2012: MDNA – Madonna

Por: Renan Pereira

Por mais que ela seja a rainha do pop, a carreira de Madonna não tem sido, nos últimos anos, daquelas muito constantes. A entrada da cantora na década passada ocorreu com o competente álbum “Music”, de 2000, e tudo parecia que continuaria como nas décadas de oitenta e noventa; não teria pra ninguém, e Madonna dominaria a cena pop mundial. Mas depois, em 2003, veio o muito criticado “American Life”, e as coisas pareciam que desandariam de uma vez… Até vir à luz o consistente “Confessions on the Dancefloor”, de 2005, e mostrar que a rainha do pop continuava forte como nunca.

Porém “Confessions” foi o último álbum digno do título monárquico que Madonna tem. “Hard Candy”, de 2008, foi um álbum fraco, aproximando Madonna do restante da cena pop atual – o que é um desperdício, visto que ela sempre foi uma mestra para as cantoras. Eis que Madonna então adentra na década atual com uma nova casa e novas ideias; “MDNA” é o primeiro álbum da cantora, desde o início da sua carreira, que não tem a Warner como gravadora. Agora na Interscope, a cantora parece ter procurado se infiltrar ainda mais nos elementos pop atuais.

É como se tudo o que você já tenha ouvido de Madonna tenha sido revisto. Os refrões poderosos sumiram, a sonoridade simples e dançante deu lugar a uma viagem pelo que há de mais moderno na música eletrônica atual, e o que antes era puro sangue e carne parece ter se tornado frio e robótico. O fraco single “Give Me All Your Luvin'” já alertava para um álbum pouco empolgante, repleto de  modinhas e superficialidades, inclusive contando com as participações de duvidosa qualidade de M.I.A. e Nicki Minaj. Mas, felizmente, houve alguma surpresa positiva, e o álbum, apesar de ser um dos mais fracos da carreira de Madonna, não se mostrou tão entristecedor quanto o seu primeiro single.

Mesmo em um dos momentos menos brilhantes de sua carreira, Madonna ainda é capaz de dar verdadeiras lições sobre a música pop. Em “MDNA”, a grande lição é: “independente de quando ou onde você está, tenha personalidade”. Por mais que ele não empolgue, não se pode negar que Madonna acreditou muito no projeto, e lhe dedicou todas as suas forças; apesar de o tempo continuar passando, e de Madonna não ser mais aquela musa sex symbol de tempos atrás, sua música continua atraente, provocante… e nisso (pelo menos nisso) nada se mostra tão mudado. A personalidade dela está lá, apesar de meio maquiada por tantas firulas, e Madonna, mesmo não construindo um grande disco, continua a ser um dos fortes nomes da música.

“MDNA” abre com a razoável “Girl Gone Wild”, bem escolhida para single; apesar de não ser uma grande canção, ficando muito longe dos maiores clássicos da cantora, é uma música pulsante, radiofônica e de fácil recepção (ou seja, uma faixa válida para um álbum pop). Já a segunda faixa, “Gang Bang”, é bastante ruim, maltratando os ouvidos dos que se acostumaram a ouvir a cantora em grandes performances; a música é irritante, não tem nenhum dinamismo, e sua linha vocal é pífia, talvez a mais preguiçosa que Madonna já tenha cantado. A musicalidade eletrônica e minimalista de grande parte das canções, inclusive da terceira, “I’m Addicted”, deve causar estranheza aos ouvintes, que não esperavam ver Madonna fazendo algo próximo a um dubstep. O álbum soa muito diferente, estranho, e o ouvinte que queira se acostumar com ele deverá gastar um bom tempo para isso.

“Turn Up The Radio” é legal e vale a pena ser ouvida, pois, sem dúvida nenhuma, é uma das melhores canções do álbum; nela, o vocal de Madonna está como nos velhos tempos, bem como a melodia – se não é algo extremamente incrível, traz uma produção menos errônea, que conseguiu utilizar de forma bem mais convincente as firulas eletrônicas. A quinta é o tal primeiro single, “Give Me All Your Luvin'”, uma música inspirada em cheerleaders, e que conta as estranhas e já citadas participações especiais; é inegável que não se trata de uma grande canção, algo muito pequeno para uma cantora chamada de “rainha do pop”, e que mergulha profundamente nos elementos das músicas da moda – mas o pior de tudo ainda são os rappings. Infelizmente, “MDNA” pouco acrescenta à música pop atual, pois, simplesmente, acaba seguindo o mesmo caminho.

