2012: Reza – Rita Lee

Por: Renan Pereira

É muito bom ter novamente, depois de um longo tempo, um novo álbum de Rita Lee. O último álbum da nossa rainha do rock, antes de “Reza”, havia sido o bom “Balacobaco”, de 2003, e, com isso, nota-se um intervalo de nove anos entre estes lançamentos. Só que o tempo na música é algo relativo: como muita coisa pode mudar em pouco tempo, longos anos também podem passar sem nenhuma grande mudança. E Rita não muda, continua sendo a mesma artista fantástica desde a época dos Mutantes, e a idade que hoje a torna idosa não modifica a mulher que sempre conhecemos (ou tentamos conhecer). Em “Reza”, Rita é Rita.

De diferente, temos alguns enfeites desnecessários ali ou acolá, umas letras mal trabalhadas, ou até mesmo alguns exageros eletrônicos, que podem tornar certos pontos da sonoridade do disco estranhos para os ouvintes mais conservadores. Mas Rita Lee nunca foi uma daquelas artistas de aceitar convenções ou seguir movimentos – ela é quem é, dane-se os que os outros pensam, e ela faz o que quer fazer. “Reza” não é muito coeso, atira para todos os lados, mas representa bem o que é a personalidade desta artista tão ímpar e importante da nossa cultura.

Por isso, se o ouvinte deseja ouvir coisas certinhas, onde tudo soa no seu devido lugar, “Reza” não é uma das melhores audições. O álbum caminha por um terreno relativamente tortuoso, às vezes lembrando Mutantes, com um som mais psicodélico, passando pelo hard rock dos trabalhos de Rita com a banda Tutti-Frutti, e chegando até mesmo a um som mais chiclete, que pode nos lembrar de certas coisas feitas por Madonna nos anos noventa. As ligações entre vertentes tão distintas são, em “Reza”, esporádicas demais, ou melhor, quase inexistentes, tornando o disco como uma colcha de retalhos ainda sequer costurada. Mas, mesmo que sejam retalhos, algumas canções chamam atenção por pontos positivos… Coragem é coisa que Rita sempre teve, ainda que às vezes lhe falte juízo, e com isso ela é capaz de reviver, em 2012, certos psicodelismos capazes de fazer os mais rabugentos esbugalharem os olhos.

O maior ponto positivo de “Reza” é justamente ser um álbum de Rita Lee – mas se engana quem pensa que ela fez tudo sozinha. Roberto de Carvalho, o maridão dela, é uma constante e forte presença nos álbuns de Rita, e neste último não poderia ser diferente. O cara, além de ter que aguentar a personalidade nada fraca de Rita, é um músico muito competente, mais conhecido como compositor e guitarrista, mas também atuando de maneira concisa na produção. Por isso, nada neste álbum (ou em muitos de Rita) deve ser creditado apenas à cantora.

Para começar, a primeira faixa, “Pistis Sophia”, vai procurando ambientar o ouvinte no suposto tema do álbum; basicamente, uma oração em meio a outras orações. A segunda faixa é a boa faixa-título, continuando no mesmo tema e se interligando bem à primeira música; com estas duas canções, o álbum se inicia surpreendentemente bem, contendo uma interessante introdução para um rock de óbvia qualidade. Alguns pontinhos de rock psicodélico também agradam, mostrando que Rita foi longe no seu passado para construir “Reza”. Já “Tô um Lixo” é um pop-rock até moderninho, mas não deixa, por causa disso, de ser uma faixa válida.

É a partir de “Divagando” que o álbum começa a ficar totalmente desconexo; a canção é um pop ao melhor estilo Lulu Santos, e não se trata de uma música ruim, mas claramente mal alocada e sem nenhuma interligação (sonora ou temática) com as três faixas anteriores. “Vidinha” também é desconexa, se tratando de um hard-rock não muito empolgante, onde as guitarras se limitam ao óbvio e a letra não passa de “tudo o que você pode imaginar que uma pessoa sem muita criatividade e descontente fale de sua vida”. A sexta faixa, “Loucas”, até pode lembrar mais o grande trabalho feito por Rita com a banda Tutti-Frutti, mas na verdade só por causa de alguns elementos do instrumental – a letra não vai nada muito além daqueles “clássicos modernos” do sertanejo universitário.

