2012: Black Heart – Dinho Ouro Preto

Por: Renan Pereira

“Black Heart” é o terceiro álbum solo de Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial. Os dois primeiros haviam sido lançados lá nos anos noventa, mais precisamente em 94 e 95, quando ele havia rompido com a sua banda. Foram trabalhos obscuros, pouco vendidos, e, por isso, pouco conhecidos pelo público em geral. O álbum de agora, muito diferente, contém versões do cantor para grandes canções do rock, das mais diferentes épocas e dos mais diferentes artistas. O track list é maravilhoso, realmente abrangente, porém o álbum não consegue acompanhar a qualidade das canções… Mas como isso pode acontecer?

Um dos motivos é a voz de Dinho, que não vive a sua melhor fase. É claro que muitas coisas podem ter a afetado, principalmente o recente (e grave) acidente sofrido pelo cantor; é muito bom poder vê-lo bem, com saúde e com a carreira ainda à toda, mas realmente seu alcance vocal atual não passa do medíocre. Não que ele já tenho sido um vocalista fantástico algum dia, mas dias melhores ele, definitivamente, já teve.

A produção de “Black Heart” também deixa muito a desejar. O álbum parece ter sido feito às pressas, de qualquer jeito, sem grandes preocupações estéticas, contendo arranjos muito pobres, pouquíssimo trabalhados. Ele soa triste, melancólico, sem energia e de uma artificialidade absurda. Se em “Black Heart” Dinho pensou em passar ao ouvinte qualquer tipo de emoção, seu erro foi gigantesco.

A primeira faixa é “Hallelujah”, clássico de Leonard Cohen, uma das mais belas músicas já compostas na história, realmente fantástica… que na versão de Dinho Ouro Preto perde totalmente o seu brilho; a voz de Dinho é realmente inconstante, extremamente insegura, construindo uma performance ridícula, ainda mais ao compará-la à magnífica versão que Jeff Buckley fez para esta canção. A segunda faixa é outro clássico, “Dancing Barefoot”, de Patti Smith, e outra canção que não combina em nada com Dinho Ouro Preto; se ele segura bem as pontas no Capital Inicial, isso não pode ser falado quanto a clássicos do rock.

“Nothing Compares 2 U” é uma composição de Prince, que fez muito sucesso no final dos anos oitenta na voz da irlandesa Sinéad O’Connor; em comparação com as duas primeiras faixas, esta até soa melhor, e por ser uma música mais simples, acaba exigindo menos de Dinho e do instrumental, dois pontos fracos deste disco. Instrumental este, aliás, que tira todo o brilho de “Lovesong”, grande canção do The Cure, fazendo-a perder toda sua emoção; quanto à performance vocal nem se precisa falar muito – é só compará-la à versão original, ou ainda, à belíssima versão de Adele para o álbum “21”. Entra música, sai música, e em “Black Heart” Dinho continua a decepcionar.

Até Nick Cave foi lembrado por Dinho, com a linda “(Are You) The One That I’ve Waiting For”; o vocalista do Capital não consegue alcançar notas decentes, sua voz se mostra rouca quando não precisa, mas mesmo assim essa é a faixa “mais audível” do disco – o belo riff de guitarra é bem executado, deixando a voz de Dinho em segundo plano. A sexta é uma versão da não tão conhecida banda The Raconteurs, de Jack White, com a canção “Steady, As She Goes”; a música é legal, mas os arranjos da versão de Dinho são falhos, e mais uma faixa acaba passando sem que muita coisa positiva tenha sido captada pelo ouvinte.

Até aí tudo bem, versões fracas de boas músicas, mas um trabalho válido; Dinho talvez esteja querendo levar um pouco de boa música aos ouvidos dos fãs de Capital Inicial, e isto é uma atitude louvável… Mas Elvis? Poxa, Dinho, você poderia ter deixado o Elvis longe dessa, hein? A sétima faixa é a clássica “Suspicious Minds”, e é desejável pensar que esta ridícula versão não deve ser levada a sério. E sobrou até pro Eddie Vedder, que é lembrado por Dinho com “Hard Sun”; é mais uma faixa que em nada combina com o estilo de Dinho, mas pelo menos não é das mais inaudíveis do álbum.

O rock alternativo brasileiro, principalmente o oitentista, sempre foi muito influenciado por The Smiths; o álbum “The Queen Is Dead” é clássico, um marco para o gênero, e a dupla Morrissey/Johnny Marr, sem dúvida, também foi uma das grandes influências do Capital. Talvez por isso “There Is a Light That Never Goes Out” esteja em “Black Heart”… mais uma performance fraca, é verdade, mas como se trata de uma influência de Dinho, tudo bem – é apenas isto não chegar aos ouvidos do pobre Morrissey que tudo ficará certo. O Muse também é lembrado, com “Time Is Running Out”, mas a performance artificial, sem emoção e sem nenhuma energia, fica muito aquém para a qualidade da canção e do vocal de Matthew Bellamy. Ainda há a ótima “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division, em mais uma versão sem brilho.

O título da última faixa do álbum fala tudo: “Being Boring”. Apesar de ser um disco com ótimas canções, “Black Heart” se caracteriza como um trabalho fraquíssimo, um pouco trabalhado álbum de covers, feito apenas para ser feito. Não acrescenta em nada, e muito pelo contrário, só traz pontos negativos à carreira de Dinho Ouro Preto, que se apresenta sem brilho e com uma voz ruim. Os instrumentais também são fracos, preguiçosos, e por isso uma canção cuja tradução é “sendo chato” condiz exatamente com o que se sente ao ouvir este trabalho. Uma versão acústica de Pet Shop Boys dá acordes finais, com melancolia, a este disco.

Dinho Ouro Preto merece respeito. Ele não é um gênio, não é um grande cantor, e sequer um grande compositor, mas a sua banda é uma das poucas oitentistas que resistiram no rock brasileiro. É verdade que o som do Capital cada vez mais tem se aproximado do pop, mas vem mantendo uma certa consistência, mesmo que com trabalhos mais comercias. Há do que se reclamar, mas o Capital Inicial merece, acima de tudo, respeito.

E “Black Heart”, o novo álbum solo do Dinho, é sim um trabalho fraquíssimo, sem nenhum brilho, mas poder ouvi-lo cantando, mesmo que com muita insegurança, depois daquele terrível acidente, já é algo muito positivo. E, no fim das contas, há um grande track list.

NOTA: 2,5

Track List:

01. Hallelujah (Leonard Cohen) [04:12]

02. Dancing Barefoot (Patti Smith/Ivan Kral) [04:46]

03. Nothing Compares 2 U (Prince) [05:13]

04. Lovesong (Simth/Gallup/O’Donnell/Thompson/Tolhurst/Williams) [03:28]

05. (Are You) The One That I’ve Been Waiting For (Nick Cave) [03:45]

06. Steady, As She Goes (Jack White/Brendan Benson) [03:09]

07. Suspicious Minds (Mark James) [03:26]

08. Hard Sun (Eddie Vedder) [04:00]

09. There Is a Light That Never Goes Out (Morrissey/Johnny Marr) [03:29]

10. Time Is Running Out (Matthew Bellamy) [04:12]

11. Love Will Tear Us Apart (Ian Curtis/Peter Hook/Stephen Morris/Bernard Summer) [03:24]

12. Being Boring (Neil Tennant/Chris Lowe) [04:47]

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