2004: Smile – Brian Wilson

Por: Renan Pereira

“Smile” é um álbum que começou a ser construído em 1966, mas que acabou sendo lançado só em 2004. Por quê? Bem, primeiramente, nem todos os integrantes dos Beach Boys estavam preparados para um álbum de tamanha pretensão, caso em que se coloca especialmente Mike Love, que sempre torceu o nariz para o que Brian Wilson havia realizado neste audacioso projeto. Houve também uma forte pressão da gravadora, descontente com a característica não-comercial do álbum, que soaria de difícil audição para os roqueiros daqueles idos dos anos sessenta. A isto, somam-se a incapacidade dos estúdios da época, que não tinham como tornar realidade todo o universo planejado pelo perfeccionista Brian Wilson, bem como o início dos problemas mentais de Brian, em que são relacionadas sua crescente paranoia e insatisfação com o projeto (e consigo mesmo), e suas graves crises depressivas, causadas pelo crescente colapso gerado em sua mente.

Os anos foram passando, os problemas de Brian foram piorando, e algumas canções do abandonado projeto foram sendo lançadas, esporadicamente, em outros álbuns de estúdio dos Beach Boys. Sempre questionado se trabalharia novamente no projeto, lançando-o em completo ou, pelo menos, com as canções ainda não gravadas em nenhum outro álbum, Brian procurou sempre dar respostas negativas; até que em 2003 ele começou a executar, sozinho e em seu estúdio caseiro, as canções do projeto, e decidindo, por fim, finalizá-lo de uma vez por todas. O álbum seria totalmente inspirado no antigo projeto dos Beach Boys, pegando-lhe os instrumentais e as letras, mas acrescentando algo de novo a algumas canções não-finalizadas.

Uma performance ao-vivo do projeto, quando recém finalizado, foi realizada no Royal Festival Hall, em Londres, em 20 de fevereiro de 2004, contando com Paul McCartney e George Martin na plateia, bem como com um choroso Van Dyke Parks no palco. O resultado final foi uma ovação de cinco minutos a Brian Wilson, e a certeza de que aquele era um dos mais belos projetos já realizados na música popular.

O álbum abre com “Our Prayer”, uma canção a capella cuja letra não tem palavras, e sempre foi pensada para abrir o “Smile”, porém, à princípio, seria uma introdução para “Heroes and Villains”. Segundo Brain Wilson, a canção (que foi a primeira finalizada para o “Smile” dos anos sessenta) seria como uma invocação espiritual para o álbum. O mesmo conta sobre a criação da música: “Eu estava sentado em frente ao meu piano pensando sobre uma música sagrada. Eu me foquei em torno de alguns acordes simples, mas comoventes. Mais tarde eu sentei e escrevi ‘Our Prayer’ em sessões. Os rapazes foram surpreendidos pelo arranjo. Eu ensinei a eles em sessões, a forma como eu costumo fazer. A pureza da mistura das vozes fez os ouvintes se sentirem espirituais, e eu estava definitivamente em um rock de igreja”. A música é descrita por Sean Lennon como “Bach em LSD”.

Acompanhando “Our Prayer” na primeira faixa aparece “Gee”, uma canção doo-wop dos anos cinquenta, do The Crows, cuja letra é caracterizada por ter apenas um verso. A canção, bem como sua antecessora na faixa, é um espetáculo vocal, trazendo toda aquela incrível qualidade harmônica já conhecida dos melhores trabalhos dos Beach Boys.

A segunda faixa é a grandiosa “Heroes and Villains”, primeira colaboração de Wilson com o compositor Van Dyke Parks, e inspirada em “Rhapsody in Blue”, famosa canção jazz de George Gershwin. Foi uma das canções do “Smile” cujo processo de gravação foi um dos mais difíceis, sendo necessários vinte takes e com várias versões diferentes. Foi uma decepção muito grande para Brian quando, em maio de 1967, a gravadora anunciou o arquivamento do projeto do álbum, e a música ainda não estava finalizada. Uma versão propositalmente sub-produzida por Brian foi lançada no álbum “Smiley Smile”, que gerou-se a partir do aborto do “Smile”. Lançada como single, era esperado por Brian que ela se tornasse uma canção top nas paradas, a exemplo de “Good Vibrations”; porém, números modestos nas paradas de sucesso levaram à destruição de sua auto-imposta rivalidade com os Beatles, fazendo com que ele visse o resultado como uma rejeição final, por parte do público, para o seu crescimento musical e artístico. Realmente, a canção é muito mais do que modesta, e nesta versão de 2004 mostra-se rica como nunca, infinitamente melhor produzida do que nos anos sessenta, e reflete uma das mais brilhantes obras de Wilson, que apesar de pulsante, visivelmente alegre, acaba refletindo um dos momentos de mais baixa auto-confiança do músico. A canção, além de ter as já tradicionais e belas harmonias vocais, é um espetáculo dinâmico, com inúmeras variações de ritmo, melodia e velocidade, se caracterizando como uma das mais complexas músicas dos Beach Boys.