Infelizmente, tudo de bom que tentou ser construído, em um animador início, vai sendo rapidamente destruído. “Bixo Grilo” pode ser considerada uma das piores músicas já gravadas por Rita; é uma canção altamente artificial, tentando ser “cool”, cheia de enfeites eletrônicos, uma atmosfera alucinógena e um tema contemporâneo – em que mais uma letra ruim pode ser ouvida, mas não muito compreendida. “Paradise Brasil” até tem uma letra mais legalzinha, com uma pequena crítica, apesar de não ser também nada de incrível; agora, o que peca é o instrumental, que além de ser um pop dançante (Rita é ou não a rainha do rock, afinal?) é um pop preguiçoso, daqueles chiclete, sem dinamismo nenhum.

“Rapaz” é, finalmente, uma canção ao nível de Rita Lee; com elementos psicodélicos, e com um tema promíscuo (o que Rita sempre gostou) bem trabalhado, se trata de uma faixa bem válida, apesar de não estar nem perto das melhores canções já gravadas pela roqueira. E não é que o álbum continua teimando em fazer algumas mudanças drásticas e incompreensíveis? Depois de rezar, de se drogar, de dançar em uma boate e de transar, na décima faixa “Reza” vai direto para o Iraque, mais precisamente em “Bagdá” – convenhamos, a música é até engraçadinha, simpática, mas é capaz de irritar ao ser ouvida por várias vezes; apesar de o instrumental ser bem feito, a letra é bastante fraca.

Agora, em que estamos pra lá de “Bagdá”, temos a música “Tutti-Fruditti”, mais uma com ares psicodélicos, mas que não passa do medíocre. Porém bons momentos são ouvidos novamente na consistente “Gororoba”, um rock bem nutritivo, e na totalmente psicodélica “Bamboogiewoogie”, a melhor música de “Reza”, que poderia muito bem ter feito parte de algum álbum dos Mutantes. Mas “Pow” trata de encerrar o álbum de forma ridícula, não passando de barulhos sem nexo e de experimentalismos incompreensíveis, nos fazendo pensar se Rita realmente tem algum rumo na atual fase de sua carreira.

Meses atrás, ela descobriu ser bipolar (só agora?), e se, em “Reza”, era esse o traço de personalidade que ela e seu marido gostariam de explorar, talvez o álbum tenha sido competente. É como se Rita virasse um disco, e cada fase do seu humor fosse uma faixa, em que as mudanças se mostrassem drásticas e sem propósito. Mas o mais grave é que ela parou de fazer shows, e este é seu primeiro álbum em nove anos; será que ela mesma ainda se leva à sério, será que ela ainda quer algo a mais ou agora é só viver do passado? Apesar de seu talento não ter a abandonado, o que é provado em algumas boas faixas do “Reza”, Rita precisa decidir se ainda quer continuar a utilizá-lo.

NOTA: 3,8

Track List:

01. Pistis Sophia (Rita Lee) [01:50]

02. Reza (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [02:26]

03. Tô um Lixo (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:22]

04. Divagando (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [04:08]

05. Vidinha (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [05:33]

06. As Loucas (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:12]

07. Bixo Grilo (Rita Lee) [04:37]

08. Paradise Brasil (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [04:20]

09. Rapaz (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:39]

10. Bagdá (Rita Lee) [03:04]

11. Tutti-Fuditti (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:31]

12. Gororoba (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [02:55]

13. Bamboogiewoogie (Rita Lee) [07:35]

14. Pow (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:43]

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