar anos no tempo para pegar os elementos proeminentes do seu pop de qualidade; o R&B de Frank Ocean é contemporâneo, composto por elementos modernos, buscando justamente na música atual (muitas vezes tão criticada) tudo o que ele precisava para construir este elogiadíssimo trabalho. Com “Channel Orange”, Frank Ocean nos mostra que um promissor futuro pode sim se iniciar a partir dos obscuros tempos atuais.

Além de tudo, este é apenas o álbum de estreia do músico. Ninguém realmente esperava muito de Ocean, um jovem músico de New Orleans, de apenas 24 anos, integrante do Odd Future, com pouca experiência e apelo comercial ínfimo, e que tinha como grandes destaques de seu currículo algumas canções compostas para cantores comerciais, mais celebridades do que artistas, como, por exemplo, Justin Bieber. Sem mídia e sem maiores expectativas, “Channel Orange” faz Frank Ocean surgir praticamente do nada, com competência e talento inesperados, trabalhando com dignidade para distorcer o nariz de muitos sobre o que tem sido feito na música negra norte-americana.

É também uma delícia ver como “Channel Orange” chuta a bunda de muitos cantores por aí. É como se o trabalho puramente comercial realizado por nomes como Chris Brown, Usher e Rihanna (plantado como o supra-sumo da música negra por muitas gravadoras, e demais oportunistas), fosse totalmente humilhado e reduzido a cantigas adolescentes insignificantes. Pois Frank Ocean, mesmo sendo apenas um estreante, se mostra absurdamente mais maduro que a geração atual de músicos afro-americanos, fazendo em “Channel Orange” um trabalho sério e competente, que passa longe de se entregar a modinhas e apelos comerciais; é um disco sem turbilhões eletrônicos, sem a produção caríssima de um DJ famoso, sem uma capa luxuosa com pessoas atraentes… É simplesmente um álbum direto e conciso, que discute coisas pertinentes com seriedade, sem firulas e com uma musicalidade muito competente.

De nada adiantava também ao músico um trabalho liricamente forte, se este não fosse acompanhado por uma boa estrutura musical. E “Channel Orange” é uma aula de como se usar o novo com competência; tem uma sonoridade moderna, repleta de elementos não-convencionais para seu estilo, como toques de jazz-funk, soul eletrônico e guitarras melódicas, e com interlúdios ao melhor estilo “The Wall” ou “21th Century Breakdown”, que elevam o disco a um patamar quase cinematográfico, graças à produção caprichada.

Aliás, ouvir “Channel Orange” é como assistir a um competente drama contemporâneo. Não é uma audição muito fácil, por se tratar de um trabalho pouco comercial e, até certo ponto, melodramático, com temas fortes e tristes; mas é um trabalho inteligente, indo ao ponto sem demais delongas e passando ao ouvinte uma boa mensagem. Se tem gente que tem muito a dizer, mas não sabe muito bem como fazer, Frank Ocean parece dizer tudo o que tinha vontade e com muita naturalidade, como se aquilo não passasse de uma franca conversa com algum amigo. O próprio, aliás, se rotula como “um contador de histórias”, e se “Channel Orange” fosse realmente um filme, poderia ser dito que Ocean é um talento prodígio do cinema.

Como todo bom drama deve ter um início convincente, a primeira cena é “Start”, misteriosa como só ela, mas que serve apenas para fazer sala a “Thinkin Bout You”, uma canção que se inicia com violinos melódicos, mas que logo somem para dar lugar a grooves competentes, onde Ocean canta, com sua ótima voz, em uma performance arrebatadora, sua dor devido a um amor mal resolvido. “Fertilizer” é outro interlúdio, onde se ouve, discretamente, Ocean a explorar ligeiramente uma soul music mais clássica; mas esses elementos saudosistas somem na moderna “Sierra Leone”, onde, com mais uma bela performance vocal, e com batidas não muito convencionais, Ocean constrói mais uma grande canção, dessa vez com algum sentimento mais underground, até devido a sua proximidade ao hip hop, mas igualmente convincente às faixas anteriores.

Em um álbum que se apresenta quase sempre pesado, abordando temas duros, a doce “Sweet Life” é um bom momento para Ocean mostrar que nem só de dramas vive a sua música; contando com a brilhante produção de Pharrell Williams, a faixa, apesar de ser diferente das demais, é uma perfeita mostra do talento composicional do músico, que consegue, de forma magnífica, estruturar sua narrativa em uma soul music contemporânea, cujas notas musicais são um verdadeiro convite à apreciação. Falando de dinheiro, “Not Just Money” é mais um interlúdio, servindo para nos mostrar quão bem Ocean pode falar sobre diferentes temas, e nos trazendo “Super Rich Kids”, mais uma brilhante canção, com rappings de surpreendente qualidade; é mais uma faixa musicalmente atraente, com um ritmo envolvente e contando, novamente, com grandes performances vocais e líricas por parte de Ocean.

