2012: Born and Raised – John Mayer

Por: Renan Pereira

Apesar de ser reconhecido como um bom músico, o americano John Mayer sempre nos apresentou trabalhos que, visivelmente, ficavam abaixo de sua capacidade. Às vezes demasiadamente comercial, ora muito superficial, a carreira de Mayer vinha tendendo a continuar na mesma, até que “Born and Raised” foi lançado, em maio de 2012. Apesar de não ser um álbum genial, faz com que John Mayer avance algumas casas, através de um trabalho honesto que, até agora, se destaca como o melhor de sua carreira.

Procurando mais uma vez mudar seu estilo, John Mayer mostra-se um músico versátil, pegando do folk-rock norte-americano o caminho a ser seguido em “Born and Raised”, que é, desse modo, amplamente influenciado por nomes como Bob Dylan, Neil Young, David Crosby e Graham Nash. Porém, os benefícios de tal mudança sonora são relativos, visto que não há espaço para novidades, pois, quando se aborda um som mais tradicional, é esperado, acima de tudo, que as tradições sejam mantidas. Isso até poderia limitar as ações do músico, se o ponto positivo não fosse justamente esse; em um terreno firme e seguro, sem firulas e gracinhas comerciais, Mayer mostra que é capaz de construir um álbum consistente, formado integralmente por boas canções, e que amplia a visão de seus ouvintes.

Por sempre ter pulado de um estilo para outro, de maneira brusca e às vezes incompreensível, ora fazendo música pop, ora fazendo blues, John Mayer caracterizou-se por ter uma embalagem poluída, demasiada pesada devido aos diversos rótulos que ele adquiriu durante sua carreira. “Born and Raised” até pode ser rotulado, mas alivia os pensamentos de quem sempre vira um músico talentoso, mas viajando de maneira confusa nas estradas da música. Pode ser dito que Mayer encontrou finalmente um caminho convincente, pois, em “Born and Raised”, ouve-se boas músicas, com boas melodias e boas letras, e, enfim, um artista maduro e seguro.

“Queen of California” é uma primeira faixa atraente, já trazendo toda a atmosfera semi-acústica do álbum, que, apesar de simples, se comporta de maneira exemplar, sem cometer gafes ou equívocos. “The Age of Worry” é uma segunda faixa tão bonita quanto a primeira, trabalhando com competência, com um instrumental muito bem produzido, uma bela melodia. Já “Shadow Days” é um pouco mais comercial, uma canção feita para ser single, mas que nem por isso deixa de ter um destaque positivo; é uma música agradável, um prato cheio para Mayer abusar de bonitos e bem alocados riffs melódicos.

“Speak for Me” também é uma faixa válida, com um instrumental muito bem executado, mas que, apesar de não ser tão longa, soa relativamente arrastada, sem crescer em nenhum momento. Os riffs bem ritmados de “Something Like Olivia” são, sem dúvida, um destaque importante, e constroem mais uma agradável e tranquila canção, que, se não nos mostra nada impressionante, pelo menos continua a deixar o “Born and Raised” em um bom patamar. A sexta, que se trata da faixa-título, é um dos números mais bonitos do álbum, sendo caracterizada por uma poderosa e muito bem trabalhada melodia, em que os riffs de Mayer e uma bem-vinda gaita de boca fazem um admirável espetáculo.

Se o álbum não chega a ser extremamente empolgante, sendo, na verdade, muito mais relaxante do que estimulante, não se pode negar que massageia os ouvidos; através de uma boa consciência musical, onde Mayer mostra saber perfeitamente o que faz, “Born and Raised” vai agradando, com sua sonoridade calma e agradável. “If I Ever Get Around to Living” e “Love is a Verb” são canções melódicas e melancólicas, que poderiam muito bem ter feito parte de algum álbum de Neil Young – mostrando, até mesmo, que Mayer não teve medo de escancarar sua influências. A nona, “Walt Grace’s Submarine Test, January 1967”, é provavelmente o ponto alto do álbum; belíssima, dinâmica, e até se aventurando um pouco, é um atestado melodicamente assinado por Mayer, mostrando que o músico vem evoluindo constantemente, e que, finalmente, merece o destaque que lhe é dado pela mídia.

“Whiskey, Whiskey, Whiskey”, apesar de seu título, não é uma canção animada; arrastada no começo, mas surpreendendo na segunda metade, não é alegre como um porre, e nem deprimente como uma ressaca – é, na verdade, mais uma canção calma e melódica. “A Face to Call Home” também se incia dessa forma, mas para quem já se aborrecia com esta fórmula, o desenrolar da canção acaba por pregar boas surpresas, com mais peso e força no instrumental. E assim o álbum vai terminando, restando-nos apenas, na última faixa, um breve retorno à faixa título.

“Born and Raised” é, sem dúvida, um trabalho competente. Mas não espere o ouvinte algo genial, capaz de grandes mudanças de opinião ou grandes aplausos. É um bom trabalho, com doze boas faixas, todas muito agradáveis, que mostram John Mayer em seu melhor momento da carreira; mas, esperemos que algo ainda maior esteja por vir.

Mayer é um artista que nasceu bem, sendo considerado, em seus primeiros trabalhos, como um dos principais nomes da música para o futuro. Porém, o passar dos anos lhe mostrou descaminhos, equívocos foram cometidos, e ele precisava urgentemente de um trabalho que lhe servisse como um atestado final de talento. Para isso, trabalhou em estruturas musicais antigas, já prontas há muito tempo, porém de muito bom gosto, que não significam preguiça ou falta de vontade de fazer algo maior; apenas a necessidade de segurança. E “Born and Raised” é, enfim, um trabalho seguro, sério e honesto, que pode enraizar, de uma vez por todas, o nome de John Mayer no mundo da música.

NOTA: 7,2

Track List: (todas as faixas compostas por John Mayer)

01. Queen of California [04:10]

02. The Age of Worry [02:38]

03. Shadow Days [03:53]

04. Speak for Me [03:45]

05. Something Like Olivia [03:01]

06. Born and Raised [04:48]

07. If I Ever Get Around to Living [05:22]

08. Love Is a Verb [02:24]

09. Walt Grace’s Submarine Test, January 1967 [05:08]

10. Whiskey, Whiskey, Whiskey [04:39]

11. A Face to Call Home [04:45]

12. Born and Raised (Reprise) [02:01]

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