1966: Pet Sounds – The Beach Boys

Por: Renan Pereira

“Marilyn, eu vou fazer o maior álbum! O maior álbum de rock já feito!”… Estas foram as palavras de Brian Wilson para a sua esposa, após ouvir e analisar o fantástico conjunto de músicas do “Rubber Soul”, emblemático álbum dos Beatles. Segundo o próprio Brian, ele “realmente não estava completamente pronto para tamanha unidade. Parecia que todas as músicas se pertenciam. Rubber Soul foi uma coleção de canções … que de alguma forma estavam unidas como nenhum álbum já feito antes, e fiquei muito impressionado. Eu disse, ‘É isso aí. Eu realmente estou desafiado a fazer um grande álbum'”. E assim ele fez.

Após a sua decisão de parar de excursionar com a banda e se focar somente nos trabalhos de estúdio, Brian Wilson experimentou um grande amadurecimento como músico, crescendo exponencialmente como compositor e produtor. Após ter criado “Today!”, o melhor álbum dos Beach Boys até então, e encorajado pela qualidade extrema de “Rubber Soul”, ele acabou tecendo, em “Pet Sounds”,  um trabalho tido como um dos mais revolucionários e influentes da história da música popular.

Para realizar tal proeza, Wilson contactou o jovem letrista Tony Asher, que na época trabalhava apenas com jingles para publicidade. Mas, segundo o próprio Asher, seu trabalho era apenas achar as palavras certas para as ideias de Brian, servindo ele apenas como um intérprete; o verdadeiro compositor era Brian Wilson. E, realmente, “Pet Sounds” foi um trabalho quase puramente de Brian, deixando os demais membros da banda, e principalmente Mike Love, o antigo co-autor de grande parte dos sucessos do grupo, com uma contribuição mínima. O fato é que o restante da banda, após voltar de uma turnê na Ásia, ficou espantada com a complexidade da obra criada por Brian. Love, em especial, se assustou; temas simples e recorrentes nos trabalhos anteriores do grupo, como carros rápidos, garotas bonitas e praias ensolaradas, tinham sido completamente abandonados, e estes temas foram os que sempre haviam feito os sucessos dos Beach Boys.

Inegavelmente, a partir de “Today!”, e especialmente em “Pet Sounds”, a banda adentrou em uma nova era. O trabalho, que outrora era simples e divertido, começou a se tornar complexo, ambicioso, e Brian Wilson foi se tornando um gênio. Seu trabalho como produtor foi emblemático, tendo aperfeiçoado a (na época) revolucionária gravação com multi-tracks, e tornando possível, com isso,  a criação de uma atmosfera rica em detalhes, com arranjos complexos e efeitos sonoros modernos. A curiosidade é que, apesar de tamanha produção, Brian insistiu em trabalhar em mono, tendo como principal razão o motivo de ele ser praticamente surdo do ouvido direito. Por isso, para o ouvinte mais purista, que queira ouvir o álbum como exatamente foi planejado, a versão mono é a mais pedida; mas a versão em stereo, que enriquece ainda mais a rica atmosfera criada por Brian, é realmente imperdível.

Com isso, “Pet Sounds”, junto com “Revolver”, “The Pipper at the Gates of Dawn” e “The Psychedelic Sounds of the 13th Floor Elevators”, foi um dos trabalhos que auxiliaram na incrível evolução sonora alcançada pela música popular nos anos sessenta, ajudando o rock a adentrar na tão rica e importante era psicodélica. Com uma mente brilhante, e algumas doses de LSD para enfervecer a criatividade, Brian Wilson foi capaz de utilizar, em conjunto a arranjos elaborados e complexas orquestrações, efeitos sonoros e instrumentos não convencionais no rock, como órgãos, cravos, flautas, teremins, apitos para cães, latidos, sinos de bicicleta e até garrafas de refrigerante. Tal “maluquice” acabou se mostrando altamente lúcida, e com o auxílio das novas técnicas de estúdio, capazes de criar várias camadas de sons, o ambiente sonoro de “Pet Sounds” se mostrou altamente inovador, rico como em nenhum álbum antes dele havia sido.

