2012: Blunderbuss – Jack White

Blunderbuss

Por: Renan Pereira

Ao iniciar sua carreira solo, Jack White se credencia a ser um dos principais nomes do cenário musical atual. O músico, que teve seus momentos de maior sucesso ao lado de sua ex-esposa, Meg White, no projeto The White Stripes, e já tocou nas bandas The Raconteurs e The Dead Water, é, sem dúvida, um dos mais talentosos de sua geração. Desde o início do White Stripes, lá nos anos noventa, Jack já mostrava capacidade para grandes criações, trazendo, para um som alternativo, bem garageiro, todas as ideias clássicas do blues.

Co-autor, ou até mesmo autor principal de alguns dos melhores trabalhos dos últimos tempos (o talento de sua ex-esposa sempre foi discutido), Jack é uma daquelas figuras necessárias para o rock atual. O White Stripes foi responsável por influenciar uma nova geração inteira de roqueiros, incluindo bandas e músicos que voltaram a ter a percepção de catar, do passado, os elementos necessários para fazer, com brilhantismo, a música do futuro. Se hoje o rock continua a crescer e se reinventar, um dos grandes culpados é Jack White.

Mas, em seu primeiro álbum solo, o cara tratou de nos surpreender novamente. Não por coisas novas, pois “Blunderbuss” apresenta pouco – ou quase nada – de inovações, e seu som é muito parecido com o que seu criador vem fazendo nos últimos tempos. Mas nem sempre as surpresas vem de inovações… Tanto que Jack mostra estar se embebedando cada vez mais em referências clássicas, sejam elas de trinta ou até mesmo sessenta anos atrás. Revisitando muitos elementos que ajudaram a construir a música norte-americana, em todo o século passado, Jack nos apresentou um trabalho capaz de flertar intensamente com blues e country music, mas tudo dentro dos mesmos espírito e cenário alternativo que ele tem vivido desde o início de sua carreira musical.

O que se esperava de “Blunderbuss” foi cumprido. Foram dois anos de trabalho, e pelo jeito todo o tempo gasto valeu a pena. Alojado em seu estúdio, Jack mostrou ter absorvido tudo o que de melhor fez em sua carreira, e experiente como nunca, nos traz um disco que certamente se destaca como um dos mais competentes que ele já fez. Tudo começa com “Missing Pieces”, que de tecladas minimistas cresce para se tornar um blues-rock fortíssimo; não há muito de guitarra, a canção é desenvolvida bastante em cima de teclados, mas quando o solo aparece, os riffs se mostram impregnantes.

Para os mais saudosistas fãs do White Stripes, “Sixteen Saltines” traz toda a energia existente nos trabalhos da extinta dupla; os riffs são sensacionais, com arranjos pesados que nos trazem de volta toda aquela pegada garageira dos primeiros trabalhos do músico. “Freedom at 21” pode até soar estranha no começo, mas acaba se desenvolvendo como um blues-rock moderno e impecável, com guitarras fortes e de criatividade absurda; os vocais também são interessantíssimos, com o timbre característico de White em uma de suas melhores performances. Se muitos ainda consideravam Jack White um músico superestimado, o próprio trata de espantar qualquer pingo de desconfiança logo no início do álbum, que vai demonstrando ser de alta qualidade.

“Love Interruption” é uma canção de amor, triste como só ela pode ser, com uma letra doída que mostra a enorme evolução que White tem vivido como compositor; de belíssima melodia, a canção se credencia a ser uma das melhores do álbum, contando com instrumento de sopro e com uma mágica segunda voz feminina. Talvez o corvo no ombro e a expressão carrancuda de Jack White na capa do álbum queiram demonstrar um homem triste, ainda machucado pela separação com sua segunda esposa, Karen Elson. Se as letras tristes de “Blunderbuss” se referem mesmo ao recém quebrado relacionamento do músico não sabemos dizer, e realmente, aliás, não nos cabe dizer… mas que White está afiado, ah, isso está! Suas melhores letras sempre foram aquelas que se referiam ao sexo feminino, e parece que, desta vez, esta qualidade só aumentou. Se este olhar de White é triste, pêsames para ele – mas bom para os ouvintes, que ganham um material de apreciável beleza.

