2012: Wrecking Ball – Bruce Springsteen

Por: Renan Pereira

Quando Bruce Springsteen promete lançar um álbum, este acaba sempre se encontrando na lista dos mais aguardados do ano. E não é por acaso. A carreira de Springsteen é rica como poucas, de uma qualidade indiscutível, e mesmo em seus trabalhos menos brilhantes, ele conseguiu permanecer em um nível muito mais elevado que a maioria dos músicos. Desde a sua estreia, em 1973, ele vem se mantendo como um dos principais nomes da música  mundial, e pode-se dizer que a maioria de seus álbuns são fantásticos. Houve um momento menos criativo na década de noventa, é verdade, mas uma fase não foi capaz de tirar o brilho deste grande artista. Bruce Springsteen é um gênio, e por isso merece todo auê que se faz quando um novo trabalho de sua autoria é lançado.

O álbum da vez é “Wrecking Ball”, seu décimo-sétimo de estúdio, lançado em março deste ano. Nele podemos encontrar toda a forte e já conhecida personalidade de Springsteen, capaz de discutir a sociedade como poucas, sempre ligada no que está acontecendo e calibrada para uma crítica inteligente e certeira. Neste trabalho, se passeia pela atualidade de crises, sejam estas financeiras ou políticas; o momento complicado pelo qual os Estados Unidos passam atualmente, com pequeno crescimento econômico, elevadas taxas de desemprego e incapacidade política, é um prato cheio para Springsteen, servindo de pano de fundo para mais um belo álbum de rock.

Há, porém, os demasiadamente saudosistas, que não vêem nos trabalhos mais atuais de Springsteen a mesma energia contida em seus maiores clássicos, como “Born to Run” e “Born in the U.S.A.”, por exemplo. É fato que a sonoridade vem mudando, e mesmo em “Wrecking Ball” há uma aproximação forte como nunca ao folk (sempre houveram constantes flertes, mas nunca com tanta intensidade). Mas isso não é pretexto para desqualificar o que Springsteen tem feito, afinal, os anos têm passado, estamos em 2012, e Bruce não é mais nenhum garoto. “Wrecking Ball” provavelmente é seu trabalho mais introspectivo, um dos menos pulsantes, mas tudo isso é aceitável; Springsteen vive um outro momento em sua carreira, e aos 62 anos, mesmo mantendo-se original, com sua música inconfundível, vem buscando novos ares, até mesmo mais tranquilos, pensativos… Apesar do título se referir a uma bola de demolição, o som não é assim tão raivoso, mas traz, mesmo em um Bruce mais aplacado, a mesma capacidade dos velhos tempos. Suas letras continuam afiadas.

O álbum abre com a poderosa “We Take Care of Our Own”, com seu instrumental belo e impecável, já mostrando como o álbum vai se comportar; a canção questiona o que tem sido feito ultimamente, com Bruce escancarando seu desgosto às atuais estrelas e faixas da bandeira americana. A partir disso, procura-se argumentar ao longo da crise atual, como na de fácil interpretação “Easy Money”, uma canção semi-acústica, servindo como um claro recado aos banqueiros, personagens principais desta última crise e, por isso, grandes personagens do álbum. Em “Shackled and Drawn”, Bruce, inteligente como sempre, com grandes tiradas, nos diz que “o banqueiro fica gordo, enquanto quem trabalha cresce magro”. Se o instrumental folk é pertinente, a produção competente trabalha de forma à tratá-lo o mais adequadamente possível, a fim de não soar obscuro. Mas, se o contexto pede algo mais “heartland”, nada melhor que explorar nuances do folclore estadunidense.

A tristonha “Jack of All Trades” faz um mergulho certeiro nos incertos sentimentos vividos por quem enfrenta o pior do momento atual, com brados sobre “ladrões gananciosos”, que tiraram tudo o que puderam de tudo que encontraram; a participação de Tom Morello é o grande destaque do instrumental da canção, com um solo de melodia rica, melancólico na medida certa. “Death to My Hometown” é uma canção interessante, mas seu instrumental é incerto; a produção do álbum se mostrou boa, mas precisava alocar elementos hip hop em instrumental folk? “This Depression” continua a mostrar um álbum político com “p” maiúsculo, mas que fique bem claro que este não é nenhum defeito; Bruce Springsteen sempre soube como fazer, e suas ideias são coerentes. Há alguns pequenos clichês ali ou acolá, mas nada que desqualifique seus pensamentos.

A sétima é a faixa-título, e se trata, indubitavelmente, de uma das melhores faixas do álbum; sua belíssima melodia, aliada a um rico e competente instrumental, nos traz novamente, mesmo que por pouco tempo, o mesmo Bruce Springsteen energético de vinte e tantos anos atrás. “You’ve Got It” é mais uma ótima canção, provavelmente a mais blues do “Wrecking Ball”, e deixa claro que não são necessárias grandes inovações ou novidades para que Springsteen faça um trabalho digno de elogios – por isso mesmo aquela “alguma coisa de hip hop, meio ‘We Will Rock You’, em um solo tradicional”, não é das apostas mais certeiras. Isso fica claro em “Rocky Ground”, que até lembra um pouco a famigerada “Streets of Philadelphia”, mas o tema religioso contido na música pode ser considerado exagerado. Ok, o amor mútuo foi esquecido, Jesus faz falta, mas o disco se apresenta político, e misturar política com religião nunca deu muito certo.

Para a sorte dos ouvintes, o rapping duvidoso da nona faixa passa rápido, e em “Land of Hope and Dreams” ouve-se o velho Bruce, afiado como sempre, com uma canção poderosa, talvez a mais brilhante do disco; ela não é apenas fantástica liricamente, mas como também apresenta um daqueles instrumentais capazes de deixar o ouvinte boquiaberto. Por mais que “Wrecking Ball” não seja um álbum perfeito, suas qualidades são inegáveis: Bruce Springsteen, mesmo não estando em seu momento mais inspirado da carreira, conseguiu construir um dos registros musicais mais fortes da atualidade; um álbum marcante, de personalidade forte, e capaz de discutir a atualidade sem lero-leros ou puxa-saquismos.

“We Are Alive” serve como uma mensagem final, e diz que, apesar de todas as dificuldades, ainda há espaço para a vida. O melhor de tudo é que esta, bem como todas as outras canções do “Wrecking Ball”, além de formarem um álbum consistente, digno do grande artista que Bruce Springsteen é, nos faz pensar. São raros os trabalhos atuais que forçam nosso cérebro, que nos fazem refletir. Por mais que seja triste ver que apenas a velha guarda está preocupada em discutir a atualidade, é ótimo ver que ela ainda está disposta a fazer isto. E Bruce Springsteen, com seu olhar crônico, nos mostra que não basta viver o agora e deixar que tudo aconteça a nossa volta…

NOTA: 8,1

Track List:

01. We Take Care of Our Own [03:54]

02. Easy Money [03:37]

03. Shackled and Drawn [03:46]

04. Jack of All Trades [06:00]

05. Death to My Hometown [03:29]

06. This Depression [04:08]

07. Wrecking Ball [05:49]

08. You’ve Got It [03:03]

09. Rocky Ground [04:41]

10. Land of Hope and Dreams [06:58]

11. We Are Alive [05:36]

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