1970: Sunflower – The Beach Boys

Por: Renan Pereira

A capa de “Sunflower”, apesar de parecer despretensiosa, sendo uma simples fotografia, quer, na verdade, dizer muita coisa. Primeiramente, ela diz muito realmente quanto à simplicidade – não que a capa do “Pet Sounds” tivesse sido um luxo total, mas a ideia de se fazer o melhor álbum de rock da história não era mais o foco da banda depois de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e do fracasso do “Smile”. Também uma banda pode ser vista, com Brian Wilson sendo apenas mais um entre os integrantes; ele, obviamente, não havia deixado de ser “o guru”, mas a contribuição direta dos demais membros dos Beach Boys nunca havia sido tão grande. E, além de tudo, se vê os membros com seus filhos, mostrando uma banda experiente, amadurecendo, que já se parecia mais com “pais de família” do que com “garotos da praia”. Enfim, significa a entrada em uma nova era, onde uma das mais célebres bandas dos anos sessenta tentava marcar seu espaço no concorrido nicho do rock setentista.

Só que para se destacar em meio a tantas bandas novas e de grande qualidade não bastava a fama do passado. “Pet Sounds” havia sido grandioso, mas foi, de certa forma, ofuscado pelo posterior lançamento de “Sgt. Pepper”, tido naqueles anos como o melhor álbum de música popular já lançado em todos os tempos. Ao ver os Beatles recebendo todos os louros, Brian mergulhou no audacioso projeto “Smile”, que de tão ambicioso, tornou-se o mais aguardado, o mais comentado, o mais cultuado e o mais brilhante álbum jamais lançado. Do aborto surgiu o tapa-buraco “Smiley Smile”, que não foi nada ruim, mas muito pouco para tamanhas pretensões. “Wild Honey” e “Friends” foram álbuns que continuaram a aventura da banda pelo rock psicodélico, mas apesar de serem bons trabalhos, passam longe do brilhantismo de “Pet Sounds”. Definitivamente, depois de trabalhos tão pouco impactantes, um grande disco deveria ser lançado.

O desconexo “20/20” também não havia sido este trabalho, que, na verdade, viria a ver a luz do dia apenas em 1970, quatro anos após o lançamento de “Pet Sounds”. “Sunflower” foi, finalmente, um grande projeto, de extrema qualidade e de brilhantismo.

“Slip on Through” é a primeira faixa, inciando o álbum de forma tão impactante quanto “Wouldn’t It Be Nice” em “Pet Sounds”; a música é maravilhosa, um belíssimo pop-rock, que absorvia todas as ideias plantadas pelos célebres trabalhos do final da década de sessenta. O autor da canção, Dennis Wilson, sempre foi um ótimo músico, de grande talento, mas que sempre fora ofuscado pelo irmão Brian. Mas como em “Sunflower” a ordem era para que todos participassem diretamente, eis a hora e o espaço para outros integrantes dos Beach Boys mostrarem, com mais destaque, o seu valor.

A senguda faixa, “This Whole World”, também é belíssima, impecável, e se caracteriza por ser uma das menos famosas grandes obras de Brian Wilson; a canção, que se inicia parecendo retrô, acaba pegando o ouvinte de surpresa e o deixa boquiaberto, mesclando rockabilly, soul, pop e alguma coisinha de surf rock, em uma estrutura extremamente dinâmica, com instrumental perfeito e vocalizações mágicas. É como se “Pet Sounds” houvesse se renovado, sendo retrabalhado e lançado novamente em 1970, captando todo o espírito daquela época em que as grandes revoluções já haviam acontecido, e apenas um polimento era necessário para se fazer música de alta qualidade.

A calma “Add Some Music to Your Day” é outra canção de magnífica beleza, que se aventura em mais uma estrutura complexa e dinâmica, capaz de soar, ao mesmo tempo ou em diferentes momentos, simples e sofisticada; na composição, há a participação de Joe Knott, que segundo Brian Wilson, “era um amigo que não era um compositor, mas que contribuiu com um par de linhas. Mas eu não me lembro mais quais!”. É de marca registrada de Brian, aliás, nesta canção, suas tradicionais progressões, que culminam em grooves fantásticos presentes em inteligentes quebras de ritmo.

