1987: Rock’n Geral – Barão Vermelho

Por: Renan Pereira

É curioso ver como, às vezes, há um enorme abismo entre a qualidade musical e o sucesso comercial. A banda Barão Vermelho é uma das bem sucedidas do rock nacional, mas mesmo assim já atravessou uma fase complicada em questão de vendas. O início havia sido fantástico, mas após a saída de Cazuza, que embarcou em uma bem-sucedida carreira solo, as coisas começaram a ficar bem feias. Não em questão de qualidade: “Declare Guerra”, o primeiro álbum da banda sem Cazuza, de 1985, é um trabalho muito bom, rico musicalmente, e mostra que a banda poderia sim se virar sem seu antigo frontman. Mas as vendas ruíram; mesmo contando com a participação de grandes letristas, como Renato Russo e Arnaldo Antunes, o público do antigo Barão estava muito focado na carreira solo de Cazuza, deixando Roberto Frejat e sua trupe a ver navios.

Se as vendas de “Declare Guerra” já haviam decepcionado, é de se imaginar como a banda ficou ao ver seu sucessor, “Rock’n Geral”, vender a ridícula quantia de quinze mil cópias. E sabe o que é mais engraçado? Em “Rock’n Geral” a banda estava muito mais concreta, já desenvolvendo uma nova sonoridade, e se apresentando com um belo álbum de rock n’ roll. Frejat se mostrava à vontade, demonstrando competência tanto em composições de riffs quanto de letras, e se fortalecendo como o novo grande líder da banda. Mas o público não viu nada disso… É uma pena, sem dúvida, que um trabalho tão bom tenha sido esquecido, mas ele está aí, gravado e pronto para ser ouvido por quem quiser. Então, é hora de lembrá-lo.

Quem abre alas é “Amor de Irmão”, uma grande canção, composta por Cazuza, com um instrumental hard rock praticamente perfeito, lembrando bastante o som da banda Made in Brazil; a letra é competente como as letras de Cazuza costumavam ser, e com a guitarra de Frejat tudo parecia se encaixar melhor. “Sonhos Que Dinheiro Nenhum Compra” é mais cadenciada, tem um destaque rítmico legal, e apresenta mais um belo show de riffs. Com a saída de Cazuza, as influências mais pesadas de Frejat acabaram vindo à tona, tornando o Barão, pelo menos nos primeiros anos sem Cazuza, rotulado como uma banda de hard rock.

A dançante “Tá Difícil de Aturar” contém um lado funk bastante proeminente, e por isso o maior destaque acaba ficando para o ritmo, com ótimas atuações do baixista Dé e do baterista Guto Goffi. Aliás, é nesta fase de menor sucesso comercial que a banda se comportou mais como um conjunto, tendo todos os integrantes participando ativamente das composições. A sensual e curta “Completamente Nova”, se comporta como toda boa composição de Frejat, contendo riffs de grande competência; ele nunca foi o mais técnico dos guitarristas, mas é, sem dúvida, um dos mais regulares da história do rock nacional (e o de maior destaque na década de oitenta). Nesta época, aliás, onde o rock andava por caminhos tortuosos, o Barão Vermelho merece muitos elogios; a banda acabou sendo um dos grandes alicerces do rock brasileiro, pois não se afogava em modismos, e apesar de alguns insucessos de vendas, continuava com o mesmo (e bom) ideal sonoro.

“Blues do Abandono”, apesar desse título, não é tão influenciada por blues como outras músicas do álbum (ou como a maioria das canções já compostas por Roberto Frejat); apesar dos ótimos riffs, aqui o ponto mais impressionante volta a ser a qualidade rítmica do Barão. Qualidade esta que se retifica quando se vê que poucas vezes uma banda brasileira oitentista de rock fez um álbum tão   despreocupado (no bom sentido) quanto “Rock’n Geral”, que contém quase nada de baladas ou canções de apelo comercial; o “quase” existe por causa de “Me Acalmo, Me Desespero”, uma boa canção romântica, mas inesperada, de onde podemos ouvir surpreendentes solos de saxofone. “Copacabana”, a canção mais longa do disco, contém uma boa dose daquela estranha sonoridade característica da década de oitenta, mas é sim uma boa música, muito em função da inteligente letra, que leva características mais promíscuas e contemporâneas a um bairro que, nas composições, sempre foi mais lembrado pelo romantismo.