As seções de gravação para o álbum nem foram assim tão longas, mas por se tratar de Brian Wilson, um sujeito completamente perfeccionista, elas se mostraram intensas, ocupando os pensamentos do seu criador e de seus co-produtores durante meses. Tudo começou com “Sloop John B”, uma música folclórica caribenha, trabalhada a pedido de Al Jardine, e com “Good Vibrations”, uma complexa canção, que, em todo tempo, acreditou-se que entraria no álbum. Porém “Good Vibrations” acabou sendo deixada para depois, pois Brian achou que ela deveria ainda ser melhor trabalhada; ficaria para o próximo trabalho, que viria a ser (ou deveria vir a ser) o eternamente adiado “Smile”. Sem “Good Vibrations”, acabaram sendo os grandes singles do disco “Wouldn’t It Be Nice” e “God Only Knows”.

É com “Wouldn’t It Be Nice”, aliás, que “Pet Sounds” se inicia. A música é espetacular, explosiva, um turbilhão instrumental, contendo a participação efetiva de órgãos, harpas, bandolins, saxofones e acordeão, em conjunto aos tradicionais baixo, guitarra e bateria. Apesar de animada, de todo o espírito “up” desenvolvido pelos riquíssimos arranjos, a letra fala das frustrações da juventude – e é nesta tônica que todo “Pet Sounds” é conduzido. Ao contrário de outros trabalhos marcantes da época, em especial “Sgt. Pepper’s”, onde os Beatles olharam para o mundo e decidiram expor temas extrospectivos, “Pet Sounds” mergulha profundamente no íntimo de seu criador maior, mostrando suas incertezas e tristezas. É de se destacar também, na primeira faixa, a complexa estrutura da canção, contando com perfeitas e surpreendentes quebras de ritmo, além de, é claro, apresentar as harmonias vocais tão famosas da banda.

A segunda faixa é a espiritual “You Still Believe in Me”, que segundo Tony Asher, “composicionalmente encarna a maneira única em que Brian escreve sua música. Em certo sentido, Brian criou uma nova forma de utilização da escala. Suas progressões estão sempre indo para cima, então pausando antes de crescer novamente, como se elas estivessem indo em direção a Deus”. E realmente a progressão de escalas utilizada em muitas das canções de “Pet Sounds” foi revolucionária, ajudando a construir as bases para o rock progressivo, que viria a encontrar seu apogeu anos depois. Para se ter uma noção aproximada da complexidade sonora utilizada no álbum, ainda segundo Asher, para conseguir o som único na introdução desta faixa, “um de nós teve que entrar na piano para vibrar as cordas, enquanto o outro cara tinha que estar no teclado pressionando as notas para que elas tocassem”.

“That’s Not Me” se diferencia das demais canções do álbum, mas isso não a afasta do sumo revolucionário de “Pet Sounds”. Esta faixa é um característico rock psicodélico, contendo a forte presença de um órgão vibrante, e com uma estrutura até certo ponto minimalista, com harmonias mais tímidas, subversivas… mas vanguardistas. “Pet Sounds” foi lançado antes de todos os outros álbuns que moldaram o rock psicodélico, e por isso, uma canção tão proeminente do gênero, com todas as características essenciais desenvolvidas, é mais um dos pontos fortes deste álbum, que, na verdade, pontos fracos não tem.

A melancólica “Don’t Talk (Put Your Head on My Shoulder)” é, sem dúvida, uma das performances vocais mais belas e impressionantes já feitas por Brian Wilson. Segundo ele mesmo, esta é “uma das canções mais doces que eu já cantei. Tenho que dizer que estou orgulhoso. A inocência da juventude em minha voz, de ser jovem e infantil… Acho que é o que as pessoas gostaram”. Como muitas das canções do disco, ela se aprofunda numa visão triste e introspectiva sobre um romance em ruínas. As orquestrações também são belíssimas, e perfazem um dos arranjos mais encantadores do álbum.