A quarta faixa , “Got to Know the Woman”, é muito mais simples que suas anteriores, mas nem por isso deixa de ser uma ótima canção; é um bom rock, cujo ritmo deve muito a uma rápida e tradicional linha de piano, ao melhor estilo Jerry Lee Lewis. Já, “Deirdre”, faz o álbum retornar aos seus momentos mais marcantes, se caracterizando por ser mais uma canção de grande beleza; sua melodia é fantástica, bem como o vocal de Bruce Johnston, que é extremamente tocante. “It’s About Time” é um grande rock, dinâmico, com ótimas progressões, e mostra a altíssima qualidade de todos os integrantes da banda, visto que é mais uma daquelas raras canções dos Beach Boys cuja composição não tem a participação de Brian Wilson.

Bruce Johnston se destaca como o cara das músicas tocantes, e “Tears in the Morning” é uma de suas maiores obras; composta apenas por Johnston, a música é bastante triste, chorosa, mas igualmente bela, com backing-vocals fantásticos e uma inesperada quebra de ritmo em seu final, que culmina para um emocionante solo de piano. Já a famosa dupla compositora Brian Wilson/Mike Love aparece na oitava faixa, “All I Wanna Do”, um pop competente, uma bonita canção, mas que fica aquém das melhores composições da dupla.

“Forever” é um dos números mais fantásticos de “Sunflower”, escrita por Dennis Wilson (olha ele aí de novo) e seu amigo Gregg Jakobson; belíssima e tocante, é inclusive, para Brian, “a coisa mais harmonicamente bonita que eu já ouvi. É uma oração do rock and roll”. É uma canção de amor, somente isso, mas como os próprios Beach Boys já mostraram em outras oportunidades, nem sempre de complexidades uma grande canção é feita. Às vezes, ou melhor, em muitas vezes, é na simplicidade que está a sofisticação.

“Our Sweet Love” é mais uma bonita música, melodicamente forte, e “At My Window” é agradabilíssima, contando até com cantos de pássaros. O momento experimentalismo do álbum fico todo para a faixa final, “Cool, Cool Water”, que pode até ser descrita como dadaísta; a canção é originária das sessões do “Smile”, sendo a última música trabalhada para o álbum não-finalizado, e, naquela época, além de um arranjo diferente, tinha como título “I Love To Say Da-Da”, cujas vocalizações representariam barulhinhos de bebês.

Para descrever o álbum, várias vezes foram utilizadas a palavra “extremamente” (com algum bom adjetivo) ou até mesmo palavras no superlativo. Nisso, já se constata a grande qualidade do álbum, que, ao ser ouvida, pode ser deliciosamente contemplada. “Sunflower” é, definitivamente, um grande trabalho, que uniu vários elementos da música popular em um cenário característico da música dos final dos anos sessenta e do início dos setenta. Se nesses anos muitas coisas mudaram, e o rock se tornou maduro, fortalecido, o mesmo pode ser dito da banda The Beach Boys, que com uma maior cooperação de todos os integrantes, conseguiu lançar seu primeiro grande álbum depois de “Pet Sounds”, um disco capaz de captar a individualidade de cada um e, ao mesmo tempo, unir tudo em um trabalho de coesão indiscutível.

NOTA: 9,3

Track List:

01. Slip on Through (D. Wilson) [02:17]

02. This Whole World (B. Wilson) [01:56]

03. Add Some Music to Your Day (B. Wilson/Knott/Love) [03:34]

04. Got to Know the Woman (D. Wilson) [02:41]

05. Deirdre (Johnston/B. Wilson) [03:27]

06. It’s About Time (D. Wilson/C. Wilson/Burchman/Al Jardine) [02:55]

07. Tears in the Morining (Johnston) [04:07]

08. All I Wanna Do (B. Wilson/Love) [02:34]

09. Forever (D. Wilson/Jakobson) [02:40]

10. Our Sweet Love (B. Wilson/C. Wilson/Al Jardine) [02:38]

11. At My Window (B. Wilson/Al Jardine) [02:30]

12. Cool, Cool Water (B. Wilson/Love) [05:03]

Download

Anúncios

2 opiniões sobre “1970: Sunflower – The Beach Boys”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s