1971: Surf’s Up – The Beach Boys

Por: Renan Pereira

“Surf’s Up” é outro grande álbum dos Beach Boys. Lançado em agosto de 1971, é o sucessor do também ótimo “Sunflower”, mas tendo como principal diferença o sucesso comercial; enquanto “Sunflower” tinha sido, até o momento, o álbum menos vendido da banda, “Surf’s Up” foi o primeiro álbum dos Beach Boys a alcançar o top 40 da Billboard desde o psicodélico “Wild Honey”. O título do álbum vem da canção homônima, escrita por Brian Wilson e Van Dyke Parks para o não lançado “Smile”, e que acabou sendo levada ao público neste álbum de 1971. Mas, além desta, “Surf’s Up” contém outras ótimas canções, perfazendo um dos discos mais consistentes de toda a carreira do grupo californiano. Outro grande destaque do álbum, e que não pode se deixar passar, é a sua belíssima capa, baseada na emblemática e popular escultura “End of The Trail”, de James Earle Fraser.

Em “Surf’s Up” temos algumas letras mais politizadas. Um bom exemplo disso é a primeira faixa, “Don’t Go Near the Water”, que ao invés de convidar o ouvinte a surfar, diz pra ele ficar longe da água por razões ambientais; a música, composta por Mike Love e Al Jardine, traz belos arranjos instrumentais, presentes na já característica e complexa sonoridade da banda, repleta de variações e progressões. Uma boa novidade no álbum é Carl Wilson: “Long Promised Road” é sua primeira composição na banda – antes ele só tinha composto alguns poucos solos de guitarra nos primórdios da banda; e o que temos é uma grande música, calma mas com um refrão especialmente explosivo, se caracterizando como um moderno (e sim, isso poderia ser dito até nos dias de hoje) pop rock, e contendo uma interessante sonoridade até então não utilizada pela banda.

“Take a Load Off Your Feet” teve ajuda, na composição, de Gary Winfrey, um antigo amigo de Al Jardine; conta-se que a esposa de Gary estava grávida, e por isso, tinha os tornozelos inchados. Naquela época (final dos anos sessenta e início dos setenta) a música “Hair” (tema do filme musical homônimo, lançada como single pelo The Cawsills) estava fazendo muito sucesso, e então houve a ideia de se fazer uma canção que falasse, por que não, dos tornozelos. A música, cujo título pode ser traduzido para “tire um peso de seus pés”, também teve colaboração de Brian Wilson em alguns versos, e se mostra como mais uma agradável canção, em que arranjos semi-acústicos podem ser ouvidos.

Uma das melhores composições de Bruce Johnston é, notavelmente, “Disney Girls (1957)”, a quarta faixa do “Surf’s Up”; se trata de uma lindíssima balada, construída em piano, melodicamente forte e com belos backing-vocals. Já, “Student Demonstration Time” é um blues escrito pela dupla Jerry Leiber e Mike Stoller, autores de clássicos como “Stand By Me”, e que inclusive compuseram muitas canções para Elvis Presley; a canção, datada dos anos cinquenta, teve a letra reescrita por Mike Love, e com um toque a mais de peso no instrumental, caracteriza-se como um dos momentos mais pesados dos Beach Boys.

Para abrir a segunda parte do álbum, temos mais uma bela canção de Carl Wilson, chamada “Feel Flows”, uma balada, em que alguns toques psicodélicos podem ser notados, bem como algumas experimentações no instrumental. “Lookin’ at Tomorrow (A Welfare Song)” é outra da dupla Jardine/Winfrey, sendo a faixa de menor duração do álbum, com menos de dois minutos; com arranjo acústico, é mais uma música calma, com uma belíssima melodia e algum espírito alucinógeno. A melancólica “A Day in the Life of a Tree”, única música em que Brian Wilson trabalhou especialmente para este álbum, é coescrita pelo empresário da banda na época, Jack Rieley, que também dá uma canjinha nos vocais; este rock psicodélico retrata muito bem uma época de abuso de drogas por parte de Brian, e, segundo Al Jardine, ninguém na banda quis cantá-la, por se tratar de uma canção extremamente depressiva (obrigando então o empresário da banda a assumir os vocais).