“Roll Plymouth Rock” era antes conhecida como “Do You Like Worms?”, e na versão planejada para o antigo “Smile” não tinha letra; apesar de Van Dyke Parks ter escrito uma, ela nunca havia sido cantada pelos Beach Boys. Na versão de 2004, Brian Wilson tratou de adicionar a letra, nesta que é outra grande canção, com ótimas vocalizações (algumas non-sense) e uma melodia construída de forma exemplar.

“Barnyard” é uma faixa curta, com menos de um minuto de duração, caracterizada por ter uma tranquila melodia, construída por calmos riffs de guitarra; também apresenta sons de animais, como galinhas, vacas e cachorros, bem como vocalizações psicodélicas. Ela trabalha também para introduzir a quinta faixa, que na verdade é formada por duas canções: a primeira, é o curto e complexo instrumental “Old Master Painter”, um dos pontos máximos do álbum quanto à música erudita, e a outra é “You Are My Sunshine”, balada antiga, lá dos anos trinta, e revivida por Brian Wilson com um belo toque nostálgico; mas se engana o ouvinte que pensa que essa faixa não apresenta surpresas – o admirável e rebelde solo de saxofone no final acaba nos pegando de calças curtas.

A sexta é a psicodélica “Cabin Essence”, uma das canções que, sem querer, acabaram levando ao fracasso o “Smile” dos anos sessenta. Conta-se que esta, entre outras colaborações de Brain Wilson com Van Dyke Parks, era uma canção totalmente desaprovada por Mike Love; isto acabou gerando tensões internas nos Beach Boys, e levando Parks a abandonar as sessões do projeto antes de seu término. Esta é, aliás, outra faixa planejada para o “Smile” e lançada em outro álbum, o “20/20”, de 1969. Mas, para o engano de Love, a canção é realmente ótima, complexa, dinâmica (com inúmeras variações) e altamente psicodélica, com um refrão explosivo e extravagante.

“Wonderful” é, realmente, uma música maravilhosa. Comparável a “She’s Leaving Home”, pela temática e pelas técnicas de gravação características do pop barroco, é uma das canções mais bonitas (senão a mais bonita) do “Smile”. Construída com um instrumental à base de cravo, apresenta uma melodia angelical, além de um instrumental perfeitamente executado e produzido, e de vocais bem-comportados, porém de intensa emoção.

“Song for Children” começa ainda pegando o gancho da faixa anterior, e é mais uma canção complexa, com quatro blocos bem definidos; o primeiro é calmo, emotivo, o segundo é alegre, festivo, com variações e quebras de ritmo bem características do psicodelismo, o terceiro é melancólico, misterioso, para voltar depois a se tornar divertido. “Child Is Father of the Man” vai levando resquícios da faixa anterior, e como o título pode transparecer, é altamente psicodélica; como toda boa obra de Brian Wilson, é uma canção repleta de variações e progressões, sem deixar de fora, é claro, a alma que é necessária para se fazer música de altíssima qualidade.

Já a décima faixa é “Surf’s Up”, aquela mesma belíssima e complexa canção que foi destaque no álbum homônimo, só que agora muito melhor produzida, mais rica em detalhes, mais vívida. A próxima faixa é mais uma união de canções: “I’m in Great Shape”, de Brian Wilson e Parks, se inicia absolutamente erudita, para então se tornar, ao início do vocal, uma canção psicodélica, com um instrumental bastante complexo e dinâmico (apesar de ser uma canção curta); “I Wanna Be Around” é uma simples canção popular, mas que aloca-se perfeitamente na faixa (e no álbum); já “Workshop” é um dos pontos máximos de psicodelismo do álbum, pois, aproveitando a melodia de fundo da canção anterior, apresenta-se como um instrumental excêntrico, lotado de elementos incomuns.

“Vega-Tables” é outra famosa canção do “Smile”, cujos principais destaques estão nos psicodélicos e extravagantes vocais de base e na percussão inspirada em mastigação. Conta-se que, para a gravação desta música, lá nas sessões sessentistas, Paul McCartney se juntou aos Beach Boys. “Eu estava no estúdio gravando o vocal”, conta Al Jardine, “quando, para minha surpresa, Paul McCartney entrou e se juntou a Brian no console e, brevemente, os dois mais influentes gênios musicais do mundo tiveram a chance de trabalhar juntos”.