Depois de mais um interlúdio, “The Pilot”, apesar de também liricamente e vocalmente competente, se mostra uma canção mais arrastada em comparação às grandes faixas de “Channel Orange”, sendo musicalmente preguiçosa. Já, “Crack Rock”, volta a nos mostrar quão competente as letras de Ocean podem ser; neste caso, o músico fala abertamente sobre drogas, sem soar óbvio, e sem cair nas opiniões extremistas recorrentes quando o assunto é vício. A grandiosa e duradoura “Pyramids”, com mais de nove minutos de duração, parece ter um título perfeito, pois procura demonstrar o que a música é; megalomaníaca, misteriosa, e até mesmo impressionante, é uma canção que passeia entre rainhas do Egito e strippers de Las Vegas, e, como as pirâmides, tem uma estrutura complexa, composta de inúmeros cômodos e corredores que são explorados por Frank Ocean. “Lost”, outra que não está no nível das melhores do disco, aposta muito em um ritmo contínuo, e destoa justamente por não ter o dinamismo das canções mais destacadas do álbum; além disso, a faixa contém diálogos do filme “Medo e Delírio”.

A décima-segunda, “White”, é uma faixa instrumental descartável, com participação do guitarrista John Mayer, e que pouco acrescenta. Já “Monks” volta a viver os grandes momentos do álbum, com uma brilhante instrumentação, que aloca os quentes e dançantes elementos do funk setentista em uma estrutura moderna, contando com a competência lírica já atestada de Ocean. “Bad Religion” também é ótima, melodramática como ela só, e mostrando que, enquanto Ocean canta suas dores, ele é capaz de nos encantar com suas surpreendentes performances vocais. Um dos grandes destaques deste álbum, que aliás tem tantos destaques positivos, é “Pink Matter”, que conta com a participação de André 3000, do OutKast, e brinca com o rock alternativo, através de misteriosos riffs de guitarra.

Tenha o ouvinte mente aberta, ou seja ele um grande tradicionalista musical, é inegável a grandeza de “Channel Orange”. Por mais que hajam pessoas que não gostem da música negra norte-americana, não há como desmerecer este trabalho de tamanha competência, liricamente complexo e musicalmente agradável. Talvez nem Frank Ocean e nem seus produtores sejam pessoas geniais, mas através de uma produção impecável, o álbum soa como uma das apostas mais certeiras dos últimos anos. Afinal, o que surpreenderia mais do que um jovem estreante com tanta maturidade, que é descoberto como um grande conhecedor das dores humanas e da arte de contar histórias? A música atual estava ansiando por trabalhos de maior complexidade, e Ocean, um prodígio, talvez seja o nome que estava faltando para o R&B voltar a ser aclamado pela crítica.

E é com um título aclamado, “Forrest Gump”, que o álbum começa a apresentar um desfecho, com uma música de estrutura admirável, construída através de um assustador órgão de igreja, batidas tradicionais do hip-hop e riffs melódicos de guitarra, que talvez apenas sirvam para segurar as pontas para a letra, visivelmente muito maior que a melodia. E, se “Channel Orange” pode ser realmente comparado a um competente drama cinematográfico, é necessário um final que conquiste o telespectador – ou o ouvinte, que seja. “End” é justamente o que se pede, trabalhando um ritmo abrumado e praticamente trazendo o ouvinte de um sonho, voltando à realidade que, na verdade, também é triste e sofrida.

Vários filmes já terminaram surpreendendo, mostrando que, na realidade, o protagonista só estava sonhando. Mas “Channel Orange” não é assim; por mais que tenha sido inspirado nas experiências homossexuais de Frank Ocean, o ouvinte não precisa temer um trabalho introspectivo. “Channel Orange” não é sobre os sonhos de Ocean, tampouco sobre sua realidade; é sobre dores e virtudes, sobre problemas e soluções, e acima de tudo, sobre os conflitos que atingem o ser humano, independente da cor ou da orientação sexual que ele tenha. É um trabalho que se distancia do artista e se aproxima do ouvinte, e que se mostra muito mais universal do que um álbum de R&B, gênero afro-americano tão característico, poderia ser.

Mas ainda temos que ter cautela. É verdade que “Channel Orange” é o melhor trabalho dos últimos tempos dentro de seu gênero, mas não é uma obra perfeita, e nem Frank Ocean já pode ser considerado um gênio. Apesar de se esperar que o cara se transforme em um dos pilares da música norte-americana, pode ser que ele não faça mais nada de relevante, e se perca de forma similar a tantos outros artistas que começaram muito bem e depois sumiram. Mas, pelo menos, o nome na história ele já tem; quando, daqui uns vinte anos, as pessoas forem olhar para o que de mais marcante ocorreu na música em 2012, verão Frank Ocean e seu “Channel Orange”.

NOTA: 9,0

Track List:

01. Start (Ocean/Ho) [00:46]

02. Thinkin Bout You (Ocean/Taylor) [03:21]

03. Fertilizer (Fauntleroy II/Perry) [00:40]

04. Sierra Leone (Ocean/Ho) [02:29]

05. Sweet Life (Ocean/Williams) [04:23]

06. Not Just Money (Watson) [01:00]

07. Super Rich Kids (Ocean/Ho/Kgositsile/Morales/Robinson Jr/Rooney/Robinson/Hammond) [05:05]

08. Pilot Jones (Ocean/Taylor) [03:04]

09. Crack Rock (Ocean/Ho) [03:44]

10. Pyramids (Ocean/Ho) [09:53]

11. Lost (Ocean/Ho/Otano) [03:54]

12. White (Ocean/Okonma) [01:16]

13. Monks (Ocean/Ho) [03:20]

14. Bad Religion (Ocean/Neuble) [02:55]

15. Pink Matter (Ocean/Ho/André 3000) [04:29]

16. End (Ocean/Ho) [02:15]

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