A faixa título é a quinta, inspiradíssima em country, e lindamente construída em piano e violão. Piano, aliás, é o que não falta na fantástica “Hypocritical Kiss”, que conta com arranjos maravilhosos, e mostra a aproximação cada vez maior de White ao clássico. Belíssimos arranjos também aparecem na sétima faixa, “Weep Themselves to Sleep”, que contém interações piano/guitarra inspiradíssimas, e que ajudam a perfazer uma das canções mais brilhantes deste álbum. Das seguintes, “I’m Shakin'” e “Trash Tongue Talker”, se ouve mais dois fortíssimos blues-rock, que continuam a mostrar todo o especial talento de Jack White. Com isso, “Blunderbuss” vai se desenvolvendo com uma coesão absurda, onde nenhuma faixa se mostra desconexa ou desencontrada; todas acabam se completando.

“Hip (Eponymous) Poor Boy” é uma daquelas músicas que vinte anos atrás você jamais imaginaria (e daria risada de quem imaginasse) que Jack White faria; de influências absolutamente clássicas, com um espírito folclórico, a canção pode aterrissar no folk-rock dos anos sessenta, ou até mesmo em tempos anteriores – e isto é prova do quão maduro e seguro é o Jack White de hoje, capaz de reviver elementos antigos sem deixar que sua música soe estranha ou desconexa com a realidade atual. Assim também é a igualmente ótima “I Guess I Should Go to Sleep”, que arrasa nos arranjos, com um instrumental impecavelmente perfeito.

“On and On and On” seria um bom título para algumas canções de melodia preguiçosa que tem sido lançadas, mas Jack White o trata bem, deixando-o para uma canção pulsante, de bela melodia, com arranjos que novamente merecem um destaque especial. “Take Me with You When You Go”, assim como a faixa anterior, é melodicamente fortíssima, mas com um diferencial: se aventura um pouco mais; apesar de se inciar simples, aos poucos vai pegando o ouvinte de calças curtas, com riffs audaciosos alocados em um alicerce country-rock. Uma ótima faixa final para “Blunderbuss”, visto que o álbum é, realmente, surpreendente. Não reinventa a roda, mas pode ter certeza que a deixa ainda mais perfeitamente redonda.

E “Blunderbuss” é, deste modo, um trabalho que prova que, para surpreender, não é extremamente necessário se construir coisas absurdamente novas. O álbum tem muito de rock clássico, boas pitadas de The Raconteurs e White Stripes, mas, acima de tudo, mostra um músico que, ainda curtindo o ápice de sua criatividade, se encontra numa fase de total confiança. Mas tudo tem uma lógica, visto que, mesmo ainda sendo considerado “da nova geração”, sua carreira já chega aos vinte anos. E, se for pra continuar assim, surpreendendo a cada trabalho, que venham mais vinte, quarenta, que todo mundo agradecerá.

Com seu talento inconfundível e bem-vindo, Jack White construiu um disco de brilhantismo e coesão, sabendo alocar (e reinventar) elementos do passado para o seu mundo e a realidade de sua música, que apesar de ter chegado ao mainstream, sempre teve uma proeminente veia alternativa. “Blunderbuss” é, com isso, um álbum fenomenal, uma consistente coleção de ótimas canções, mas talvez a principal ideia que se tira, ao ouvi-lo, é a certeza de termos um grande nome para ajudar a moldar e a dar um diferencial para o cenário atual. E esse nome é Jack White.

NOTA: 8,6 

Track List: (todas as faixas compostas por Jack White, exceto a 8)

01. Missing Pieces [03:27]

02. Sixteen Saltines [02:37]

03. Freedom at 21 [02:51]

04. Love Interruption [02:38]

05. Blunderbuss [03:06]

06. Hypocritical Kiss [02:50]

07. Weep Themselves to Sleep [04:19]

08. I’m Shakin’ (Rudy Toombs) [03:00]

09. Trash Tongue Talker [03:20]

10. Hip (Eponymous) Poor Boy [03:03]

11. I Guess I Should Go to Sleep [02:37]

12. On and On and On [03:55]

13. Take Me with You When You Go [04:10]

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