1965: Today! – The Beach Boys

Por: Renan Pereira

Quando se fala de Beach Boys, se fala de uma das bandas mais espetaculares da história da música. Desde o início de sua carreira, lá no início dos anos sessenta, quando tocavam um surf rock dançante, passando pelas obras-primas psicodélicas “Pet Sounds” e “Smile” (este último um projeto abandonado na época, lançado apenas em 2004, com Brian Wilson, e em 2011, com as gravações originais), e por trabalhos seminais realizados na década de setenta, como “Sunflower” e “Surf’s Up”, a banda se manteve no supra-sumo do rock, sendo considerada como uma das mais influentes da história. Realmente, muito do que é a música hoje, seja rock ou pop, deriva das ideias implantadas pelos Beach Boys em trabalhos audaciosos, realizados há quarenta, cinquenta anos atrás.

Um desses grandes trabalhos dos Beach Boys é “Today!”, de 1965, que se caracteriza por apresentar certas mudanças estéticas na música da banda. É tido como o álbum que marca o amadurecimento definitivo do grupo californiano, pois, neste trabalho, as músicas surf que eles faziam e os levaram ao sucesso, mais simples e com letras pouco audaciosas, começam a dar espaço a canções de um nível muito alto de complexidade. Se fizermos um paralelo à banda mais conhecida daquela década, The Beatles, pode-se dizer que o “Today!” serviu aos Beach Boys assim como “Rubber Soul” serviu aos besouros – só que com um porém: “Today!” começou a ser gravado mais de um ano antes de “Rubber Soul”; enquanto o álbum de amadurecimento dos Beach Boys começou a ser construído na metade de 1964, sendo lançado no início de 1965, o álbum de amadurecimento dos Beatles só viria a luz do dia no final daquele ano.

Um fato, em particular, foi extremamente importante para tal mudança no som dos Beach Boys; após um ano de 1964 estressante, em que a banda realizou inúmeros shows e quatro álbuns em menos de doze meses, o líder da banda, Brian Wilson, se viu exausto, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Um ataque de ansiedade sofrido por ele em 23 de dezembro de 1964 foi a gota d’água para uma decisão drástica: Brian decidiu parar de fazer shows e se concentrar apenas nos trabalhos em estúdio; o restante da banda, relutantemente, concordou. Para o lugar de Brian, para ser uma espécie de tapa-buraco nos concertos, foi recrutado, primeiramente e por pouco tempo, o country Glen Campbell, sendo depois substituído por Bruce Johnston, que, aliás, até hoje está com a banda.

O álbum se caracteriza por dois lados bem definidos: o primeiro é contido por músicas dançantes, em que o surf rock da banda aparece, mesmo que mais sofisticado que nos lançamentos anteriores; já, o segundo, é uma amostra da evolução de Brian Wilson como artista, contendo canções mais melódicas, com uma produção mais sofisticada e com temas mais profundos.

Para abrir o álbum, nada melhor que um grande hit; “Do You Wanna Dance?” não é uma composição dos Beach Boys, e sim de Bobby Freeman, mas é da banda californiana a versão mais conhecida desta canção (muito por causa do “jeito Beach Boys” de se fazer, onde a habilidade rítmica do surf rock se encontra com as belas harmonias, com vocalizações poderosas). “Good to My Baby” traz o belíssimo vocal de Brian Wilson, bem como os complexos e brilhantes arranjos vocais dos backing-vocals, característica marcante do som da banda, e tudo com um instrumental impecável, em que os riffs de guitarra têm um ótimo destaque. “Don’t Hurt My Little Sister” é também caracterizada por uma interpretação impecável, tanto do vocal quanto do instrumental, reunindo todas as qualidades necessárias para uma banda ser dita completa. É inegável e assustadora a qualidade musical dos Beach Boys, ainda mais em um tempo em que os Beatles ainda eram os reis do iê-iê-iê, e os Rolling Stones ainda faziam muitos covers de blues e R&B. Ou seja, não pode se considerar um ultraje afirmar que os Beach Boys, em 1964/65, era a banda com a estética musical mais avançada do mundo.