“I’m Waiting for the Day” é uma canção altamente dinâmica, cuja estrutura pode ser explicada pelas palavras de Carl Wilson, que a tinha como uma das prediletas no álbum. Segundo ele, “a introdução é muito grande, então, com o início do vocal, a música fica muito pequena, com uma instrumentação tímida, e depois, no refrão, ficando muito grande novamente, com as harmonias de fundo contra o vocal principal”. Ela é, realmente, um espetáculo instrumental, repleta de quebradas e requebradas de ritmo e variações de velocidade, construída sob uma base de alta complexidade. É louvável também a melodia principal, amparada por uma belíssima interpretação de flauta.

A sexta é a instrumental “Let’s Go Away for Awhile”, e mais uma vez temos um espetáculo. Esta grandiosa música é, para Brian Wilson, “a parte mais gratificante da música que eu já fiz. Apliquei um certo conjunto de dinâmicas através do arranjo, e tem uma extensão total que eu tinha planejado durante as primeiras fases da temática. Eu acho que as mudanças de acordes são muito especiais.  Usei um monte de músicos na faixa: doze violinos, piano, quatro saxes, oboé, vibrações, e uma guitarra com uma garrafa de Coca sobre as cordas, para ter um efeito semi-acústico. Além disso, eu usei dois contrabaixos e percussão, e o efeito total é “Let’s Go Away for Awhile” (em português, “Vamos embora por algum tempo”), que é algo que todos no mundo devem ter dito em algum momento. Um pensamento interessante; a maioria de nós não desaparece realmente, mas ainda é um pensamento agradável”. Com tamanha qualidade nos arranjos, só há de se concordar com Brian – é um dos melhores instrumentais já feitos pelos Beach Boys.

Para fechar a primeira parte do álbum, e consequentemente, o Lado A do LP, temos a sétima faixa, “Sloop John B”, um cover de uma antiga canção folk. Gravada para o Pet Sounds a pedido do guitarrista Al Jardine, a canção, nesta versão, acabou tendo a letra parcialmente modificada por Brian Wilson, para se adaptar melhor ao conceito do álbum e à época. Brian também trabalhou nos arranjos, transformando uma antiga e simples cantiga num dos números mais complexos do álbum. Em suma, o instrumental é magnífico, com uma grandes performances de baixo e bateria, e as harmonias vocais dando um ar sofisticado à versão.

A oitava é a fantástica “God Only Knows”. É uma canção de amor, apenas isso, mas acima de tudo, é extremamente bela. Uma das mais belas já feitas, ou, até mesmo, a beleza em forma de música. Ela não é apenas capaz de encantar Paul McCartney, de reduzi-lo a lágrimas, de fazer Bono afirmar que seu arranjo é a prova dos anjos… é capaz de encantar todo ouvinte em toda audição. Contém um arranjo de cordas de extremo bom gosto, infinitamente belo e espiritual, e é, sem um pingo de dúvida, uma das melhores canções de todos os tempos. Não é a mais complexa das músicas dos Beach Boys, e sequer é a mais complexa do álbum, mas nem tudo é feito apenas de técnica. Ela é tocante, feita com alma e para atingir almas.

“I Know There’s an Answer” é uma canção altamente influenciada por LSD, psicodélica como ela só. Antes, nas sessões de gravação, havia sido chamada de “Let Go of Your Ego”, algo que traduzindo pode soar como “Deixe o seu ego para lá”. Isso remete a drogas, ao uso de alucinógenos, pois o jargão na época era que altas doses de LSD quebrariam com o ego das pessoas. A letra inicial da canção até teve que ser mudada, em função de divergências entre os componentes da banda sobre as citações alucinógenas. Mas, enfim, apesar dos pesares, ela não acaba devendo em nada às demais canções do álbum; é pulsante, com um forte vocal, e contendo arranjos vanguardistas, de onde se ouve, inclusive, banjo e gaita-baixo.