Para fechar o álbum, temos duas canções que são, sem dúvida, seu ponto máximo. A penúltima é a fantástica “‘Til I Die” que, segundo o próprio Brian Wilson, autor da canção, foi motivada por alguns eventos. “Eu estava deprimido e preocupado com a morte”, diz ele, “olhando na direção do oceano, com a minha mente, como fazia quase todas as horas de todos os dias, trabalhando para explicar as incoerências que dominavam minha vida; a dor, o tormento, a confusão e a música linda que eu era capaz de fazer. Houve uma resposta? Será que eu não tenho controle? E se eu tivesse alguma vez? Sentindo-me como um náufrago em uma ilha existencial, eu me perdi na escuridão que se estendia além das ondas que quebram para o outro lado da Terra. O mar estava tão incrivelmente grande, o universo era tão grande, e de repente eu me vi na proporção de uma pedrinha de areia, de uma água-viva flutuando sobre a água. Viajando com a corrente, eu me senti diminuído, temporário. No dia seguinte comecei a escrever “‘Til I Die”, talvez a música mais pessoal que eu já escrevi para os Beach Boys… Ao fazer isso, eu queria recriar o inchamento de emoções que eu havia sentido na praia na noite anterior.”

“Surf’s Up”, desde a época da gravação do “Smile”, era uma canção que causava ansiedade para os fãs da banda. A canção havia sido finalizada em novembro de 1966, quando Brian Wilson foi filmado executando uma versão demo do solo de piano da música para um especial da CBS News sobre a música popular. A partir deste momento, a curiosidade acima da música foi tanta que, Jack Rieley, após se tornar empresário da banda, e vendo as vendagens de álbuns diminuírem, pediu para Brian regravá-la para um próximo álbum, que viria a ser o propriamente dito “Surf’s Up”. Brian apresentou-se relutante, e Carl acabou supervisionando a regravação, que teve, em sua parte final, a adição de alguns elementos de “Child Is the Father of the Man”, outra faixa do “Smile”. A canção é uma das mais complexas dos Beach Boys, uma das que construíram o rock progressivo, e é tida como uma das mais belas obras de Brian Wilson.

Com canções de tamanha qualidade, temos, obviamente, um grande álbum. Não é o melhor dos Beach Boys, mas é um disco à altura da fantástica banda que o fez, com participações decisivas de vários integrantes, e contendo duas das maiores obras de Brian. “Surf’s Up” também é um marco, sendo, durante muito tempo, o último grande trabalho da banda. A partir de 1971, Brian Wilson se afundou em drogas, viu sua voz ser drasticamente prejudicada, e os Beach Boys nunca foram o mesmo grupo – apenas em “Love You”, de 1977, e no contemporâneo “That’s Why God Made the Radio”, temos lampejos daquela banda genial.

Enfim, “Surf’s Up” é de um tempo em que os Beach Boys conseguiam, apesar de seus problemas, compor grandes canções e fazer um álbum de qualidade indiscutível. Mas, para a nossa sorte, Brian Wilson está novamente de bem com a vida, e os Beach Boys voltaram fortes e contentes para celebrar, em 2012, os cinquenta anos da banda.

NOTA: 8,9

Track List:

01. Don’t Go Near the Water (Love/Al Jardine) [02:39]

02. Long Promised Road (C. Wilson/Rieley) [03:30]

03. Take a Load Off Your Feet (Al Jardine/B. Wilson/Winfrey) [02:29]

04. Disney Girls (1957) (Johnston) [04:07]

05. Student Demonstration Time (Leiber/Stoller/Love) [03:58]

06. Feel Flows (C. Wilson/Rieley) [04:44]

07. Lookin’ at Tomorrow (A Welfare Song) (Al Jardine/Winfrey) [01:55]

08. A Day in the Life of a Tree (B. Wilson/Rieley) [03:07]

09. ‘Til I Die (B. Wilson) [02:41]

10. Surf’s Up (B. Wilson/Van Dyke Parks) [04:12]

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