1984: Forever Young – Alphaville

Por: Renan Pereira

Pense na década de oitenta, e imagine-se na Alemanha Ocidental, em pleno ano de 1984. Se trata de uma época relativamente obscura, é verdade, na qual o país dos germânicos continuava na sua arrastada e infeliz era de divisão entre o triunfante capitalismo e o auto-derrotado comunismo. Mas deixemos as questões políticas de lado, e levemos nossos pensamentos apenas para a música.

Naquela época, o new wave pregava de mocinho, principalmente no continente europeu, onde as grandes bandas de rock clássico começavam a desaparecer. Depois da era punk, o mundo vivia mais uma era de total dominância de um estilo. Eis que então, em meio a todo esse processo de mudança, começa a se destacar uma vertente que, em um primeiro momento, chocou os ouvintes mais puristas, por abolir totalmente a utilização daquela instrumentação mais tradicional, de bateria, baixo e guitarra. O negócio do synthpop era a utilização, total e sem limites, dos sintetizadores, que tanto haviam evoluído na década anterior.

Porém, o synthpop não era algo novo. Sua origem data dos primeiros suspiros da década de setenta, totalmente influenciado pelo krautrock, outra vertente experimentalista bastante importante e, que por coincidência ou não, também teve origens na Alemanha. A intenção deste movimento era de se fazer um constante divórcio com as ideias clássicas, procurando sempre optar por meios alternativos. Para isso, a evolução do tratamento com os sons sintéticos foi um passo fundamental, pois, se a ideia era fazer diferente, nada melhor que desfazer aquele senso-comum de que sintetizador demais significava falta de talento instrumental.

Mas a abolição total dos instrumentos tradicionais foi coisa do também grupo alemão Kraftwerk, que fazia música totalmente eletrônica desde o início dos anos setenta, e que se caracteriza não só como um dos pioneiros do synthpop, mas de todo o uso de sons sintéticos em geral. Mas o fato é que, como todo bom pioneiro de música alternativa, o Kraftwerk jamais conseguiu ser uma figura marcante no mainstream, e coube ao synthpop popularizar a música eletrônica.

Voltemos então, finalmente, a 1984. Você está lá na Alemanha, saboreando o seu chucrute e a sua cerveja, naquele universo de new wave e Muro de Berlim, e eis que surge nas ondas do rádio tudo o que você estava querendo ouvir naquele momento; não era new wave, mas também não era o experimentalismo do krautrock. Era, afinal, um rock eletrônico ou um Kraftwerk pop? Nem um, nem outro… Era o synthpop do Alphaville, mudando a percepção de todos sobre sintetizadores.

Para isso, não bastava algo comum, e o disco “Forever Young” tratou de ter um belo diferencial: ser brilhantemente produzido. Isto porque não é, composicionalmente, nada de muito genial, tendo boas canções com boas melodias, e nada mais que isso. As letras, também, não são nada magníficas, porém acabam não tendo um grande peso, visto que o principal de tudo está em como a sonoridade foi conduzida. E chega até a ser assustador ver um grupo, logo no seu trabalho de estreia, tão seguro do que fazer; dominando perfeitamente a técnica e os aparelhos, o Alphaville anseia, em todo o álbum, surpreender seus ouvintes com a sua música moderna. A boa “A Victory of Love”, faixa de abertura do álbum, já é um belo cartão de visitas; com uma produção caprichadíssima, e sendo progressiva na medida certa, mostra toda a qualidade e a criatividade do grupo, fazendo do som sintético uma exploração incessante de detalhes e sentimentos.

Mas, mesmo quando se explora música proveniente de instrumentação eletrônica, nada deve soar artificial. E o Alphaville tratou de deixar, felizmente, a sua sonoridade bem natural, com melodias agradáveis e bem construídas, onde nada soa forçado, o que só auxiliou na boa alocação dos sintetizadores. Outro ponto bastante humano do grupo é a boa voz de Marian Gold, como pode ser conferido em “Summer in Berlin”, uma boa e muito bem construída balada. “Big in Japan”, primeiro single do álbum, é uma daquelas músicas que foram fundamentais para a difusão do estilo, melodicamente competente, com boas pitadas de rock, e produzida com um capricho incontestável, contendo elementos (que na época eram novidade) que até hoje continuam a fazer parte de muitas músicas tidas como contemporâneas. “To Germany With Love” se inicia misteriosa, mas acaba por se tornar uma faixa extremamente dançante, praticamente um funk norte-americano eletrônico, em que a atuação do instrumental se mostra perfeita.

“Fallen Angel” não deve nada às faixas anteriores, sendo mais uma canção melodicamente agradável e perfeitamente produzida. Eis que então, na sexta faixa, surge a clássica faixa-título, um single fortíssimo, que ainda hoje é muito bem conhecido pelo público; a comovente canção, que tem toda uma temática triste, é uma pausa drástica na agitação, mostrando que não só de alegria e dança a música eletrônica pode ser feita. “In the Mood” não é um dos destaques do álbum, apesar de ser uma boa música; lembrando bastante a música disco, não apresenta algo tão novo quanto as demais faixas, apesar de ser, também, muito bem produzida.

“Sounds Like a Melody” é uma canção que se afasta do normal da música pop, que é de músicas de complexidade limitada e de audição fácil, por conta de letras pegajosas; a canção, que pode ser comparada ao rock progressivo, contém estruturas vocais alternantes e, em sua parte final, uma longa atuação somente instrumental (que, por sinal, é um espetáculo). A penúltima é “Lies”, uma canção não tão boa quanto as demais, mas que é, também, tecnicamente incontestável. Já, “The Jet Set”, é um divertido número final, apresentando nada de muito diferente do que já foi ouvido, mas nem por isso deixando de afirmar a consistência do álbum.

A letra do single “Forever Young” questiona o desejo de ser eternamente jovem e de viver para sempre. Voltando para a segunda década do século XXI, se vê um álbum que um dia foi uma grande novidade, mas que agora é muito mais uma audição nostálgica, na verdade. O Alphaville não conseguiu ser eternamente jovem, e talvez esta nunca tenha sido, realmente, a intenção… Porém a vida eterna é algo possível. O disco “Forever Young” deve ser lembrado para sempre como um trabalho que, além de ter a perfeição técnica, popularizou e humanizou experimentalismos, com muita criatividade, conhecimento e consciência musical.

NOTA: 8,8

Track List: (todas as canções compostas por Alphaville)

01. A Victory of Love [04:14]

02. Summer in Berlin [04:42]

03. Big in Japan [04:43]

04. To Germany With Love [04:15]

05. Fallen Angel [03:55]

06. Forever Young [03:45]

07. In the Mood [04:29]

08. Sounds Like a Melody [04:42]

09. Lies [03:32]

10. The Jet Set [04:52]

Download

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s