“Some Girls” também é ruim, melodicamente muito pobre, e com uma atuação vocal muito fraca, até mesmo por ficar escondida por trás de tantos sonzinhos irritantes. Tudo bem que Madonna tem condições, e por isso pode, com todo o direito, fazer um álbum super-produzido… mas exagerar nos modismos nunca havia sido uma marca dela. Em “Superstar”, pelo menos, a produção faz um trabalho competente, trabalhando bem uma boa melodia e dando o espaço necessário para a voz  de Madonna (mas, apesar disso, ouve-se mais uma atuação vocal decepcionante). “I Don’t Give A” é estranhíssima, soa como uma tentativa (mal-sucedida) de misturar o hip-hop de hoje com o som clássico de Madonna, resultando em uma faixa que só acrescenta ao álbum pontos negativos; em suma, é uma música sem-rumo, que vaga por muitas bizarrices e acaba por não chegar a lugar nenhum. “I’m a Sinner” é mais consciente, contendo um certo dinamismo que foi esquecido na maior parte das faixas do “MDNA”; no álbum, é uma das mais fortes, apesar de não estar no mesmo nível das melhores canções já gravadas por Madonna.

Aqui o álbum começa, felizmente, a caminhar por um terreno mais firme, onde certas estranhezas e experimentalismos desnecessários são deixados para trás. “Love Spent” é uma ótima música, que traz um pouco do bem conhecido e tradicional dance de Madonna, e que contém uma letra intrigante, parecendo trazer de volta, de tempos atrás, aquela compositora de letras afiadas. A seguinte, a romântica e orquestrada “Masterpice”, é uma das mais belas canções já escritas por Madonna, contendo uma letra poética, e que acaba por acrescentar mais um belo número ao catálogo de canções românticas da rainha do pop. É “Falling Free” que dá números finais ao “MDNA”, e, felizmente, com mais uma belíssima faixa desta surpreendente parte final; se o álbum não é nenhuma maravilha, ele pelo menos fecha com conceito máximo, com uma última faixa perfeita, melódica, orquestrada, e lindamente interpretada. Inegavelmente, Madonna pode, mesmo em seus momentos menos inspirados, realizar grandes feitos.

“MDNA” tem músicas péssimas, ruins, razoáveis, boas e ótimas, assim como os álbuns mais recentes de cantoras como Britney Spears, Katy Perry e Lady Gaga; é por isso, justamente, que acaba ficando uma maior crítica. Madonna sempre foi conhecida por ser bastante visionária, conseguindo prever sempre o que faria sucesso nos próximos anos, e, trabalhando nisso, acabava por ser uma das artistas mais influentes do mundo. Mas, agora, o que se vê é uma Madonna não influenciando, e sim sendo influenciada.

É claro que ninguém quer mais um “First Album” ou um “Like a Prayer”, afinal os tempos são outros, e pedem outras coisas. Mas desconfigurar um estilo tão marcante é um erro; Madonna é uma artista de um estilo consagrado, já conhecido por todo mundo, e se entregar com tudo às atualidades, que algumas vezes soam tão infundadas, parece não ser a ideia mais bem pensada. Uma rainha que se preze sempre ouve o que o povo lhe diz, mas a sua autoridade é maior. No pop, Madonna sempre deu as ordens, mas agora parece estar com mais vontade de recebê-las; infelizmente, essa cantora que apenas segue o que se tem feito pouco se parece com a Madonna dos áureos tempos.

Com isso, apesar de não ser um trabalho de todo ruim, com algumas belas canções, o “MDNA”, infelizmente, e talvez por ironia, distorceu o que se conhecia da genética musical de Madonna. Às vezes exigimos demais, até mesmo de artistas já há muito consagrados, mas porque é justamente destes que esperamos trabalhos marcantes. E assim não é com o “MDNA”, que se caracteriza por ser apenas mais um.

NOTA: 6,0

Track List:

01. Girl Gone Wild (Madonna/Vaughan/A. Benassi/B. Benassi) [03:43]

02. Gang Bang (Madonna/Orbit/Hamilton/Harris/Jean-Baptiste/Mika/Casanova/Kozmeniuk) [05:26]

03. I’m Addicted (Madonna/A. Benassi/B. Benassi) [04:33]

04. Turn Up the Radio (Madonna/Solveig/Tordjman/Williams) [03:46]

05. Give Me All Your Luvin’ (Madonna/Solveig/Minaj/Arulpragasam/Tordjman) [03:22]

06. Some Girls (Madonna/Orbit/Åhlund) [03:53]

07. Superstar (Madonna/Indiigo/Malih) [03:55]

08. I Don’t Give A (Madonna/Solveig/Minaj/Jabre) [04:19]

09. I’m a Sinner (Madonna/Orbit/Jean-Baptiste) [04:52]

10. Love Spent (Madonna/Orbit/Jean-Baptiste/Hamilton/Whyte/Buendia/McHenry) [03:46]

11. Masterpiece (Madonna/Frost/Harry) [03:59]

12. Falling Free (Madonna/Mayer/Orbit/Henry) [05:13]

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