A melodramática “Here Today”, com seus arranjos maravilhosos, pode ser considerado o ápice técnico do “Pet Sounds”. Inspiradíssima em músicos barrocos, ela mostra a aproximação de Brian Wilson a Bach, sendo a estrutura da canção, com surpreendentes quebras instrumentais, uma das mais audaciosas coisas feitas pelos Beach Boys. Bruce Johnston chegou até mesmo a afirmar, na época, que nesta canção Brian estava “redefinindo a palavra brilhante”.

Já, “I Just Wasn’t Made for These Times”, retrata o psíquico perturbado de Brian Wilson, com ele pensando estar em uma época errada, pois estava muito avançado para seu tempo. Ele mesmo disse que a música era “sobre um cara que estava gritando, porque ele achava que era muito avançado, e que acabará por ter de deixar pessoas para trás. E todos os meus amigos achavam que eu era louco para fazer ‘Pet Sounds'”. Harmonicamente, esta é uma das faixas mais impressionantes do álbum, pois os arranjos vocais são especialmente fortes e densos, criando uma atmosfera capaz de retratar o processo de insanidade do personagem; e, por ironia (ou não) do destino, Brian viria a sofrer com problemas mentais.

A instrumental “Pet Sounds” é um número psicodélico, capaz de levar o ouvinte dos arranjos complexos do “Pet Sounds” aos riffs litorâneos dos primeiros trabalhos do grupo, e vice-versa. Enquanto ainda se viaja, “Caroline, No” se inicia, tímida, e vai crescendo como uma canção melodicamente triste, uma bonita balada repleta de arranjos elaborados e de influências de jazz (existentes, na verdade, em praticamente todo o álbum). Ao final, ouve-se um trem passando e latidos de cachorro – e ora, ora, aí estão os sons de animais, ou, em inglês, “pet sounds”.

Definitivamente, este é um texto grande, talvez até mesmo longo demais. Mas é um texto grande para um álbum grande. Pode parecer que sobram palavras para descrever as canções de “Pet Sounds”, mas, na verdade, elas faltam. Para descrever totalmente o álbum talvez fosse necessário um livro de inúmeras páginas, ou até mesmo ele seja impossível de descrever somente com palavras. Fala-se muito, escreve-se muito, mas na realidade, o importante é sentir; para conhecer “Pet Sounds”, é preciso senti-lo.

NOTA: 10,0

Track List:

01. Wouldn’t It Be Nice (B. Wilson/Asher/Love) [02:25]

02. You Still Believe in Me (B. Wilson/Asher) [02:31]

03. That’s Not Me (B. Wilson/Asher) [02:28]

04. Don’t Talk (Put Your Head on My Shoulder) (B. Wilson/Asher) [02:53]

05. I’m Waiting for the Day (B. Wilson/Love) [03:05]

06. Let’s Go Away for Awhile (B. Wilson) [02:18]

07. Sloop John B (tradicional/versão: B. Wilson) [02:58]

08. God Only Knows (B. Wilson/Asher) [02:51]

09. I Know There’s an Answer (B. Wilson/Sachen/Love) [03:09]

10. Here Today (B. Wilson/Asher) [02:54]

11. I Just Wasn’t Made for These Times (B. Wilson/Asher) [03:12]

12. Pet Sounds (B. Wilson) [02:22]

13. Caroline, No (B. Wilson/Asher) [02:51]

Download

Anúncios

2 opiniões sobre “1966: Pet Sounds – The Beach Boys”

  1. Mais uma crítica fantástica para um álbum fantástico! Vou te confessar que estava pensando em criar um blog de música enfocando em álbuns que eu considero “clássicos” para divulga-los mais nesses tempos que a música é encarada de forma tão descartável, ainda mais em nossas terras. Entretanto, após as belíssimas análises que estou lendo nessa noite, estou até duvidando de minha capacidade! Hahaha! Muito bom trabalho e no aguardo de novos posts.

    1. Obrigado 🙂

      É com os comentários, sejam eles repletos de elogios ou com críticas construtivas, que a gente se sente abastecido para continuar a escrever. Agradeço a leitura e espero que os textos que estão por vir continuem a lhe agradar. Um abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s