1994: American Recordings – Johnny Cash

Por: Renan Pereira

“American Recordings” é, simplesmente, o octogésimo-primeiro álbum de Johnny Cash, e, por incrível que pudesse parecer, acabou marcando uma nova etapa na carreira do mestre do country, pois deu início ao seu último pico de sucesso – que viria a se estender dali até após o seu falecimento. Tal sucesso somente foi possível pela busca de um novo público, e isso ocorreu com a gravação de versões para canções de artistas mais contemporâneos, como Tom Waits, Tom Petty, Chris Cornell, Nick Cave, U2 e até Trent Reznor. Tais trabalhos foram conhecidos como a série “American Recordings”, se estendendo desde este álbum de 1994 (que passou a ser conhecido como o primeiro volume da série) até um sexto volume, lançado de maneira póstuma em 2010. Para muitos, este é um dos momentos mais interessantes (senão o mais interessante) da carreira de Cash, pois nos mostra esse grande artista de forma mais emotiva, mais pessoal, mais próxima do público.

Para quem sempre gostou do trabalho de Cash, é impossível não sentir boas emoções ao ouvir “American Recordings”. Auxiliado pela produção simplória, que ajudou a captar todo o espírito saudosista da voz de Cash, o álbum, em toda sua duração, nos apresenta um artista de corpo e alma, se confundindo com a sua música, e capaz de fazer, apenas com seu vozeirão e seu violão, um trabalho de altíssima qualidade e de um talento absoluto.

A primeira faixa é “Delia’s Gone”, que já havia sido gravada anteriormente por Cash em seu álbum “The Sound of Johnny Cash”, de 1962; não poderia existir uma faixa de abertura melhor, pois ela já começa a acariciar os ouvintes com Cash em seu estado puro, em uma performance vívida, country como nunca, e que nos faz lembrar da fundamental importância que este magnífico artista teve para o crescimento da música norte-americana. “Let the Train Blow the Whistle” é outra canção country tão pura quanto as presentes nos mais clássicos trabalhos do músico, que datam da segunda metade dos anos cinquenta e da primeira dos anos sessenta; mais uma vez, Cash e seu violão se apresentam em uma performance excelente, que não teria como soar mais agradável. Mas é em “The Beast in Me”, belíssima canção de Nick Lowe, e que poderia soar quase como uma auto-biografia, que Cash faz uma de suas performances mais impressionantes do álbum; ele consegue, com a simplicidade da união de sua voz e seu violão, construir uma atuação emocionalmente complexa.

“Drive On” é um country old-school que, na interpretação de Cash, se mostra brilhante, vívido, levando para os anos noventa uma canção que, mesmo nostálgica, não parece se comportar como velha – e um dos trunfos deste trabalho é realmente esse; apesar de já idoso, Cash não demonstrou qualquer fragilidade, se mostrando em ótima forma. “Why Me Lord” é um dos pontos mais emocionantes do álbum, e não por ser uma canção basicamente gospel; esta regravação de Kris Kristofferson (que inclusive o rei Elvis, antigo parceiro de Cash, já havia cantado) nos mostra um artista em sinceridade absoluta, parecendo demonstrar, através de seu canto, seus desejos e angústias. Cash e heavy metal, antes desta série de álbuns lançados pela gravadora de Rick Rubin, seria uma mistura impossível; e não é que “Thirteen” é uma canção de Glenn Danzig, fundador dos Misfits? Mas, como o talento de Cash costumava não ter fronteiras, eis aqui mais uma brilhante interpretação.

“Oh, Bury Me Not” é outra canção que já havia sido gravada pelo nosso Man in Black, mas, nessa oportunidade, conta com uma introdução da mítica “A Cowboy’s Prayer”, tornando a faixa, literalmente, uma oração; uma canção impecável. A oitava é “Bird on a Wire”, do folk Leonard Cohen, que continua a mostrar quão ótimo e versátil Cash ainda podia ser; após enfrentar uma vida intensa, cheia de glórias e problemas, e com uma década de oitenta tristemente medíocre (onde o abuso de drogas foi uma constante), provou-se que o mestre do country ainda poderia ser aquele mesmo artista fantástico dos anos cinquenta e sessenta. Com isso, “American Recordings” não se caracteriza apenas como uma redenção, mas lembrou a todos que um dos artistas mais importantes do século XX ainda estava vivo, produzindo, e não merecia continuar esquecido.

“Tennessee Stud”, gravada em uma performance ao-vivo, prova que Cash nunca deixou de ser um mestre, um gênio, capaz de comandar os olhares e suspiros de uma plateia (sendo pequena ou numerosa) de forma perfeita. A décima é “Down There by the Train”, especialmente escrita por Tom Waits para Cash; e põe especial nisso, pois ela consegue captar toda a magia de um violão brilhantemente tocado e de uma voz fantástica. Já “Redemption” parece capturar, em uma densa e tensa canção gospel do próprio Cash, um dos grandes sentidos não só desse, mas de todos os “American Recordings”: redenção.

A penúltima é a maravilhosa “Like a Soldier”, que, sem dúvida, se destaca como uma das melhores composições de Johnny Cash; com uma letra fantástica, ele procura, auto-biograficamente, comparar sua vida, suas batalhas, à vida de um soldado. E ele realmente o foi, sempre, às vezes perdendo, às vezes ganhando, mas sempre batalhando com garra, usando as suas melhores armas para encantar o mundo com o som que elas faziam. E, no fim das contas, ele não foi apenas um vencedor, e sim um grande herói… um dos maiores.

A forte performance ao-vivo da impagável “The Man Who Couldn’t Cry” é a cereja do bolo, e só poderia, realmente, arrancar os aplausos mais acalorados. Johnny Cash foi um gênio, um mestre, e nem centenas de bons adjetivos seriam capazes de descrever a sua incrível figura. Sem Cash seria inimaginável não somente a música country, mas também o crescimento do rock n’ roll, bem como a cultura norte-americana como hoje ela é… Ele foi fundamental.

Um dia um grande homem vestiu preto, e através de seu preto, o universo pôde ver que angústias e derrotas podem fazer de um simples soldado um herói aclamado.

NOTA: 9,7

Track List:

01. Delia’s Gone (Silbersdorf/Toops) [02:18]

02. Let the Train Blow the Whistle (Cash) [02:15]

03. The Beast in Me (Nick Lowe) [02:45]

04. Drive On (Cash) [02:23]

05. Why Me Lord (Kristofferson) [02:20]

06. Thirteen (Danzig) [02:29]

07. Oh, Bury Me Not (Introduction: A Cowboy’s Prayer) (J. Lomax/A. Lomax/Roy Rodgers/Spencer) [03:52]

08. Bird on a Wire (Leonard Cohen) [04:01]

09. Tennessee Stud (Jimmy Driftwood) [02:54]

10. Down There by the Train (Tom Waits) [05:34]

11. Redemption (Cash) [03:03]

12. Like a Soldier (Cash) [02:50]

13. The Man Who Couldn’t Cry (Wainwright) [05:03]

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