“Dignidade” é um rock mais calmo, mas muito bem feito, contando com a competência instrumental característica de “Rock’n Geral”, de onde poucas críticas negativas podem ser tiradas. Infelizmente, o fraco desempenho comercial do disco acabou por torná-lo esquecido, e hoje pouco lembrado pelos amantes do rock nacional; se tivesse vendido bastante, talvez hoje estivesse perambulando por listas de álbuns mais cultuados da nossa música. “Agora Tudo Acabou” é mais uma ótima canção, versão de “It’s All Over Now”, do The Valentinos, que também foi gravada pelos Stones. Existem as regravações aproveitadoras, que pegam um grande sucesso apenas como garantia de lucros, sem correr nenhum risco; há aquelas que também pouco acrescentam, não fedem e não cheiram… mas esta regravação do Barão é muito bacana, de extremo bom gosto, trazendo na sua estrutura o selo “Barão Vermelho” de qualidade.

Depois de um blues rock, a totalmente blueseira “Quem Me Olha Só” aparece para mostrar quão clássicas sempre foram as influências do Barão, de Rolling Stones a Janis Joplin; nesta canção, há a participação, na composição, do ótimo letrista Arnaldo Antunes, que na época ainda fazia parte dos Titãs. “Contravenção” é a ótima última faixa de um álbum que parece passar rápido demais; é uma música dinâmica, instrumentalmente impecável, e consistente como todo o “Rock’n Geral” é.

Dizem que as coisas ruins parecem demorar a acabar, enquanto as boas passam rápido demais. Com isso, é possível afirmar que “Rock’n Geral” é bom demais, pois passa voando. E se trata realmente de um ótimo disco, inclusive se apresentando como um dos melhores da carreira do Barão. Ele demonstra uma banda competente, adulta, totalmente consciente do que fazer. Pode não ter vendido o que se esperava, mas isso não tem lá grande importância; se muita coisa que fez sucesso nos anos oitenta é atualmente ignorada, sendo sinônimo de péssimo gosto musical, cabe espaço para admirar um álbum daquela época que vendeu muito pouco, mas que tem grandes qualidades.

O que é ruim pode até fazer um sucesso momentâneo, mas logo some, sendo depois esquecido e virando motivo para piadas. Mas o que é bom, mesmo que não faça sucesso à primeira vista, acaba sendo admirado ao passar dos anos. Nesse caso, o tempo faz a justiça. E “Rock’n Geral” é, mesmo vinte e tantos anos depois de seu lançamento, um álbum para ser apreciado.

NOTA: 8,1

Track List:

01. Amor de Irmão (Cazuza/Dé/Frejat) [03:43]

02. Sonhos Que Dinheiro Nenhum Compra (Frejat/Barroso) [03:17]

03. Tá Difícil de Aturar (Dé/Frejat) [04:31]

04. Completamente Nova (Frejat) [02:00]

05. Blues Do Abandono (Dé/Frejat/Sérgio Serra) [03:00]

06. Me Acalmo, Me Desespero (Frejat/Sérgio Serra) [03:59]

07. Copacabana (Frejat) [05:01]

08. Dignidade (Frejat) [03:23]

09. Agora Tudo Acabou (B. Womack/S. Womack – versão: Frejat/Ezequiel Neves) [03:33]

10. Quem Me Olha Só (Arnaldo Antunes/Frejat) [03:57]

11. Contravenção (Frejat/Guto Goffi) [03:03]

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