A décima-terceira, “On a Holiday”, é nada mais que uma releitura, mais divertida, de “Roll Plymouth Rock”, e conta, é claro, com um espírito todo psicodélico. “Wind Chimes”, que contém um instrumental fenomenal, foi uma das poucas músicas realmente finalizadas em 1967, e acabou sendo lançada no “Smiley Smile”; porém, na sua versão de 2004, Brian tratou de fazer algumas modificações, principalmente no último bloco da canção.

“Mrs. O’Leary’s Cow” pode ser dita como a “Bad Vibrations” do disco. De acordo com Brian Wilson, “a faixa instrumental foi um gemido longo e assustador. É construída lentamente, como o início de um incêndio gigante, e tornou-se tão intensa que era possível imaginá-la a capturar gravetos, espalhando-se, e sendo chicoteada pelo vento em fúria, em um inferno fora de controle. Comecei a sentir-me nervoso com a música, estranho e misterioso. Eu gostei da música. Mas me assustou”. Ainda, segundo ele, “criou-se um quadro perturbador que espelhava os gritos que tinham enchido minha cabeça e meu atormentado sono por anos. No caminho para casa, eu comentei: ‘Você sabe, eu acho que a música poderia assustar um monte de gente’. Ninguém estava mais assustado do que eu. No dia seguinte fiquei sabendo que uma porta do prédio ao lado do estúdio tinha queimado na noite da sessão de gravação. Vários dias depois, foi-me dito que, desde a sessão, um número invulgar de incêndios tinha acontecido em Los Angeles. Era exatamente como eu temia. Em vez de música espiritual positiva, eu bati em uma fonte escura, uma música de fogo extremamente poderosa que emitia vibrações ruins, o que eu decidi ser demasiado perigoso para liberar para o mundo”.

A penúltima, “In Blue Hawaii”, é, na verdade, a versão finalmente finalizada de “Cool, Cool Water” ou “I Love to Say Da-Da”, com letra escrita por Van Dyke Parks (que foi recrutado por Wilson para escrever a letra para esta versão de 2004).

Para finalizar o “Smile” da melhor forma possível, temos “Good Vibrations”, a canção mais conhecida dos Beach Boys, e o ponto alto do álbum. A canção, cujas boas vibrações são capazes de alterar positivamente as batidas dos nossos corações, atinge em cheio nossa frequência natural, levando nossa mente ao batimento e a nossa alma a uma infinita ressonância. Além disso, ela nos lembra que a música existe, acima de todos os interesses comerciais, para alegrar os ouvintes, abrilhantar as suas vidas, ou, de alguma forma, dar a eles algo de bom. E todo o “Smile”, definitivamente, nos passa canções de extrema qualidade, capazes de fazer todos os ouvintes se sentirem bem.

A demora, por incrível que pareça, valeu a pena. “Smile” é grandioso, poderoso, complexo, bonito, divertido, às vezes até assustador, mas, acima de tudo, é fantástico. É a aventura mais duradoura e maluca vivida por um artista, e, para a nossa sorte, este artista foi Brian Wilson.

NOTA: 9,8

01. Our Payer|Gee (B. Wilson|William Davies/Morris Levy) [02:09]

02. Heroes and Villains (B. Wilson/Van Dyke Parks) [04:53]

03. Roll Plymouth Rock (B. Wilson/Van Dyke Parks) [03:48]

04. Barnyard (B. Wilson/Van Dyke Parks) [00:58]

05. Old Master Painter|You Are My Sunshine (Haven Gillespie/Beasley Smith|Jimmie Davis/Charles Mitchell) [01:04]

06. Cabin Essence (B. Wilson/Van Dyke Parks) [03:27]

07. Wonderful (B. Wilson/Van Dyke Parks) [02:07]

08. Song for Children (B. Wilson/Van Dyke Parks) [02:16]

09. Child Is Father of the Man (B. Wilson/Van Dyke Parks) [02:18]

10. Surf’s Up (B. Wilson/Van Dyke Parks) [04:07]

11. I’m in Great Shape|I Wanna Be Around|Workshop (B. Wilson/Van Dyke Parks|Mercer/Vimmerstedt|B. Wilson) [01:56]

12. Vega-Tables (B. Wilson/Van Dyke Parks) [02:19]

13. On a Holiday (B. Wilson/Van Dyke Parks) [02:36]

14. Wind Chimes (B. Wilson/Van Dyke Parks) [02:54]

15. Mrs. O’Leary’s Cow (Brian Wilson) [02:27]

16. In Blue Hawaii (B. Wilson/Van Dyke Parks) [03:00]

17. Good Vibrations (B. Wilson/T. Asher/M. Love) [04:36]

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