“When I Grow Up (To Be a Man)” é também uma beleza de música, extremamente agradável, com harmonias angelicais, e uma estrutura bastante complexa, digna dos maiores elogios e dos mais demorados aplausos. Mesmo na Lado A do álbum, em que as canções contém temas mais simples, é inegável a complexidade (principalmente ao se levar em consideração a época em questão) da música dos Beach Boys – enfim, os caras são realmente lendas, um dos grupos mais revolucionários da história da música, e que merecem todo o nosso respeito. “Help Me, Ronda” e “Dance Dance Dance” são hits que acompanham os pensamentos das faixas anteriores, com instrumentais impecáveis e vocais sensacionais, e se caracterizam, assim, como mais duas canções poderosas deste brilhante álbum.

O fenomenal Lado B do disco se inicia com a belíssima “Please Let Me Wonder”, contando com uma estrutura altamente sofisticada, de onde os grandes destaques ficam para a elaborada melodia e o tema complexo (saudades, incertezas); esta, inclusive, é tida como a primeira canção escrita por Brian Wilson sob efeito de maconha. A seguinte, “I’m So Young”, é um cover de uma banda doo-wop dos anos cinquenta, que conta com a mágica interpretação dos Beach Boys, com vocalizações que nada podem ser consideradas além de perfeitas. Realmente, a qualidade harmônica alcançada pela banda em seus trabalhos mais brilhantes é fantástica, e dificilmente um dia será superada por algum grupo/artista de pop ou rock.

“Kiss Me, Baby” é uma das músicas mais bonitas já feitas pelos Beach Boys, extremamente romântica, sentimental, que é apoiada pela grande qualidade vocal da banda, especialmente de Brian Wilson; ele, em seu auge, foi um dos melhores vocalistas da história, contendo uma voz praticamente angelical, que, infelizmente, se destruiu com o passar do tempo. A arrebatadora “She Knows Me Too Well” é mais uma grande canção, com uma liderança vocal forte e sincera por parte de Brian, que a canta em um falsete celestial, passando para quem está ouvindo toda a emoção necessária; com uma interpretação incrível, ele captura o ouvinte e o leva para a atmosfera da canção, fazendo com que ele realmente viva a letra. “In the Back of My Mind” é mais uma faixa capaz de capturar o ouvinte e levá-lo a sentir, como em um sonho, tudo o que a banda queria passar; o instrumental serve como um colchão macio, confortante, enquanto o vocal é o travesseiro que repousa nossa antes pesada cabeça, que agora vai se tornando leve, leve, cada vez mais leve…

Leveza essa que pode ser interligada com a sutileza da banda, e, principalmente, de seu líder, o genial Brian Wilson. O tempo a mais que ele passou a trabalhar apenas no estúdio, foi como dar a machadinha e a pedra-sabão para o Aleijadinho e o pedir para criar livremente, utilizando todo o seu potencial. Brian foi um explorador visionário, um entusiasta da boa música, que deu tudo do seu melhor para explorar todas as mais belas nuances e possibilidades do estúdio. Com a ajuda de seus companheiros de banda, ele conseguiu criar verdadeiras obras-primas da música, que nunca devem ser esquecidas. E “Today!” é, inegavelmente, um destes grandes trabalhos.

NOTA: 9,7

Track List:

01. Do You Wanna Dance? (Bobby Freeman) [02:19]

02. Good to My Baby (Brian Wilson/Mike Love) [02:16]

03. Don’t Hurt My Little Sister (Brian Wilson/Mike Love) [02:07]

04. When I Grow Up (To Be a Man) (Brian Wilson/Mike Love) [02:01]

05. Help Me, Ronda (Brian Wilson/Mike Love) [03:08]

06. Dance Dance Dance (Brian Wilson/Carl Wilson/Mike Love) [01:59]

07. Please Let Me Wonder (Brian Wilson/Mike Love) [02:45]

08. I’m So Young (William H. “Prez” Tyus) [02:30]

09. Kiss Me, Baby (Brian Wilson/Mike Love) [02:35]

10. She Knows Me Too Well (Brian Wilson/Mike Love) [02:27]

11. In the Back of My Mind (Brian Wilson/Mike Love) [02:07]

12. Bull Session with the “Big Daddy” (Entrevista) [02:10]

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